Mascote CaLi, personagem que representa o #CasaLibras (Imagem: Reprodução) - Como tornar o aprendizado mais acessível, acolhedor e culturalmente significativo para crianças surdas desde os primeiros anos de vida? Essa foi a pergunta que motivou a criação do #CasaLibras, programa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) coordenado por Vanessa Regina de Oliveira Martins, docente do Departamento de Psicologia (DPsi) e do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs).
O programa surgiu em 2020, durante a pandemia de Covid-19, a partir de pesquisas conduzidas pela professora em escolas públicas com propostas bilíngues para estudantes surdos. “Eu desenvolvia um estudo com escolas públicas que tinham proposta bilíngue e a pesquisa mostrou a escassez de materiais didáticos em Libras”, lembra Martins.
Diante desse cenário, a primeira ação foi a produção de contações de histórias em Língua Brasileira de Sinais (Libras), disponibilizadas online para professores e estudantes. O material rapidamente circulou entre escolas públicas de várias regiões do país. “Quando falamos de entretenimento para crianças surdas, praticamente não há acessibilidade, ainda mais na fase de desenvolvimento de linguagem”, observa a professora.
Com o tempo, o que começou como uma ação emergencial de extensão se estruturou como um programa consolidado da universidade. Atualmente, o #CasaLibras articula pesquisa, ensino e extensão na produção de conteúdos educativos e culturais em Libras, reunindo vídeos, materiais pedagógicos, formações e ações culturais voltadas às chamadas infâncias surdas.
Os materiais produzidos são utilizados por escolas públicas em todo o Brasil e parte do conteúdo está disponível gratuitamente no canal do programa no YouTube: youtube.com/@CasaLibrasUFSCar. “Temos hoje um repositório variado culturalmente e de uso gratuito, com ampla circulação, que vem sendo utilizado por instituições de ensino públicas do Brasil todo”, explica Martins.
Acessibilidade e protagonismo surdo
Um dos focos do programa é garantir que os materiais sejam realmente acessíveis, o que envolve cuidados técnicos além da simples tradução para Libras, como enquadramento adequado da janela de Libras nos vídeos, iluminação, contraste de cores, ritmo narrativo e adaptação cultural das histórias. “Não se trata apenas de traduzir. Muitas vezes é necessário adaptar o conteúdo para a cultura surda e pensar visualmente a narrativa”, afirma a coordenadora.
Outro princípio central é o protagonismo de pessoas surdas na produção dos conteúdos. Adultos surdos atuam como artistas, narradores e produtores culturais, ampliando referências e representatividade para as crianças.
Entre as ações de maior alcance está o Campeonato Artístico-Literário do #CasaLibras, que mobiliza escolas de diferentes regiões do país na produção de trabalhos culturais em Libras. A primeira edição reuniu apenas cinco escolas; hoje, o campeonato conta com mais de 60 instituições participantes.
“O principal impacto é a relação que estabelecemos entre universidade e educação básica. É impacto na vida das crianças surdas. As famílias relatam que elas acessam nosso canal e passam a ter um espaço de produção cultural em língua de sinais”, destaca Martins. A próxima edição terá dois marcos importantes: a quinta edição nacional e a primeira participação internacional, com articulações em andamento com instituições do Uruguai.
Mascote CaLi, proteção institucional e parcerias
O crescimento do programa levou à criação de elementos de identidade visual voltados ao público infantil, como o mascote CaLi, personagem que representa o #CasaLibras. A ideia surgiu durante uma disciplina de estágio e o nome foi escolhido por votação entre estudantes. “O CaLi foi pensado com atenção a aspectos visuais e simbólicos ligados à comunidade surda, incluindo o uso de cores associadas à cultura surda e à identidade visual do projeto”, explica Martins.
Com a circulação do mascote em atividades e eventos, escolas passaram a solicitar produtos relacionados, como camisetas, materiais pedagógicos e versões do boneco. Para ampliar a escala, o projeto recebeu apoio da Agência de Inovação da UFSCar (AIn.UFSCar) para registrar a marca #CasaLibras e o desenho industrial do mascote.
A formalização garante segurança jurídica e abre caminho para futuras parcerias com empresas e instituições interessadas na produção e difusão dos materiais. “A comercialização de produtos pode reverter recursos para o próprio projeto e ampliar a produção de materiais. Além disso, parcerias permitem escalar essas iniciativas e levar conteúdos e personagens a mais crianças e escolas”, conclui Martins.
Empresas e instituições interessadas em apoiar o desenvolvimento de materiais, patrocinar ações do projeto ou estabelecer parcerias podem entrar em contato com a Agência de Inovação da UFSCar pelo e-mail inovacao@ufscar.br ou pelo telefone (16) 3351-9433.





