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segunda, 19 de abril de 2021
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE: Paulino Carlos, nossa escola mais antiga

22 Dez 2017 - 02h27Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo histórico - Foto: Arquivo histórico -

A Escola Estadual "Coronel Paulino Carlos", encravada no coração de São Carlos, é um marco na história do ensino público na cidade e também um símbolo de resistência: não apenas o seu espaço físico resiste ao tempo, mas também a sua história.

O imponente edifício sobreviveu a investidas pela sua derrubada em momentos de reformas da Praça Coronel Salles e quase literalmente afundou, por conta do estacionamento subterrâneo construído na vizinhança (e que depois foi transformado no Museu da Ciência Professor Mário Tolentino).  Já a história se conserva pela sua eloquência.

O lançamento da pedra fundamental do prédio escolar, realizado no dia 2 de dezembro de 1901 teve presença do escritor Euclides da Cunha, que foi um dos oradores da solenidade. O autor de "Os Sertões", então engenheiro responsável pelo 5o.Distrito de Obras Públicas, havia sido designado fiscal da construção, para a qual contratou o mestre Seraphim Corso.

Na época, a Câmara Municipal - então responsável pela administração da cidade -  cedeu ao Grupo Escolar a face leste do largo municipal, mais tarde denominado "Praça Coronel Salles". E não apenas isso: no ano de 1904, para o término da construção, a Câmara doou a quantia de 17 contos de réis.

Na ocasião, conforme os registros históricos, a Câmara sentia-se no dever de atender a expansão do ensino e no direito de fiscalizar o funcionamento das escolas. Era ela que designava o Conselho Municipal de Instrução que devia apreciar os resultados finais do ensino nas escolas públicas e particulares.

Outro aspecto digno de nota é que no início do século 20 a imprensa local dava enorme destaque às atividades escolares e às sessões literárias promovidas pelas escolas. A esses eventos compareciam - e discursavam - autoridades, intendentes vereadores, juízes, promotores, vigários paroquiais e mais tarde o bispo diocesano. Nas escolas ensinavam-se português, francês, geografia, aritmética, geometria, história, física, química e botânica.

Os grupos escolares que surgiam eram definidos como "um conjunto perfeito em estabelecimentos, harmônica e logicamente concatenados".

Na manhã de 1º de abril de 1905, quando o Grupo Escolar entrou em funcionamento, estavam matriculados 346 alunos, sob o comando do primeiro diretor o professor Aníbal Francisco Caldas. Mais tarde o estabelecimento receberia o nome de Coronel Paulino Carlos.

Fazendeiro de ativa participação no ciclo do café, o Coronel foi Comandante Superior da Guarda Nacional em São Carlos e eleito o primeiro Juiz de Paz. Foi fundador do Partido Republicano em São Carlos (1878) e do Jornal "A Propaganda", órgão do partido. Presidiu o Congresso Republicano em São João do Rio Claro em 1884. Com a proclamação da República a população aclamou-o em primeiro lugar para compor o governo provisório em São Carlos. Assumiu então a chefia política da cidade de São Carlos do Pinhal. Com a morte do irmão, o Conde do Pinhal, unificou sob sua liderança a família Arruda Botelho diante dos seus rivais políticos.

Foi presidente do Banco de São Carlos e empenhou-se para que a cidade entrasse na reforma do ensino que o governo de Bernardino de Campos empreendia. Lutou pela lei 169, de 7 de agosto de 1893, instituindo a reunião de escolas públicas. O governo estadual designou-o como patrono do 1° grupo escolar.

Paulino Carlos foi constituinte da 1a Constituição da República e deputado Federal por diversas vezes de 1889 até seu falecimento em 1908.

Sobre o prédio escolar, o "Almanach Álbum" de 1915 o define como "um elegante sobrado de dois pavimentos, situado no coração da cidade, possuindo todas as dependências necessárias, conforme exige um estabelecimento de tal ordem".

A notável instituição, cuja importância para o desenvolvimento do ensino em São Carlos nunca é demais destacar, transpôs o século 20 participando da trajetória de muitas gerações de são-carlenses. Pessoas que na vida seguiram muitos caminhos, registrando em suas biografias o orgulho de, na infância, terem estudado na mais antiga escola pública da cidade.

A Escola Coronel Paulino Carlos nunca foi apenas um prédio, mas impôs-se como uma instituição que reuniu mestres conceituados e alunos que ocuparam posições de destaque na sociedade como, por exemplo, o ex-prefeito Antonio Massei, que governou a cidade em três oportunidades, e o comediante Ronald Golias, o maior divulgador da cidade no século 20 - para citar dois dos mais célebres.

O corpo docente da escola reuniu educadores uma plêiade de educadores compromissados com o ensino público - como Mildred Domingas Batiston Passeri,Maria Célia Spaziani Pereira, Ilma Marino, João Paulo Botelho Vieira Filho, Wilson Wady Cury e muitos outros. Assim como os diretores e vice-diretores como Aparecida Siqueira, dona Cecília, Esmeralda Barbosa e Walter Blanco, que durante 21 anos conduziu os destinos da instituição, entre 1981 e 2002, quando faleceu aos 61 anos.

Uma característica marcante da Escola, atualmente dirigida por Rosângela Fornazieri, é o engajamento dos pais e das famílias na tarefa educacional. Assim o nome do estabelecimento será sempre relacionado a muito mais do que apenas um edifício histórico construído com a supervisão de Euclides da Cunha.

Esta seção tem enfoque na memória coletiva de São Carlos e disponibiliza espaço para relatos e fotos de fatos e locais da cidade em outros tempos. O material pode ser enviado para: memoriasaocarlense@gmail.com.

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