Crédito: Foto: Arquivo Pessoal Adelson SampaioCriada pelos ferroviários, barrada na Ditadura e ressuscitada nos anos 1980, tradição era a marca registrada nas quartas-feiras de Cinzas.
Uma singular tradição carnavalesca local de Itirapina pode simplesmente morrer por falta de interesse dos próprios foliões. O “Enterro do Carnaval”, evento realizado ao meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas, foi retomado em 2025, mas não há confirmação se será realizado este ano. O último “funeral” havia sido realizado em 2018, após seis anos de intervalo.
A tradição “ressuscitou” com uma novidade: na festa desta quarta-feira, ao invés de pedir bebidas alcoólicas aos moradores por onde passou o cortejo, os foliões solicitaram alimentos para o asilo e outras entidades assistenciais do município.
O secretário de Turismo e Meio Ambiente, Beto Zoom, afirma que, por parte do governo municipal, a programação prevê os desfiles, mas não inclui o tradicional cortejo que fechava as festas de Momo.
NASCE UMA TRADIÇÃO ÚNICA – O Enterro do Carnaval de Itirapina nasceu graças à iniciativa de um grupo de ferroviários comandados por Antonio Sampaio, que também foi sindicalista de grande influência e vereador do município. Numa terça-feira de Carnaval da década de 1950, Sampaio e demais foliões, inconformados com o fim da festa, resolveram esticá-la um pouco mais, inventando um funeral alegre.
Desta forma nasceu uma festa original e única no Brasil: o Enterro do Carnaval. O evento se tornou tradicional e deu vida a seus personagens principais. Um caixão saía do antigo Tênis Clube com o “Sacristão”, a “Viúva”, o “Bebê Órfão” e outros foliões. Assim, o cortejo de carnavalescos circulava pelas ruas da cidade, que era bastante pequena, passando por bares e casas de moradores, pedindo “oferendas”, que nada mais eram do que garrafas de cachaça, conhaque, vinho e outras bebidas, enquanto faziam a ladainha e realizavam a defumação.
Ao final do cortejo, o Carnaval era enterrado e todos os “órfãos” que levavam o defunto tinham direito, naquela mesma noite, a tomar uma canja de galinha e também boas goladas de pinga e outras bebidas alcoólicas. Beber em homenagem ao morto — no caso, o Carnaval daquele ano — era a última homenagem prestada pelos “enlutados”.
A festa começou na década de 1950 e seguiu muito animada por vários anos. Depois de 1964, a Ditadura Militar acreditava que a brincadeira, principalmente por ter um sindicalista entre seus líderes, poderia ter conotações de críticas ao governo dos generais. Assim, com medo da repressão, Sampaio e seus amigos decidiram interromper a realização do “funeral”.
Filho do sindicalista, Adelson Sampaio afirma que o “enterro” viveu várias fases. “Meu pai, Antonio Sampaio, juntamente com Arlindo Rubin, Mané Motta, Sebastião Sampaio, Nelson Motta, Ito Motta, Moraes, Lucas e vários outros ferroviários participavam da tradição. Naquela época não se usava caixão de verdade. Meu avô então criou o caixão de madeira”, ressalta ele. “Formavam até uma bandinha com saxofone e outros instrumentos, como cuíca e acordeon, para animar o velório”, destaca Adelson.
A cantora e carnavalesca Vilma Faggioli também se lembra com carinho do Enterro do Carnaval. “Em alguns anos eu fui a viúva e, em outros, eu só participei com o povo. Era um evento bem interessante”, relembra ela.
ENTERRO, O RETORNO – Passadas cerca de duas décadas, o Enterro do Carnaval voltou com força em 1985, quando o carnaval foi realizado logo depois do primeiro Rock in Rio. “Depois deu uma parada, voltou e seguiu por vários anos. Conseguiram acabar até mesmo com o Tênis Clube e o ‘enterro’ acabou perdendo a força e já não é mais realizado”, destaca Adelson Sampaio.
Segundo ele, o Enterro do Carnaval se tornou um grande evento de Itirapina. “Se tornou uma tradição e foi uma coisa muito interessante. Teve um ano em que, na falta de uma batina de fantasia, usou-se uma batina de verdade, e a Igreja Católica não gostou nada da história.”




