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terça, 20 de outubro de 2020
Astrobiologia

Pesquisadora de São Carlos busca sinais de vida molecular no planeta Marte

17 Jun 2018 - 09h14Por Redação
“Optei por Marte porque, além de ser um dos planetas vizinhos da Terra, ele tem o potencial de ter abrigado vida e de preservar seus resquícios” aponta Maria Fernanda - Crédito: Divulgação“Optei por Marte porque, além de ser um dos planetas vizinhos da Terra, ele tem o potencial de ter abrigado vida e de preservar seus resquícios” aponta Maria Fernanda - Crédito: Divulgação

Projeto de pesquisa apresentado na defesa de mestrado no IFSC/USP da pesquisadora Maria Fernanda Cerini*, intitulado “Simulações ambientais e caracterização espectroscópica in situ de potenciais bioassinaturas moleculares para aplicação em missões espaciais”, incide sobre a possibilidade de se detectar vestígios da existência de vida em Marte - passada ou presente - através de futuras missões espaciais ao planeta vermelho.

Antes de entrarmos diretamente no tema, é conveniente se dissertar um pouco sobre a astrobiologia, área de conhecimento que estuda o fenômeno da vida, com uma preocupação sempre presente dos pesquisadores poderem entender mais sobre a origem, distribuição, evolução e futuro dela. Quando se pensa em vida, existe imediatamente uma associação com a biologia, que considera, em seus estudos, um sistema fechado representado pelo nosso planeta e a vida em todas as suas formas.

Maria Fernanda explica que na astrobiologia os pesquisadores ampliam o cenário e passam a se preocupar com o fenômeno da vida no contexto do Universo, ou seja, no seu ambiente astrofísico, que vai bem além da realidade do nosso planeta. “Os astrobiólogos estudam a origem dos elementos e a formação das moléculas, e investigam os mecanismos e condições que levaram ao surgimento da vida no nosso planeta, considerando diversos fenômenos do Universo, como, por exemplo, raios cósmicos e radiação estelar, bem como cometas e asteroides colidindo com a Terra e enriquecendo-a com novas matérias primas. O meu projeto está mais focado na distribuição da vida no Universo, questionando se houve (ou se ainda há) vida fora de nosso planeta”, pontua a pesquisadora.

O primeiro desafio que Maria Fernanda aponta é como procurar essa vida que, se existiu, deixou rastros – as designadas “bioassinaturas”. “Bioassinaturas são marcas ou evidências da presença de vida, passada ou presente, e elas podem se apresentar de diversas formas, como, por exemplo, através de fósseis, isótopos, moléculas, ou até fenômenos”, acrescenta Maria Fernanda.

Seu projeto de pesquisa incide sobre a descoberta de evidências moleculares, ou bioassinaturas moleculares, utilizando caracterização espectroscópica das mesmas – na qual a interação da luz com a matéria fornece informações sobre sua natureza. O limite espacial para desencadear as buscas denominadas in situ (= no lugar) – em oposição a buscas remotas (feitas com telescópios e satélites) – se resume aos planetas, cometas e outros corpos celestes que se encontram no nosso sistema solar, pois requerem o envio de sondas até a superfície desses corpos. E a escolha recaiu sobre o planeta Marte. “Optei por Marte porque, além de ser um dos planetas vizinhos da Terra, ele tem o potencial de ter abrigado vida e de preservar seus resquícios. A intenção de minha pesquisa é definir quais biomoléculas poderiam ser sinais de vida, auxiliar na escolha dos equipamentos de uma sonda e do seu local de pouso em Marte, onde será feita uma série de leituras espectroscópicas buscando as bioassinaturas”, elucida Maria Fernanda.

Já ocorreram diversas missões espaciais para exploração da superfície marciana, tanto remotas quanto através de sondas, como por exemplo, a Viking, a Pathfinder e hoje a Curiosity. Tais missões já apontaram a presença de água congelada em sua superfície e evidências de que Marte já foi mais quente e coberto de oceanos de água liquida, pela presença de marcas de erosão, como canais e cânions, e de argilas (formadas por interação de rochas com água).

Tudo isso se conjuga para que, possivelmente, tenha existido vida em Marte, pois acredita-se que essas condições facilitam o surgimento e evolução da vida e a preservação de bioassinaturas. Contudo, a discussão entre pesquisadores sobre a vida extraterrestre não é pacífica, já que alguns deles pensam no assunto fora do entendimento e dos conceitos da vida terrestre, que, como sabemos, é baseada em uma química orgânica (moléculas compostas principalmente por carbono, hidrogênio e oxigênio). “Pode haver vida baseada em silício?” – questiona Maria Fernanda, que imediatamente argumenta, respondendo à própria questão: “Pode ser que sim, mas hoje em dia já temos evidências da existência de moléculas orgânicas espalhadas por todo o lado, inclusive pelo espaço sideral, como comprovam inúmeras observações astronômicas. Temos meteoritos que caíram no nosso planeta e eles continham, por exemplo, aminoácidos”, sublinha a pesquisadora.

Além de pensar em missões espaciais para pouso em Marte, o projeto de Maria Fernanda Cerini compreende ainda outras formas de dar suporte à prospecção de vida extraterrestre, como, por exemplo, realizando experimentos na estratosfera, um ambiente acessível e análogo a Marte por ter baixas temperaturas, pressões e umidade, e alta taxa de radiação. Em uma parceria com o Grupo “Zenith”, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC/USP), seu grupo de pesquisa envia sondas a bordo de balões de alta-altitude que permitem testar a resistência da vida e de suas bioassinaturas em ambientes extremos (expondo microrganismos terrestres e biomoléculas a essas condições). Ela participou dos projetos “Garatéa I” e “Garatéa II”, semelhantes ao projeto mais recente, “Garatéa III”, lançado em abril último. Além disso, uma grande perspectiva da pesquisadora é lançar seus experimentos no espaço profundo, a bordo dos chamados “CubeSats” – pequenos satélites com forma de cubos de 10 centímetros – para a mesma finalidade. (Rui Sintra - Assessoria de Comunicação – IFSC/USP)

*Maria Fernanda Cerini tem 26 anos, fez Graduação em Química na UNICAMP, realizou um intercâmbio acadêmico no Reino Unido e fez seu mestrado em Física Biomolecular no IFSC/USP, no âmbito do projeto de pesquisa em Astrobiologia no Laboratório Nacional de Luz Sincrotron (LNLS).

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