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domingo, 15 de fevereiro de 2026
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Estudantes do ICMC aplicam Ciência de Dados e traçam panorama da educação no Brasil

Trabalhos de alunos do Bacharelado de Ciências da Computação investigaram bases públicas e mostram, entre outros aspectos, que as escolas de São Carlos possuem desempenho médio superior ao do estado de São Paulo

15 Fev 2026 - 11h20Por Jessica CR
Os projetos utilizam a Ciência de Dados para investigar o cenário educacional brasileiro através de diferentes prismas - Crédito: EnvatoOs projetos utilizam a Ciência de Dados para investigar o cenário educacional brasileiro através de diferentes prismas - Crédito: Envato

Entre 2005 e 2019, a concessão de bolsas para o ensino superior privado cresceu no Brasil. Nos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), escolas privadas continuam apresentando desempenho superior às públicas e, em São Carlos, as melhores médias concentram-se em instituições particulares. Já na infraestrutura escolar, as desigualdades também aparecem: Sul, Sudeste e Centro-Oeste registram índices mais elevados que Norte e Nordeste, enquanto escolas urbanas superam as rurais.

Esses são alguns dos resultados de três projetos desenvolvidos por estudantes do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP), na disciplina Introdução à Ciência de Dados. Ministrada pela professora Roseli Aparecida Francelin Romero, a disciplina desafiou os alunos a transformar grandes volumes de dados públicos em análises capazes de gerar evidências concretas sobre desafios educacionais do país.

De acordo com a docente, os trabalhos utilizaram bases como os microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), informações do Programa Universidade para Todos (Prouni) e indicadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). “A orientação era para que os alunos escolhessem um tema que dialogasse com desafios do país e buscassem se aprofundar, tentando descobrir o que ainda não foi dito ou explorado”, explica.

Os projetos foram apresentados durante o evento Portas Abertas, realizado de 24 a 28 de novembro de 2025, no salão da biblioteca do ICMC. Na ocasião, os estudantes utilizaram cartazes e precisaram traduzir conteúdos técnicos para um público formado, em grande parte, por alunos do ensino médio. Para o estudante de Ciência de Dados, Matheus Paiva Angarola, a experiência foi transformadora. “A gente sai da teoria e percebe como organizar, interpretar e questionar os dados faz diferença. É algo que pretendo levar para a minha trajetória profissional”, afirma.

Enem: desigualdades regionais e desempenho em São Carlos

O projeto “Análise dos Microdados do Enem”, desenvolvido por Fernando Valentim Torres e João Gabriel Pieroli da Silva, concentrou-se principalmente nos dados de 2024, com comparações às edições de 2022 e 2023.

Segundo João Gabriel, que ingressou na USP por meio do exame, o interesse foi também pessoal. “Embora a base seja pública, ela contém muitos dados e exige domínio de ferramentas de computação”, destaca.

A análise investigou hipóteses sobre desigualdades regionais, tipo de escola (pública ou privada) e influência da escolaridade dos pais no desempenho dos participantes. Os resultados apontaram disparidades importantes. “Não há diferença significativa entre a escolaridade do pai ou da mãe nesse impacto. A correlação é equivalente: ter ensino superior por parte de qualquer um dos dois está relacionado a um aumento semelhante no desempenho do aluno”, explica João Gabriel.

Outro dado que chamou a atenção foi a predominância feminina entre os inscritos. “A maior parte dos participantes do Enem é composta por mulheres, ano após ano, e essa participação só vem aumentando”, observa Fernando.

Em São Carlos, o grupo identificou que as dez escolas com maior desempenho no exame são particulares e localizadas em bairros mais nobres. “Elas estão restritas a um grupo muito pequeno da população”, afirma Fernando. Ainda assim, no geral, as escolas da cidade apresentam média superior à do estado de São Paulo, com destaque para a redação, cuja nota média foi de 57 a 61 pontos acima da estadual.

Prouni: crescimento, inclusão e limites dos dados

No estudo sobre o Prouni, Antônio Carlos de A. M. Neto e Matheus Paiva Angarola analisaram dados de 2005 a 2019, investigando perfil socioeconômico e demográfico dos bolsistas, distribuição geográfica das bolsas e tendências de cursos e modalidades.

Os resultados mostram crescimento não linear na oferta de bolsas e forte concentração no turno noturno, refletindo a realidade de estudantes que conciliam trabalho e estudo. Ao contrário da expectativa inicial, cursos da área da saúde não lideram as concessões. “Imaginávamos que cursos como Medicina concentrariam a maior parte das bolsas, mas os dados mostraram o contrário”, afirma Antônio. Administração, Direito e Pedagogia aparecem entre os cursos com maior número de benefícios.

O estudo também destacou a presença significativa de estudantes pardos e pretos entre os bolsistas, evidenciando o caráter inclusivo do programa desde sua criação. Ainda assim, os alunos apontam que a representatividade de determinados grupos permanece ligeiramente inferior à proporção que ocupam na população brasileira de baixa renda.

Um dos principais desafios foi a limitação das bases públicas, que disponibilizam dados apenas até 2019 e não incluem informações detalhadas sobre a condição socioeconômica dos beneficiários. “Com dados mais completos e atualizados, seria possível propor análises mais profundas sobre os critérios e impactos do programa”, avaliam.

Infraestrutura escolar: diferenças regionais e urbano x rural

O terceiro projeto, desenvolvido por João Pedro Viguini Tolentino Taufner Correa e Pietra Gullo Salgado Chaves, analisou microdados do Censo Escolar do Inep para investigar a infraestrutura das escolas brasileiras.

Os estudantes criaram uma métrica própria para mensurar a qualidade estrutural das instituições, considerando itens como biblioteca, laboratórios, quadra de esportes e acesso à internet. A análise revelou diferenças marcantes: Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam, em média, melhores índices que Norte e Nordeste. Também ficou evidente a vantagem das escolas urbanas em relação às rurais.

Para Pietra, trabalhar com uma base de dados tão extensa foi um desafio técnico. “Tivemos que lidar com dados faltantes, inconsistências e até com a capacidade de processamento dos nossos computadores”, relata.

Os resultados, embora esperados, impactaram os estudantes. “No fundo, é um retrato da nossa sociedade. Às vezes é uma realidade chocante e triste pelas desigualdades fortes que ainda temos no país”, conclui.

 
 

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