Crédito: Mitushi BiopharmaUm estudo recente desenvolvido por pesquisadores da Argentina e do Reino Unido, em parceria com os cientistas do IFSC/USP - Caio Cesar de Mello Capetti e Prof. Dr. Igor Polikarpov -, aponta que restos da agroindústria, muitas vezes descartados, podem ser transformados em ingredientes com potencial benefício à saúde.
A pesquisa investiga como certas enzimas produzidas por bactérias são capazes de converter materiais vegetais em compostos que favorecem o crescimento de bactérias benéficas ao intestino.
Os cientistas analisaram enzimas produzidas pela bactéria Cellulomonas, que se alimenta de fibras presentes em plantas. Essas enzimas atuam quebrando estruturas complexas encontradas em resíduos como farelo de trigo e bagaço de agave, que são subprodutos comuns da produção agrícola e industrial.
Ao degradar essas fibras, o processo gera açúcares menores, alguns dos quais podem funcionar como prebióticos, ou seja, substâncias que estimulam o crescimento de microrganismos considerados benéficos à saúde intestinal.
Os resultados mostram que nem todas as enzimas atuam da mesma forma. Algumas foram mais eficientes na produção desses compostos desejáveis, enquanto outras geraram produtos diferentes. Em certos casos, utilizar apenas uma enzima, em vez de combinações, apresentou melhores resultados.
Outro ponto importante observado foi a diferença entre os materiais utilizados. Os derivados do farelo de trigo apresentaram resultados promissores, estimulando o crescimento de bactérias probióticas em laboratório. Já os compostos obtidos a partir do bagaço de agave não demonstraram o mesmo efeito, possivelmente devido à presença de substâncias que dificultam o aproveitamento pelos microrganismos.
Além disso, o estudo indica que o tipo de processo utilizado para transformar os resíduos é tão importante quanto a própria matéria-prima. Dependendo da enzima escolhida, os produtos finais podem ter características distintas e, consequentemente, diferentes aplicações na indústria de alimentos ou na área de saúde.
Quais os benefícios para a sociedade
Para a sociedade, os possíveis impactos são amplos. Do ponto de vista ambiental, a reutilização de resíduos agrícolas pode reduzir o volume de descarte e minimizar a poluição associada à agroindústria. Em termos econômicos, abre-se a possibilidade de geração de novos produtos de maior valor agregado, criando oportunidades para empresas e produtores rurais diversificarem suas fontes de renda.
Na área da saúde, o desenvolvimento de ingredientes que favoreçam o equilíbrio da microbiota intestinal pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população e para a prevenção de doenças – úlceras e câncer colorretal; diabetes tipo-2; alergias, asma e doenças autoimunes; e depressão, ansiedade e potencialmente doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer.
Alimentos enriquecidos com esses compostos tendem a ganhar espaço no mercado, acompanhando a crescente demanda por opções mais saudáveis.
Por fim, a pesquisa, publicada no “Journal of Agricultural and Food Chemistry”, também aponta para um avanço na chamada economia circular, em que resíduos deixam de ser vistos como desperdício e passam a integrar novos ciclos produtivos.
Esse modelo pode tornar os sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes, beneficiando tanto o meio ambiente quanto a sociedade como um todo.
Confira no link o artigo original relativo a esta pesquisa -
https://pubs.acs.org/action/doSearch?field1=Contrib&text1=Caio%20Cesar%20de%20Mello%20Capetti




