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segunda, 19 de agosto de 2019
Memória São-carlense

Lendas urbanas se popularizaram nos anos 50 e 70

26 Jul 2019 - 07h00Por (*) Ci
Lendas urbanas se popularizaram nos anos 50 e 70 - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

As lendas que acompanharam a história de São Carlos tiveram seu melhor momento nas décadas de 1960 e 1970 do século passado, quando o sobrenatural povoava o imaginário das pessoas. Muitas delas conseguiram a proeza de se propagarem, permanecendo por anos a fio na memória dos antigos moradores.

Não surpreendia que uma das seções mais lidas do extinto jornal paulista “Notícias Populares” fosse aquela intitulada “Coisas de Outro Mundo”, e que os jornais locais também dedicassem espaço para temas como assombrações, discos voadores, extraterrestres e acontecimentos misteriosos.

Useiro e vezeiro em invencionices, em meados dos anos 1970 o NP - diário de grande circulação - disseminou uma lenda que estava lenda presente em quase todas as grandes e médias cidades do país: a lenda da “loira do banheiro”. Em São Carlos, a adaptação local dizia se tratar do banheiro masculino do Instituto de Educação Dr. Álvaro Guião. Tudo começou com a manchete na capa de uma edição publicada em 1966: “Loira fantasma aparece em banheiro de escola”. Acostumados a buscar notícias polêmicas, os repórteres do NP se depararam com uma tarde sem sangrias. Ninguém fora morto a machadadas, nenhum bebê-diabo na maternidade. Mas havia uma foto borrada de uma funcionária do jornal. Loira. Tiveram a ideia da manchete, reeditando a história inventada por Orlando Criscuolo para o “Diário da Noite”, anos antes. O borrão virou algodão, e a loira, defunta.Um comercial da Gillette em que uma loira aparecia no espelho ajudou a reforçar o imaginário de que a moça ainda ameaçaria cortar o pescoço da molecada.

Era uma época na qual o cemitério evocava espanto, mas não por causa do vandalismo. A destruição de cruzes e esculturas de mármore, cujos cacos agora se espalham entre as sepulturas lembram muito pouco o período em que se difundiam as histórias do “fantasma do Trevo” ou da “moça que dançou com o diabo” - duas das mais notórias lendas originárias de São Carlos.

Boêmios que frequentavam os botecos da Avenida São Carlos no início dos anos 1960 eram capazes de jurar que viam um fantasma passar no último bonde a caminho do cemitério. Por volta da meia noite, moradores da região garantiam ver passar correndo o chamado “fantasma do Trevo”.

Àquele tempo, a rodovia Washington Luis era de pista única, com o trevo estreito. Os caminhões que seguiam na direção de Araraquara costumavam descer na "banguela" desde os altos da UFSCar até o fundo do vale nas proximidades do trevo. Os faróis dos veículos de então eram pouco mais do que lamparinas. Paulino cobria-se com um lençol e atravessava a pista correndo, à frente dos caminhões, assustando os motoristas.  Alguns deles paravam naquele postinho logo adiante (defronte o qual ficava a casa da saudosa Luci) e foi dali que os comentários se espraiaram, gerando a fama e o mistério que levou algum tempo a ser desvendado.

Negro, franzino, enfiado em roupas fartas, debaixo de um chapéu e não raro coberto por uma capa, Paulino circulava pelas ruas seguido por dezenas de cães a quem dava alimento. Dizem que ele costumava deitar na calçada e quando alguém passava, fazia ouvir um vozeirão, sem mexer os lábios. Por muito tempo passou as noites entre os túmulos do cemitério.

Já o caso da moça que dançou com o diabo tem inclusive registro no livro “Recordar é viver”, do cronista Nicola Gonçalves. É tema de um curta-metragem dirigido por João Paulo Miranda Maria, que ganhou uma menção especial no Festival de Cannes, de um documentário produzido pela UFSCar e também de uma música composta por Teddy Vieira, gravada pela dupla Vieira e Vieirinha em 1953, citando textualmente São Carlos como cenário da história. Embora muitos municípios a reivindiquem, os são-carlenses sempre sustentaram que tudo se passou aqui mesmo nestas terras do Pinhal.  Em 2007 a lenda foi tema de um vídeo produzido por um grupo de crianças do Parque Delta que participaram de um projeto da Prefeitura. Os alunos surpreenderam-se com a quantidade de lendas que ouviram dos moradores. A profusão de “causos” se faz acompanhar de um punhado também de versões, que se complementam.

O roteiro básico sugere que uma moça resolveu desafiar a proibição da família e resolveu ir a um baile em plena noite de Sexta-Feira Santa. Lá chegando se encantou com um rapaz com quem dançou até a meia noite quando percebeu que o moço tinha pés de pato, seus olhos pareciam bolas de fogo, ouviu-se um forte estrondo e um cheiro de enxofre invadiu o recinto. No mesmo instante, a figura do diabo surgiu no lugar do rapaz e de súbito desapareceu numa nuvem de fumaça. A moça que morava num casarão na esquina das ruas Major José Inácio e Ruy Barbosa, morreu dias depois, sendo sepultada no cemitério municipal.

Outra lenda famosa que atravessou décadas foi a da “Assombração da figueira”, citada pelo jornalista Pedro Fernandes Alonso num de seus artigos no jornal “A Tribuna” nos anos 1970. O que se falava é que toda sexta feira o fantasma de um ex-escravo era enforcado numa grande figueira que existia na praça da Catedral. Tudo por conta do linchamento que ali aconteceu, de um rapaz negro, acusado de estuprar uma moradora da rua Conde do Pinhal.

Um conhecido empreiteiro da época, ao passar certa noite pelo local acompanhado de um empregado, viu um corpo balançando no alto da figueira como um pêndulo. Ficou em pânico e desatou a correr. No dia seguinte a “visão” se esclareceu: o fantasma era na verdade o boneco de Judas que a molecada havia dependurado e explodido com uma série de bombas na véspera.

Por anos a fio acreditou-se nos poderes da água da “Biquinha do Padre”. Gerações cresceram ouvindo a frase “quem bebe a água da Biquinha não pode mais viver fora de São Carlos”. Tudo porque no finalzinho do século XIX o primeiro pároco de São Carlos, o português Joaquim Botelho da Fonseca descobriu uma fonte na rua José Bonifácio entre as ruas Sete de Setembro e Marechal Deodoro, que ainda nem tinham esses nomes.

O padre canalizou a água por meio de uma bica que imaginava usar sozinho. Por algum tempo conseguiu fazer segredo da descoberta, que mais tarde caiu no conhecimento público. Acabou virando “point” da sociedade que atribuiu poderes medicinais à água que depois passou a ser distribuída pela Prefeitura nos chafarizes da cidade. Diz-se que o fantasma do padre até hoje assombra os velhos casarões da região do Teatro Municipal, onde coisas estranhas costumam acontecer.

Muitos ainda acreditam que o fantasma de um antigo funcionário do antigo Fórum assombra o Edifício Euclides da Cunha. “Seu”  Mattos era servente do Fórum da Comarca, que funcionava no prédio onde hoje está a Câmara de São Carlos. Sujeito fidalgo, extremamente atencioso, matou-se por envenenamento e certa manhã seu corpo foi encontrado na entrada da sala do café no primeiro andar do edifício. Poucos tiveram acesso ao conteúdo do bilhete que deixou e que decerto ajudou a criar a lenda. Na pacata São Carlos da época, a Câmara dividia o prédio com o Fórum e no subsolo funcionava a cadeia pública. Há quem diga que não só ele, mas outros personagens que vieram depois também transitam pelos casarões do centro. Quando se instalaram luzes de Natal no edifício em 1998, operários disseram ter visto um senhor de terno branco que lhes aparecia no começo da noite tentando expulsá-los dali. Na década passada, guardas de serviço na Câmara contaram ouvir sons de passos no andar superior durante as madrugadas.

Na Câmara e no seu entorno, na primavera de 1985 muitas pessoas se reuniram em torno de uma idéia: incinerar livros de língua portuguesa, que pretensamente traziam ofensa a Jesus Cristo. Por muito pouco o chamado "Livro Infame" - Reflexão e Ação em Língua Portuguesa, de Marilda Prates, não teve o mesmo fim de Joana D`Arc numa fogueira de intolerância. Em plena “Athenas Paulista”, diga-se. E isso não foi uma lenda urbana, foi real.

O termo "lenda urbana", popularizado por Jan Harold Brunvand, professor de inglês da Universidade de Utah numa série de livros publicados a partir de 1981, diz respeito a pequenas histórias de natureza sensacionalista ou fabulosa amplamente conhecidas e difundidas de forma oral nas ruas das cidades.

Hábitos e costumes, fatos históricos, medos e ademais questões relacionadas à cultura de um povo se tornaram lendas perpetuadas a partir do ‘boca a boca’ popular ou por canais de comunicação locais.

Um fenômeno que foi se transformando, potencializado pela internet (quem não se lembra das histórias de raptos para extração de rins que seriam vendidos por quadrilhas especializadas), e outros casos que buscavam disseminar o medo na população.

Hoje em dia lendas atendem pelo nome de “fake news”. E se tornaram bem mais abrangentes e sinistras.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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