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segunda, 21 de outubro de 2019
Memória São-carlense

A novela da construção do terminal rodoviário

11 Out 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
A novela da construção do terminal rodoviário - Crédito: Rodrigo Dias/Acervo Antonio Carlos Lopes da Silva/Correio de S. Carlos e O Diário Crédito: Rodrigo Dias/Acervo Antonio Carlos Lopes da Silva/Correio de S. Carlos e O Diário

Parece incrível que até 1980 quando estava com mais de 120 mil habitantes, São Carlos não contasse com um terminal rodoviário para chamar de seu. Mas convenhamos que os usuários de ônibus intermunicipais naquele tempo alternavam simplicidade e surpresa, por exemplo, ao viajar para a capital paulista. Daqui, os ônibus partiam da porta das agências localizadas no centro da cidade. A agência da Viação Cometa ficava na esquina da Avenida com a Rua Sete de Setembro, ao lado da banca Vamos Ler, onde hoje se localiza o Café Dona Julia e a agência da empresa Cruz situava-se em frente à Câmara, na calçada em que tinha como vizinho o tradicional restaurante Bambu.

Ao chegar na Capital, encontravam-se as cores em profusão da psicodélica arquitetura da rodoviária paulistana no bairro da Luz. No caminho, durante a parada no Posto Figueira Branca, em Limeira, onde se podia saborear um delicioso croquete de carne, não raro era possível contemplar o nascer e o por do sol.

Em São Carlos na época, outras empresas de ônibus com linhas para cidades importantes do interior, mantinham suas agências na rua Marechal Deodoro e num ponto ao lado da Praça Antonio Prado, defronte à estação ferroviária.

Na segunda metade dos anos 1970 os governantes passaram a considerar a construção de um terminal rodoviário, quando a cidade  já abrigava duas grandes universidades públicas, USP e UFSCar, com legiões de estudantes vindos de outras cidades paulistas e até de outros estados.

Em 1977 foi aprovada pela Câmara a construção da “rodoviária”, processo que desatou muita discussão e polêmica, a começar pela localização, na área próxima ao centro, na região conhecida como Jardim Macarengo. Alguns defendiam a instalação do terminal numa área da Prefeitura na Avenida Getúlio Vargas. Mas sobre o tema a secretaria estadual de Transportes deu a palavra final: a obra seria realizada no Macarengo ou não seria realizada. A construção começou em 1978.

No ano seguinte a concorrência pública para a exploração do futuro terminal foi vencida pela empresa Socicam, que administrava a maioria dos terminais no estado e viria a ser também a administradora do Terminal Rodoviário do Tietê, inaugurado em 1982.

O Terminal de São Carlos foi projetado pela empresa Pluric (Pluric – Escritório Pluricurricular de Projetos), então com 20 anos de experiência no ramo, pertencente a um urbanista famoso, Benno Michael Perelmutter (1936-2017).Teria capacidade para operar com 600 mil passageiros por mês e atenderia todas as exigências do manual de implantação de terminais rodoviários de passageiros da Secretaria estadual dos Transportes.

Em outubro de 1979, quando a obra se aproximava de sua conclusão, houve a denúncia de que as baias de ônibus eram menores que os carros da viação Cometa. O fato acabou não comprovado por testes realizados ainda naquele mês. A inauguração foi anunciada para o ano seguinte, não sem antes alguns novos contratempos.

No início da madrugada de 17 de abril de 1980, partia do Terminal Rodoviário de São Carlos o primeiro ônibus com destino a São Paulo. O prefeito Antonio Massei, exultante, lá esteve para acenar para os passageiros. Estava acompanhado de um grupo numeroso de populares, vereadores e assessores do Executivo, como relatou o jornal “Correio de São Carlos” na edição do dia seguinte. Pela primeira vez ouviu-se a voz do locutor: “Atenção senhores passageiros: partida para São Paulo, Viação Cometa, plataforma cinco. Queiram ocupar os seus lugares e boa viagem”.

O jornal “O Diário” que circulou naquele mesmo dia, estampou as impressões de usuários de ônibus intermunicipais e curiosos que elogiaram a obra, especialmente o restaurante com funcionamento 24 horas e a limpeza do recinto e dos sanitários. Apenas reclamaram da ventania no interior do terminal, mas se declararam satisfeitos com a “obra necessária para a comunidade”.

Somente dois anos mais tarde aconteceria a inauguração oficial da rodoviária, que levou o nome do governador Paulo Egydio Martins, que governou no período militar, quando os governadores eram nomeados e chamados de “biônicos”.

Recordar essa história nos dias de hoje demonstra que a conquista do Terminal Rodoviário, como quase todas as grandes obras da cidade, teve uma história que algumas vezes lembrou uma novela.  Algo a se observar quando, quase quarenta anos depois, se ventila a construção de uma nova rodoviária, algo que faz lembrar um remake no estilo de “vale a pena ver de novo”.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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