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domingo, 05 de dezembro de 2021
Dia a Dia no Divã

Que tiro foi esse? Violência urbana e uma sociedade em decomposição

17 Dez 2018 - 06h00Por (*) Bianca Gianlorenço
Que tiro foi esse? Violência urbana e uma sociedade em decomposição -

A violência, em todos os seus aspectos, faz parte do cotidiano dos brasileiros. Em nossa cidade não é diferente, recentemente presenciamos a morte brutal de um rapaz, como de tantas outras pessoas que fazem parte do nosso cotidiano. E o motivo de tanta violência?

A violência é um dado histórico presente na construção da sociedade brasileira. Um país colonizado a ferro e fogo. As agressões tiveram início a partir da invasão dos portugueses e da crueldade dos bandeirantes contra os indígenas. O que dizer da escravidão dos negros? Foram muitas as revoltas e rebeliões (seriam guerras civis?). A violência é uma chaga! O Brasil, apesar de ser um dos países mais violentos do mundo, alimenta o mito da cordialidade do seu povo. Um país cristão. Será? A violência é uma realidade. O sistema é violento. Está nas ruas, no comércio, no trânsito, no transporte, no trabalho, na igreja, na escola, nos jogos virtuais, nas redes, na música, no cinema, na TV, dentro de casa. Relações sociais abaladas por motivos variados. Gentileza dá lugar à hostilidade.  

Todo essa opressão traz impactos para o psiquismo dos cidadãos. Quando alguém, que tem um filho, assiste a um noticiário onde uma criança é morta na escola por causa de um tiroteio, automaticamente se coloca nessa situação e sente angústia, medo, revolta…

É a família o primeiro espaço da violência, muitas vezes oculta. Pais agressivos podem gerar filhos agressivos, reproduzindo um ciclo de violência de geração a geração. Os índices de violência doméstica são maiores do que as denúncias registradas. O alto grau de agressão contra a mulher está na raiz do feminicídio e do estupro. 

A taxa de feminicidios no Brasil é a quinta maior do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). São oito mulheres mortas por dia (Ministérios Públicos Estaduais). É também o país onde mais se mata travestis e transexuais. A cada 48 horas uma pessoa trans é assassinada (Associação Nacional de Travestis e Transexuais - Antra).

Sociedade da brutalidade, onde violência se combate com mais violência. Apesar de possuir menos de 3% da população mundial, o Brasil responde por quase 13% dos assassinatos do planeta. Defende-se uma arma para cada cidadão, construção de mais presídios, redução da idade penal. Cinco pessoas são mortas por arma de fogo a cada hora, 123 por dia (Mapa da Violência).

Na cidade e no campo. O Brasil detém o título de país mais violento para populações que vivem no interior. Nos últimos 13 anos, 891 indígenas foram assassinados (Conselho Indigenista Missionário), média de 68 por ano.

O sistema é brutal e terrorista.

A pobreza é a pior forma de violência. Enquanto não se eliminar a ex­clusão e a desigualdade dentro da sociedade e en­tre os povos será impossível desarraigar a violência.

Preto, pobre e favelado é do mal. Mas branco, rico, transporta droga (em quantidade) em helicópteros e nada acontece. Anda armado, atira no trânsito, dentro de igrejas, em escolas, etc.  Tem “proteção da justiça”. O Estado se faz presente nos lugares onde residem os endinheirados. O dinheiro demarca territórios de paz e de guerra. A segurança é privilégio para poucos. Só para uma casta composta por muitos juízes, alguns políticos, empresários, donos da mídia e do sistema financeiro.

Sem ingenuidade: não existe uma fórmula mágica para resolver o problema. A violência está destruindo pessoas, famílias, comunidades. Está destruindo o país. 

São muitas as sensações geradas por esse contexto de violência. O que fazemos com todas essas sensações ruins? Como elas impactam a nossa saúde emocional e mental? Mas que Saúde Mental? Não temos uma cultura voltada para o seu cuidado. Vemos campanhas de combate ao câncer, ao HIV, etc, etc, (não que elas não sejam importantes) mas não temos um chamado para o tratamento da depressão, por exemplo, doença mais incapacitante do mundo. As pessoas olham os transtornos mentais como frescura, quantas vezes ouvimos:

 “Depressão que nada, vai trabalhar que cura”.

Enquanto continuarmos com essa mentalidade haverá muito derramamento de sangue.

 Muitos devem estar pensando:

Ah, mas um tratamento psicológico é caro, há tratamento gratuito, há Caps, há UBS, que contam com profissionais de Saúde Mental para atender a população. E não venham me dizer que não há procura devido a demora. As pessoas tem vergonha de procurar um psiquiatra ou psicólogo, ainda existe esse tabu.

 Muitas empresas por exemplos não contratam psicólogos para o processo de recrutamento e seleção, e correm o risco de contratar um psicopata. Com aplicação de testes psicológicos, uso exclusivo dos psicólogos, é possível analisar a personalidade de um indivíduo.

A situação de violência é uma ameaça frequente, que não sabemos nem quando e nem como acontecerá, isso leva o nosso corpo a ficar constantemente em alerta, tentando se defender de possíveis perigos. Com isso, surge o estresse e a saúde pode sofrer inúmeros prejuízos: crises de ansiedade que levam a taquicardia, falta de ar, insônia. Um estudo da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia mostrou que 45% dos Brasileiros são atingidos pela insônia, um resultado alto que desencadeia outros problemas como fadiga, hipertensão, intolerância. Além disso, o medo da violência pode acarretar fobia e depressão, dificuldades de enfrentar o medo que levam a desmotivação e ao isolamento.

Sabemos que a solução para a violência não é individual, é preciso mudanças sociais, éticas e econômicas na forma de conduzir o país, para oferecer uma vida mais digna para as pessoas.

Mas, e enquanto isso não acontece? Como conviver com essa realidade?

É comum que todas essas sensações ruins que sentimos, em situação de violência, sejam transferidas para outras situações na nossa vida e, muitas vezes sem perceber contribuímos com o ambiente violento. Quando alguém é agressivo conosco o quanto disso não levamos para o trabalho, para as redes sociais, para o casamento, para os filhos? Por isso a importância de termos a consciência de como somos afetados e mais ainda, como não perpetuar a raiva e a agressividade.

Difícil!

(*) A autora é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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