Antiga senzala na fazenda Santa Maria do Monjolinho - Crédito: Reprodução/Facebook13 DE MAIO
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(SUB) Historiadora questiona “bondade” de fazendeiros e nega que tenha havido abolição antecipada no município
Hoje, dia 13 de maio, comemoram-se no Brasil os 138 anos da promulgação da Lei Áurea, que encerrou a escravidão no país. Em 13 de maio de 1888, 3.726 escravos na cidade foram libertos pela Lei Áurea.
A contribuição da raça negra na construção de São Carlos e de toda a sua riqueza é algo inquestionável e que está gravado na história do município desde a época áurea do café, no século XIX, até os dias atuais, com tradições como a capoeira, a feijoada e o samba, entre outras, o que desafia o racismo que insiste em persistir.
De acordo com dados do “Inventário Analítico: A escravidão em São Carlos”, do prof. Álvaro Rizzoli, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), durante o período escravocrata, São Carlos atingiu o segundo lugar no tráfico de escravos para o interior paulista, perdendo somente para a região de Campinas.
LIBERTAÇÃO ANTECIPADA? – A historiadora da Fundação Pró-Memória e pesquisadora da história de São Carlos, Leila Massarão, afirma que é comum entre os memorialistas locais e mesmo entre muitos são-carlenses a ideia de que o fim da escravidão em São Carlos teria acontecido meses antes da abolição oficial, em 13 de maio de 1888.
Tal “informação” se apoiaria em uma nota do Jornal do Senado do Império, de 14 de maio de 1888, onde se lê: “Em São Paulo, diversas cidades libertaram seus escravos no ano passado. Em São Carlos do Pinhal, o fim do cativeiro foi proclamado em dezembro”.
“Contudo, não há nenhum registro na imprensa local, nos documentos da Câmara Municipal ou em qualquer outra fonte que comprove essa ação e, segundo análises de eventos similares em outras cidades, parece ter sido mais um evento de propaganda política, onde a abolição teria se consolidado pelas dádivas de bondosos senhores”, destaca ela.
Segundo Leila, é preciso salientar que apenas três proprietários de escravizados são citados por terem feito a alforria nessa ocasião. Logo, cativos continuaram a existir na cidade até a abolição.
Junte-se a isso a verificação das alforrias registradas pelo futuro Conde do Pinhal (um dos citados como tendo alforriado seus escravos, mas que ainda possuía escravizados em 1888), em 1887, quando a liberdade foi dada “sob condições”, ou seja, só se efetivaria após mais algum tempo de trabalho, chegando até a cinco anos a mais de cativeiro:
“Concedo liberdade (…) para que goze como se nascesse de ventre livre, com a condição, porém, de prestar-me serviços de lavoura por cinco anos, a contar da data desta carta de liberdade, sem que por esses serviços tenha direito a qualquer indenização, dando-lhe alimentação, vestuário e tratamento em suas enfermidades” (Carta de Liberdade registrada no livro de notas nº 60, f.67v. 1º Tabelião de Notas e Protestos de São Carlos, 1887).
O trabalho historiográfico frente aos eventos que envolveram a abolição da escravatura no Brasil tem se ampliado e desfeito alguns sensos comuns que estão intrinsecamente ligados a uma visão idealizada da ‘libertação’ e do papel de autoridades, senhores e personagens de destaque na dita história oficial, deixando de lado a resistência dos escravizados, suas vivências e o seu papel histórico antes e depois do período escravista.
MARCAS DO PASSADO – A historiadora explica ainda que, como acontece em qualquer lugar marcado por um passado escravista, e tão recente como é o caso do Brasil, ainda temos marcas profundas nas relações entre pessoas de etnias diferentes, em especial no que concerne ao preconceito racial, ao racismo religioso e ao menosprezo fenotípico tão entranhado em nossa sociedade.
Porém, ela ressalta a resistência dos afrodescendentes como forma de reduzir essa chaga. “Mas, nas últimas décadas, isso tem sido combatido de maneira mais forte e insistente, e já apresenta bons resultados, com o conhecimento e reconhecimento do papel dessas populações para o Brasil, de forma geral, e para cada rincão desse país — pelo contributo cultural, artístico, musical, alimentar, nos modos de viver, no papel feminino na memória e nas histórias familiares e de grupos. E, mais ainda, como essas pessoas construíram, através do trabalho, antes e agora, esse país. E como têm o direito de se reconhecerem e se orgulharem de seus ascendentes”.
Leila destaca que não se pode mais pensar os afrodescendentes apenas pela perspectiva da escravização. “Eles já mostraram que são e estão muito longe dessa herança e deram, e continuam contribuindo, com esse país e com todos nós”, conclui ela.
A CONTRIBUIÇÃO DOS AFRODESCENDENTES – O memorialista Cirilo Braga afirma que a contribuição dos afrodescendentes para o desenvolvimento de São Carlos é algo incontestável. “Desde a formação do município, essa presença já era marcante. Foi a força de trabalho da população negra que ajudou a alavancar a economia local, desde a cafeicultura e a industrialização até a consolidação do setor de serviços. A atuação dos afrodescendentes é proeminente nas artes, nos esportes, na educação, na culinária, na religião e nos costumes... é uma riqueza cultural imensa”.
Segundo Braga, ainda há resistência ao reconhecimento do valor da etnia negra. “O que acontece é que, infelizmente, ainda persiste a tentativa de apagar ou minimizar essa participação na história oficial da cidade. É como se quisessem excluir os negros da construção de São Carlos. Mas não se podem negar os fatos. A gente precisa, sim, valorizar essa trajetória e reconhecer o papel fundamental da comunidade negra ao longo dos anos”.
Assim, há quem tente excluir a participação dos negros em momentos importantes da história do Brasil. “Pouca gente sabe, por exemplo, que durante a Revolução Constitucionalista de 1932, muitos afrodescendentes se alistaram como voluntários. Dois dos heróis são-carlenses sepultados na Praça dos Voluntários, Alípio Benedito e Benedito da Silva, eram afrodescendentes. E isso se repetiu em vários outros momentos históricos. Mas o preconceito e a discriminação acabaram apagando esses feitos da memória coletiva”.
Mesmo assim, segundo Braga, houve resistência. “A atuação de entidades como o Grêmio Flor de Maio e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro Congada foi essencial nessa luta por justiça e igualdade aqui em São Carlos. Eles fizeram — e ainda fazem — um trabalho muito importante”.
Segundo o memorialista, as novas gerações precisam conhecer essas histórias. “Saber quem foram Odette dos Santos, Chica Lopes, professora Maria Domingas Gonçalves, Adalberto Gonçalves, o Bebeto, Jair Rodrigues, Nelson Prudêncio... gente que viveu aqui e foi gigante nas áreas em que atuou. Eles são parte da alma de São Carlos”, destaca ele.





