(16) 99963-6036
sábado, 14 de março de 2026
História

Ítalo Brasileiro completa 73 anos de atividades

Clube herdou edifício da Società Meridionale Uniti Vittorio Emanuele III ou Società Italiana di Mutuo Soccorso, criada em 1900 pelos italianos e seus descendentes

14 Mar 2026 - 09h00Por Da redação
O Clube ítalo Brasileiro: herança da imigração italiana, agremiação segue com programação de eventos dançantes no centro da cidade e no ano passado trouxe Paulo Ricardo num dos maiores shows da história da cidade e região  - Crédito: By Sintegrity - Own work, CC BY-SA 4.0,O Clube ítalo Brasileiro: herança da imigração italiana, agremiação segue com programação de eventos dançantes no centro da cidade e no ano passado trouxe Paulo Ricardo num dos maiores shows da história da cidade e região - Crédito: By Sintegrity - Own work, CC BY-SA 4.0,

O Instituto Cultural Ítalo Brasileiro completa, neste sábado, 14 de março, 73 anos de atividades, levando o nome de uma das etnias que contribuíram para a consolidação e construção da história, da economia e da cultura de São Carlos.

A agremiação foi criada em 1953, período em que São Carlos vivia o pré-centenário do município, comemorado em 1956. Naquela época, a cidade via nascer também seu polo universitário, pois, no dia 18 de abril do mesmo ano, foi realizada a aula inaugural da Escola de Engenharia da USP. Como o nome do instituto já indica, o clube reflete a presença dos imigrantes italianos em São Carlos.

Os italianos já haviam deixado sua marca na cidade. Fundada em agosto de 1900, a Società Meridionale Uniti Vittorio Emanuele III, ou Società Italiana di Mutuo Soccorso, já congregava imigrantes da Itália e seus descendentes. A agremiação propunha unir as classes operárias, promovendo o sentimento de dever, instrução, educação e socorro para seus associados.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as agremiações italianas tiveram suas atividades suspensas, retornando apenas após o término do conflito. Nesta ocasião, a Società Dante Alighieri (que ocupava o prédio do atual CDCC USP) e a Vittorio Emanuele III passaram a ter administração única. Em 1953, o prédio da Vittorio Emanuele III foi doado ao Instituto Cultural Ítalo Brasileiro, que viria a construir sua sede na área do prédio original.

 

CLUBE CONTINUA FORTE E ATIVO

O atual presidente do Ítalo é o ex-secretário municipal de Esportes e atleta consagrado de São Carlos, José Favoretto, mais conhecido como “Zezão”. O ex-jogador de futebol e voleibol afirma que o primeiro presidente do Ítalo foi o professor Ítalo Savelli.

“Em 1956, tive o prazer de ver meu tio, Delmiro Favoretto, como o segundo presidente do clube, cargo que ocupou até 1961. De lá para cá, tivemos 16 presidentes, 16 diretores e seus conselhos deliberativos, que muito fizeram pelo clube. Tivemos canchas de boxe e quadra de futebol de salão, hoje futsal. Inclusive, na década de 1960, meu pai... O Ítalo foi campeão estadual em 1964 no futsal, com uma rivalidade gostosa com a ABASC, na era de ouro do futebol de salão. Meu pai, Zim Favoretto, foi diretor de esportes nessa época áurea”, destaca ele.

Ele conta que o clube já teve atividades diversificadas. “Tivemos também locais para jogatina de baralho e sinuca. Hoje, o Ítalo se resume aos seus bailes. Estamos tentando trazer grandes atrações. É um dos únicos clubes que continuam fazendo carnaval de salão em piso de taco, com muitas dificuldades, mas ainda conseguimos manter a tradição, com o Baile do Dia dos Pais, Dia das Mães, Baile Vermelho e Branco, Azul e Branco, e o Baile de Aniversário do Clube, neste sábado, 14 de março, com grande show baile da Banda Doce Veneno.”

Zezão afirma que o clube continuará na luta para manter eventos e diversão para o povo são-carlense. “Temos o maior prazer de agradecer a todos que nos ajudaram ao longo desses anos: diretores, funcionários e todos que contribuíram muito pelo clube. Hoje, em 2026, o Ítalo segue tranquilo, promovendo eventos de sexta a domingo, e aos sábados os grandes eventos.”

No ano passado, Zezão trouxe a São Carlos o grande cantor Paulo Ricardo, ex-vocalista da banda RPM e mito do rock nacional. O sucesso foi tanto que uma só noite, em 18 de outubro, não foi suficiente para receber tanta gente. Assim, Paulo Ricardo precisou fazer um segundo show no domingo, 19 de outubro.

ÍTALO É HERANÇA DOS IMIGRANTES ITALIANOS

A imigração italiana, que completou 151 anos no último dia de fevereiro, deixou marcas profundas no município de São Carlos, seja nos sobrenomes, na culinária, na cultura, nos costumes e até na economia.

Os italianos deixaram seu país por motivos econômicos e socioculturais. O grande fluxo migratório começou após a unificação da Itália, em 1870. A massa de italianos trabalhou em fazendas de café, e a dificuldade de acumular capital fez com que muitos migrantes partissem das fazendas para o centro da cidade.

São Paulo chegou a ser conhecida como “cidade italiana”, pois esses imigrantes se ocuparam especialmente na indústria e nas atividades de serviços urbanos. Em 1901, italianos chegaram a representar 90% dos 50 mil trabalhadores das fábricas paulistas.

Para fugir da fome, cerca de 12 milhões de italianos migraram para várias partes do mundo. Deste total, uma boa parte veio para o interior paulista trabalhar nas fazendas de café.

Os primeiros italianos chegaram ao Brasil em 21 de fevereiro de 1874, desembarcando primeiro em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo, berço da colonização italiana.

Os imigrantes chegaram a São Carlos para transformar a história do município. Vieram trabalhar na lavoura de café e, mais tarde, ajudaram na industrialização da cidade. A escassez de mão de obra escrava, seu declínio e fim, com a abolição, já eram previstos por fazendeiros mais visionários, como Antônio Carlos de Arruda Botelho, o Conde do Pinhal.

A partir de 1880, a imigração se intensificou. O exército de europeus somava-se à mão de obra escrava nas lavouras, pois a superprodução de café permitia ambos os tipos de empregados. Em 1886, cerca de um oitavo da população era formada por imigrantes. Somente a Capital Paulista tinha mais estrangeiros que São Carlos naquele ano.

Com eles, modificaram-se as edificações nas fazendas, surgindo as chamadas colônias, com diversas pequenas casas. Numa época em que nem se sonhava com a automação na lavoura, a mão de obra livre era a esperança de manter o apogeu do café.

Em 1899, São Carlos tinha, segundo o Club da Lavoura, 15 mil trabalhadores rurais, sendo mais de 10 mil italianos. Destacavam-se ainda 1.356 espanhóis, 886 portugueses, 447 austríacos, 211 alemães, 119 polacos e três franceses. Em 1907, São Carlos contava com 38.642 habitantes, sendo 11.342 italianos, correspondendo a 29,35% da população local.

Na Fazenda Santa Maria do Monjolinho, a antiga senzala foi transformada em moradia para os colonos, que trabalhavam como meeiros. Muitos atuaram na produção de café e em diversos ofícios da época, ajudando a construir a cidade de São Carlos.

O professor Oswaldo Truzzi, autor de Café e Indústria – São Carlos 1850-1950, frisa que, ao contrário do que se pensa, os colonos não conseguiram se fixar em sistema de pequenas propriedades, como era tradição europeia. O regime de grandes latifúndios, vigente até hoje, dificultava a ascensão social, que muitos conseguiram graças aos seus talentos, especialmente com o início do processo de industrialização.

Hoje, a imigração europeia faz parte da história e deixou marcas permanentes em diversos setores da vida local, como culinária, costura, esportes, música, entre outros.

A historiadora Leila Massarão, da Fundação Pró-Memória, ressalta que as marcas dos italianos estão no sotaque do são-carlense, nos casarões do século XIX e na culinária. “A alimentação tem fortes traços italianos, com destaque para a polenta, alimento do trabalhador rural e urbano, hoje produzida de forma mais elaborada”, comenta. Outro quitute de sabor italiano, muito apreciado em São Carlos, é o boconote, tradicional doce italiano do tamanho de uma empada grande, com recheio de nozes, uvas passas ou ameixa.

Os casarões, como o Palacete Conde do Pinhal, Palacete Bento Carlos, a Casa Sede da Fazenda Santa Maria e o Mercado Municipal original, apresentam a genialidade de engenheiros e arquitetos italianos, como Pietro David Cassinelli, Samuel Malfatt e Giuliano Parolo, e a capacidade prática de empreiteiros como Attilio Picchi e Francesco Daddamio. Outros empreendedores italianos, das famílias Mastrofrancisco, Giongo e Luiz Fazzi, se destacaram na construção e cantaria. Muitos desenvolveram serralherias, marmorarias e serrarias em São Carlos. Ainda hoje é possível constatar, apesar da deterioração, a qualidade e eficiência desses trabalhos nos artefatos funerários do Cemitério Nossa Senhora do Carmo, principalmente nos túmulos da parte mais antiga, o lado oeste, que remonta aos anos 1890.

Leia Também

Últimas Notícias