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quinta, 26 de fevereiro de 2026
Entrevista

FRANCESCONI JÚNIOR: "Falta política industrial, um 'Plano Safra' para o setor fabril"

Empresário afirma que, embora o PIB industrial seja de 12%, a carga tributária da indústria é de mais de 30%.

26 Fev 2026 - 10h08Por Da redação
1º vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), o empresário Vandermir Francesconi Júnior - Crédito: SCA1º vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), o empresário Vandermir Francesconi Júnior - Crédito: SCA

A regional de São Carlos do CIESP recebeu, na noite desta terça-feira, 24 de fevereiro, o 1º vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), o empresário Vandermir Francesconi Júnior, que participou da primeira reunião da entidade neste ano. Em entrevista exclusiva ao SÃO CARLOS AGORA, ele afirmou que falta mais apoio governamental à indústria, com uma política industrial nos moldes do Plano Safra, voltado para o agronegócio.

SÃO CARLOS AGORA – Como o senhor vê esta nova fase do tarifaço do presidente dos EUA, Donald Trump?

VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR - O tarifaço para o Brasil é algo que não faz o menor sentido. Afinal, o Brasil mais importa dos Estados Unidos do que exporta. Então, não faz sentido sofrer um tarifaço de um país quando você está sendo invadido por produtos desse país. Ele colocou, por exemplo, aumento de tarifa em café solúvel, enquanto, nos Estados Unidos, eles não têm indústrias que transformam o café in natura em café solúvel. Quer dizer, ele está fazendo tudo de uma maneira atabalhoada, sem muita explicação lógica para tanto. Na verdade, por trás disso está o interesse de alguns setores. Por exemplo, quando Trump levanta a questão do Pix, que aqui no Brasil foi implementado muito bem, ele faz concorrência com os cartões de crédito. E os cartões de crédito são quase todos de bandeira americana. Então, ele está usando alguns argumentos para defender outras questões.

SCA – Na sua opinião, por que Trump recuou?

FRANCESCONI JÚNIOR - Os próprios americanos ficaram contra as medidas que ele tomou sobre as tarifas dos produtos importados, e ele foi obrigado, por conta dos americanos, a mudar a tarifa que ele colocou contra esses produtos. Para o Brasil, isso não é bom. O que os Estados Unidos não estão percebendo é que o Brasil também tem condições de fazer parcerias com outros países. Isso é um processo mais demorado, e nós podemos, sim, sofrer com isso. O Brasil é um país onde as empresas americanas efetivamente investem, trazendo as suas filiais para cá. Isso gera um problema para eles, pois essas filiais que estão localizadas no Brasil agora também têm que enfrentar essas tarifas. Então, nós imaginamos que, em algum momento, essa realidade vai se sobrepor à intenção do presidente, que é a de apertar todo mundo para conseguir uma negociação melhor para eles. Os Estados Unidos ainda são o país mais forte do mundo e têm força para pressionar. E isso, para o Brasil, não é bom.

SCA – Fala-se muito do agronegócio brasileiro, que é amplamente beneficiado com o Plano Safra. Não falta uma espécie de “Plano Safra” para alavancar o desenvolvimento industrial brasileiro?

FRANCESCONI JÚNIOR - Falta, sem dúvida nenhuma. E este era o papel do BNDES lá atrás. É um banco de desenvolvimento. Em algum momento, houve tarifas muito baixas no BNDES que proporcionavam às empresas investir e se modernizar, comprando equipamentos nacionais. Este foi um momento de grande investimento em tecnologia. Hoje, a Finep e outras instituições também acabam estimulando isso com taxas de investimento menores. Porém, isso não é o suficiente, porque a indústria é o setor mais tributado do país. Embora o PIB industrial seja de 12%, a carga tributária da indústria é de mais de 30%. Então, isso mostra claramente que a indústria paga mais tributos do que os outros setores. E, ao pagar mais tributos, o custo fica maior, e isso causa uma menor possibilidade de crescimento. Não há, efetivamente, um estímulo. Não há uma política nacional de desenvolvimento tecnológico. Então, as indústrias que têm crescido o têm feito com méritos próprios, com investimentos próprios ou por encontrarem nichos de mercado. Estimular não é subsidiar, beneficiar, mas possibilitar que o dinheiro investido retorne à população com mais emprego e renda. É isso que os países que mais se desenvolveram fizeram. Infelizmente, o Brasil ainda não chegou a esse patamar e precisa, sim, de uma política industrial. Cada real investido na indústria é multiplicado por 2,4 na economia. Cada real investido nos outros setores é multiplicado por 1,2 ou 1,3. Ou seja, quando pensamos no futuro do país, temos que pensar naquilo que nos traz o maior desenvolvimento. Quando a indústria cresce, comércio e serviços também crescem. Para você vender, precisa do comércio, e a indústria, obviamente, movimenta todos os serviços devido ao seu crescimento.

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