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quarta, 04 de fevereiro de 2026
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Pós-graduandos do ICMC desenvolvem tecnologia para ampliar acesso à saúde em regiões vulneráveis da Amazônia

04 Fev 2026 - 17h15Por Jessica Carvalho R
O projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia é uma iniciativa projetada para melhorar o acesso à saúde pública nas regiões remotas da Baixa Amazônia e do Tapajós | (Crédito da imagem: Reprodução site Juntos pela Saúde) - O projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia é uma iniciativa projetada para melhorar o acesso à saúde pública nas regiões remotas da Baixa Amazônia e do Tapajós | (Crédito da imagem: Reprodução site Juntos pela Saúde) -

Garantir atendimento básico de saúde em regiões remotas da Amazônia ainda é um desafio diário para milhares de brasileiros. Em comunidades ribeirinhas e indígenas do Baixo Amazonas e do Tapajós, o simples acesso a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) pode exigir horas de deslocamento por rios, além de custos financeiros muitas vezes inviáveis para as famílias locais. É nesse contexto que se insere o projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia, iniciativa interinstitucional que busca reduzir iniquidades no acesso à saúde por meio de soluções tecnológicas adaptadas à realidade do território.

Coordenado pela professora Aylene Emilia Moraes Bousquat, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), o projeto é financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Associação Umane. A proposta tem como foco o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS), aliando inovação tecnológica, cuidado contínuo e integração entre usuários e profissionais de saúde.

Entre os pesquisadores envolvidos estão dois pós-graduandos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP), em São Carlos: o mestrando Alison Cordeiro Sousa e o doutorando Lucas Padilha Modesto de Araujo, ambos da área de Ciência da Computação. Selecionados como bolsistas, eles são responsáveis pelo desenvolvimento de um aplicativo que será utilizado por pacientes e profissionais das UBS nas regiões atendidas pelo projeto.

Seleção e atuação interdisciplinar

A escolha dos estudantes ocorreu após diálogo entre a coordenadora do projeto e o professor Adenilso Simão, do ICMC. Segundo a professora Aylene Bousquat, havia dificuldades em encontrar empresas que compreendessem a natureza social da iniciativa. “Comentamos sobre esse desafio e surgiu a sugestão de buscar estudantes do ICMC, que pudessem desenvolver a tecnologia em diálogo direto com a realidade da saúde pública”, explica.

Após a divulgação da oportunidade, os interessados passaram por um processo seletivo que avaliou trajetória acadêmica, capacidade de atuação interdisciplinar e interesse em construir soluções alinhadas às especificidades da Amazônia. “Buscávamos estudantes dispostos a compreender o território, dialogar com as equipes de saúde e construir soluções junto com quem está na ponta do sistema”, destaca a coordenadora.

Para Aylene, a participação dos pós-graduandos tem sido essencial para o avanço do projeto. “Eles conseguem traduzir necessidades complexas da atenção primária em ferramentas digitais viáveis, seguras e adequadas à realidade amazônica”, afirma.

Tecnologia voltada ao cuidado contínuo

O desenvolvimento do aplicativo teve início em dezembro de 2025 e está focado em ampliar a comunicação entre usuários e equipes de saúde, além de incentivar o autocuidado. A ferramenta está em fase de implementação e vem sendo constantemente ajustada a partir do retorno dos profissionais que atuarão diretamente com a tecnologia.

“Apresentamos protótipos, ouvimos o que funciona e o que precisa mudar. Esse retorno orienta todo o desenvolvimento”, explica o doutorando Lucas de Araujo.

Entre as funcionalidades previstas estão o registro de sinais vitais — como pressão arterial, peso e glicemia —, comunicação direta com as equipes de saúde, painéis de monitoramento dos pacientes, geração automática de alertas clínicos, visualização gráfica da evolução dos indicadores e acesso a prontuários digitais.

Segundo o mestrando Alison Sousa, um dos principais desafios é garantir o funcionamento do aplicativo em ambientes com baixa conectividade. “O sistema precisa operar offline, permitindo o registro das informações, que serão sincronizadas automaticamente quando houver acesso à internet”, afirma.

O projeto também incorpora mecanismos de segurança da informação e adequação inicial à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Em etapas futuras, a equipe pretende integrar recursos de inteligência artificial, como modelos preditivos e identificação de padrões mais complexos nos dados clínicos, sempre com validação técnica e científica.

Trajetórias que conectam computação e saúde pública

A atuação no projeto também dialoga com as trajetórias pessoais e acadêmicas dos pesquisadores. Para Lucas, a motivação vem da convivência com a mãe, que tem epilepsia, experiência que influenciou sua escolha por desenvolver tecnologias voltadas ao monitoramento de crises de saúde. Já Alison destaca seu interesse pela transformação digital na gestão pública e pelo potencial da tecnologia para gerar impacto social.

No mestrado, Alison desenvolve pesquisas na interface entre saúde, tecnologia e gestão pública. O projeto já resultou na submissão de artigos científicos e contribui para sua formação na área de inteligência artificial aplicada à saúde pública.

Impacto com potencial de expansão

Embora o foco inicial seja o Baixo Amazonas e o Tapajós, a expectativa da equipe é que a solução possa ser integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e adaptada a outras regiões do país. “Estamos testando a ferramenta em um dos cenários mais desafiadores possíveis. Se funcionar lá, pode ser ampliada para outros contextos”, destaca a professora Aylene Bousquat.

A iniciativa reforça o papel da universidade pública na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções concretas para desafios sociais complexos, conectando ciência, tecnologia e cuidado em saúde em regiões historicamente marcadas pela desigualdade no acesso a serviços essenciais.

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