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sexta, 19 de julho de 2019
Memória São-carlense

João Ratti, uma história de amor ao futebol

12 Jul 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
João Ratti, uma história de amor ao futebol - Crédito: Antonio Rubens Valdo Ratti/Reprodução Placar Crédito: Antonio Rubens Valdo Ratti/Reprodução Placar

Contada hoje, a história do comerciante e esportista são-carlense João Ratti parece uma lenda, mas foi real e relembrá-la ajuda a compreender o real significado da expressão “amante do futebol”.

Devia mesmo se chamar Estrela o clube que ele criou e manteve à custa do sacrifício de seu próprio patrimônio por anos a fio. Que estranha urdidura dos chamados “deuses do futebol” levaria alguém a se apaixonar de tal modo por um esporte que – como típico alvo de adoração desmedida – lhe fora absolutamente ingrato?

Filho de italianos – Luis Ratti e Philomena Celenza Ratti – João conheceu ainda em criança a dura lida na fazenda Santa Luzia onde nasceu em 1922 e viveu até os 13 anos, quando a família mudou-se para a Vila Nery.

O natural espírito empreendedor se desenvolveu ao se estabelecer na Avenida Sallum, na Vila Prado, após o casamento com Hilda Castela, mãe de seus sete filhos: Maria Helena, José Roberto, Nilva Helena, Jorge Luis, Enivaldo, Antonio Rubens e João Filho.

Na Vila Prado, com a ajuda da esposa, passou a construir casas que alugava para pessoas de baixa renda – edificações que ainda existem ao longo da Avenida Sallum, onde comprou e loteou o Jardim das Rosas, próximo ao Jardim Pacaembu. Fez o mesmo na região da Represa do Broa, em Itirapina.

Por volta de 1945, disponibilizava um rádio em seu estabelecimento comercial na Vila Prado para que os moradores pudessem acompanhar jogos do campeonato paulista e da seleção brasileira. Na área de trás do armazém construiu um campo de bocha e um campo de malha, além de um salão de baile que também franqueava ao povo.

Naquele ambiente em que se respirava esporte e lazer, o interesse latente pelo futebol logo despertou a vontade de criar uma agremiação esportiva.  Em 1952, João Ratti fundou com ajuda de seus irmãos Miguel, Pedro, Antonio, Durval, Lidia e Elinda a equipe de futebol Estrela de Bela Vista, que a princípio começou com jogos amadores locais e depois com jogos intermunicipais.

O Estrela inicialmente mandava seus jogos no "Campo da Boa Vista", no "Campo da Vila Nery" e no "Campo do Rui Barbosa". Mas João Ratti pensava grande. Trouxe para jogar em São Carlos em 1956 nada menos que a equipe do Corinthians, campeã do 4º centenário de São Paulo, em partida épica, disputada no recém reformado campo municipal,que mais tarde seria o estádio professor Luis Augusto de Oliveira. Naquele momento, porém, havia gramado apenas em metade do campo onde desfilaram as estrelas do Timão, como Gilmar dos Santos Neves, Luizinho, Cláudio e outros. O placar de 5 a 0 para os visitantes foi irrelevante dada a grande festa à qual também estiveram presentes o locutor esportivo Fiori Giglioti e o ex-jogador Leônidas da Silva, como comentarista. Imagine o custo de um evento desse porte – e João Ratti bancou do próprio bolso.

Logo após este evento, João Ratti começou a construir – também com recursos próprios - “casa própria” do Estrela, o estádio de futebol que leva o seu nome, inaugurado com a partida amistosa entre Estrela e da Sociedade Esportiva Palmeiras. Outra grande festa, à qual compareceram autoridades políticas e esportistas, com destaque para o presidente da Federação Paulista de Futebol, Mendonça Falcão.

O investimento em futebol levou o esportista a perder muito do seu patrimônio, de modo que teve de se mudar com a família para a região do atual Jardim Cruzeiro do Sul. De certa forma, ao fincar seu novo endereço ali, Ratti antecipou o progresso de uma área que se expandiu nas décadas seguintes.   Foi dele a iniciativa de levar para aquela região a primeira rede de água e energia elétrica, ficando ele mesmo responsável pela distribuição aos moradores.

O Estrela da Bela Vista, pelo qual se dedicava de alma e coração, seguia sua jornada disputando campeonatos amadores, regionais, até que em 1973 Ratti conseguiu junto à Federação Paulista de Futebol acesso à Divisão Intermediária (2ª Divisão). São Carlos marcava presença no mapa do futebol paulista graças a um clube que não recebia patrocínio de ninguém e nem mesmo apoio político.

Uma reportagem publicada pela revista Placar em 1974, estampou a história do Estrela, que na época disputava o paulista da 2ª. divisão e pleiteava acesso na 1a. São Carlos já não tinha as equipes de futebol dos anos 60, como as do São Carlos Clube, Clube Atlético Bandeirantes e Expresso São Carlos, e com mais de 100 mil habitantes a cidade merecia um representante na elite.

Placar informava que o time do Estrela era sustentado pela família Ratti, “a um curso de pouco menos de 4 mil cruzeiros por mês, tem uns 200 sócios pagando perto de 2 mil mensais treina  três vezes por semana, dois individuais a noite e um coletivo a tarde, usa um terreno da família, joga no estádio municipal e nunca recebeu qualquer ajuda da cidade”.

Mencionava a existência de 29 casas em volta do terreno, que eram alugadas pelo clube para receber cerca de 8 mil cruzeiros por mês. “A diferença para as rendas (media de 1 500) Ratti coloca de seu bolso. As esposas lavam os uniformes, cuidam das coisas do clube e dão pensão para os jogadores (quatro) que vieram de fora”.

João Ratti contava que as vezes rifava um radinho de pilha na porta do campo. Na época até 40 garotos de 14 a 20 anos participavam de peneiras promovidas pelo Estrela, que tinha entre suas promessas o centroavante Jabu, que estava na mira de clubes como Noroeste de Bauru e Ponte Preta.

“O que o Estela da Bela Vista não tem é condições para sozinho sem muita ajuda, aguentar uma briga séria como deve ser um campeonato de acesso. Se for escolhido pela Federação terá que começar um trabalho da estaca zero”, dizia a revista.

Algo que não se consumou e, para complicar, em 1976, o Estrela não teve mais o estádio do Luisão à sua disposição e passou a mandar seus jogos da no Estádio João Ratti. A partir dali as dificuldades se ampliaram.

João Ratti se despediu do futebol por decisão própria no ano de 1993 e faleceu no dia 6 de maio de 1999, aos 77 anos. Deixou o legado da obstinação que sempre o acompanhou por estar permanentemente recomeçando – como é próprio de quem se move pelo idealismo e não conhece barreiras para a transformação de seus sonhos em obras concretas.

“Está muito viva na minha memória a imagem do meu pai colocando dinheiro do próprio bolso para pagar as despesas do clube”, recorda seu filho Antonio Rubens. “Foram inúmeras as batalhas, incontáveis os revezes e também as vitórias. Na dificuldade para obter apoio, para conseguir a adesão das pessoas da cidade no propósito de ver triunfar o futebol são-carlense. Nesse caminho, meu pai deparou com um número infindável de barreiras, de obstáculos que procurou transpor somente com a teimosia”.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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