Protótipo da urna eletrônica do TRE-MG, 1995. Museu do Voto (TSE) - A modernização do sistema eleitoral brasileiro teve um marco decisivo em 24 de março de 1995, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instituiu a chamada Comissão de Notáveis. Formado por juristas, magistrados, cientistas políticos e especialistas em tecnologia, o grupo lançou as bases para a criação da urna eletrônica, considerada uma das maiores inovações institucionais do país.
A iniciativa surgiu para atender uma demanda histórica por mais segurança e agilidade nas eleições. Desde o Código Eleitoral de 1932, já havia preocupação com a modernização do processo de votação. No entanto, por décadas, o Brasil manteve o modelo manual, com cédulas de papel, sujeito a falhas, demora na apuração e questionamentos frequentes.
Crise de 1994 impulsionou mudança
O cenário atingiu um ponto crítico nas eleições de 1994, marcadas por denúncias de fraude e tensão durante a contagem de votos. Diante disso, o então presidente do TSE, Carlos Mário Velloso, liderou o movimento pela informatização do sistema eleitoral, defendendo uma solução tecnológica nacional.
Para estruturar o projeto, a Comissão de Notáveis foi dividida em cinco áreas temáticas, abrangendo desde legislação eleitoral até informatização do voto, reunindo especialistas de diferentes setores para garantir um modelo seguro e viável.
Desenvolvimento da urna eletrônica
Na área tecnológica, o destaque foi Paulo César Camarão, responsável por idealizar um equipamento de baixo custo, exclusivo para votação. O projeto contou com apoio de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Centro Técnico Aeroespacial e as Forças Armadas.
A proposta era criar uma “urna brasileira”, simples e eficiente. Protótipos desenvolvidos por tribunais regionais contribuíram para o modelo final. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul trouxe a ideia de um equipamento portátil; o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso contribuiu com relatórios de segurança; e o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, em parceria com a IBM, introduziu o voto numérico, característica que se tornou marca do sistema.
Primeiros testes e implantação
Após meses de estudos, o projeto foi aprovado em agosto de 1995. O primeiro grande teste ocorreu em 1996, em uma votação simulada em Caxias do Sul (RS), comprovando a eficiência do sistema.
No mesmo ano, durante as eleições municipais, as urnas eletrônicas foram utilizadas oficialmente pela primeira vez. A experiência foi considerada um sucesso e marcou o início de uma nova era na democracia brasileira, com votação mais rápida, segura e acessível, inclusive para eleitores com baixa escolaridade.
Evolução e segurança
Desde então, o sistema passou por constantes aprimoramentos. A Justiça Eleitoral incorporou tecnologias como criptografia, assinatura digital e identificação biométrica, além de ampliar a transparência com a abertura do código-fonte para auditoria por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, Ministério Público, Polícia Federal e universidades.
Outro ponto fundamental, mantido desde a concepção inicial, é o funcionamento isolado da urna eletrônica. Sem conexão com internet ou redes externas, o equipamento reduz riscos de ataques cibernéticos e reforça a confiabilidade do sistema.
Patrimônio da democracia
Ao longo de três décadas, a urna eletrônica se consolidou como um dos pilares do processo eleitoral brasileiro. Fruto de um esforço coletivo iniciado pela Comissão de Notáveis, a tecnologia transformou a forma de votar no país e se tornou referência internacional, sendo adotada ou estudada por diversas nações.
Mais do que um avanço tecnológico, a informatização do voto representa um marco na consolidação da democracia no Brasil, garantindo maior segurança, transparência e rapidez na escolha dos representantes políticos.
Foto do protótipo de urna eletrônica desenvolvido pelo TRE-RS, 1995. Museu do Voto (TSE)




