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quinta, 20 de junho de 2019
Artigo Antonio Fais

Cara ou Coroa

08 Mar 2019 - 12h56Por (*) Antonio Fais
Cara ou Coroa - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Dia desses, voltando à cidade, passei pela região dos motéis e vi a esposa de um amigo saindo de um deles, claro, devidamente acompanhada. Não deu para olhar direito, mas, de relance, parecia ser um rapaz mais jovem que dirigia o carro. Tinha certeza que era ela, pois quando vi o carro, e confirmei pela placa, acelerei pensando em se tratar de meu amigo C (melhor omitir os nomes) e ia buzinar para brincar com ele, mas quando vi... Chovia bastante. Não quis chamar atenção. Acelerei e segui sem ser visto.

Restou-me a dúvida: contar ou não contar. Fiz várias considerações de ordem moral e prática, sobre o ato dela, os atos dele, pois sabia que era comum ele ter outros casos, e sobre o meu dever de contar ou calar. Realmente não sabia o que fazer, pois a própria omissão é fazer alguma coisa. Tomei então, a atitude mais sensata para decisões difíceis: cara ou coroa. Cara eu conto, coroa não. Deu cara. Não seria fácil, mas eu iria então contar, pois nunca se deve contrariar a sorte.

Na quarta à noite saímos para tomar uma cerveja e ele, que me conhece de há muito, depois alguns minutos de conversa:

- Você quer me falar algo, não?

- Bem...Sim – disse eu titubeando.

- Então, fala logo!

- C, não é fácil falar! Eu via a M saindo ontem de um motel. Fiquei sem saber se lhe contava ou não, mas resolvi contar.

- Contou para mais alguém? – Perguntou ele com uma voz estranhamente calma.

- Claro que não! Estava em dúvida se contava a você!

Ele me olhava de um modo estranho. Estava calmo. Creio que eu não ficaria assim se me dessem uma notícia dessas. Mas ele, não. Estava calmo e me olhava de um jeito estranho. Eu esperava que ele aprovasse ou desaprovasse minha atitude, mas não, apenas me olhava daquele jeito estranho. Após um breve silêncio, em que parecia pensar no que me dizer, ele, sem nenhuma emoção, falou:

- Eu já sabia.

Eu fiquei quieto, admirado com sua frieza, aguardando a conclusão que certamente viria.

- Há alguns anos M* havia perdido o tesão. Não sei se por mim ou pela vida em geral. Engordou, não se arrumava mais, passava o dia e a noite vendo TV. As coisas das crianças foram ficando de lado. Começou a beber.

Ele falava realmente com um olhar triste e embargado. Prosseguiu:

- Nas festas, depois que bebia um pouco, tinha um comportamento nada exemplar. Era inconveniente. Incomodavam os solteiros e os casados, pois ficava jogando charme a todos na minha frente, o que causava constrangimento a mim e a todos os amigos e amigas. Lembra?

Fez mais uma pausa. Pediu outra cerveja ao garçom e continuou:

- De um tempo para cá sossegou. Foi a um terapeuta, fez regime, começou a ler, parou de ver TV. Era óbvio que algo tinha mudado em sua vida. Ela estava dócil e gentil, comportava-se em todas as reuniões como uma esposa dedicada e fiel. Estava bonita e bem cuidada, despertando em todos os amigos, esses sim com esposas fiéis, uma certa inveja de suas formas e maneira de me tratar. Sempre brincavam comigo: “Vai pra casa...”. Enfim, nosso casamento havia voltado ao normal. Além disso, não brigava mais comigo quando chegava tarde em casa. Mas sempre foi cuidadosa, nunca deixou, até então, ninguém desconfiar. Nem eu mesmo tinha certeza.

- E agora? O que vai fazer? – Perguntei meio arrependido de ter contado.

Ele olhou para mim, agora com um ar sério, pegou uma moeda e disse:

- Cara eu me separo, coroa não.

E jogou a moeda que caiu no chão do bar. Pegou-a rapidamente. Olhou-a, fez uma pausa, que me causou uma certa agonia, e disse: coroa!

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