Os trens da Rumo percorrem aproximadamente 1.500 a 1.700 quilômetros no trajeto entre o terminal de cargas em Rondonópolis (MT) e o Porto de Santos (SP) - Crédito: Divulgação/RumoO município de São Carlos está localizado no principal corredor logístico ferroviário do agronegócio brasileiro, que liga regiões produtoras do Centro-Oeste ao Porto de Santos (SP). Hoje, mais de 25 trens circulam diariamente por São Carlos e região, muitos deles com composições de 135 vagões e capacidade para transportar aproximadamente 13 mil toneladas por viagem, o equivalente a 288 caminhões bitrem.
Assim, podemos dizer que 325 mil toneladas passam diariamente pelos trilhos de São Carlos e que a eficiência deste sistema de transporte evita que 7.200 caminhões bitrem trafeguem todos os dias pelas rodovias brasileiras.
Além de grãos, a ferrovia transporta combustíveis, óleo vegetal, celulose, fertilizantes, cimento e cargas diversas em contêineres. Parte relevante desse fluxo tem origem em Rondonópolis (MT), com destino ao Porto de Santos.
Os trens da Rumo percorrem aproximadamente 1.500 a 1.700 quilômetros no trajeto entre o terminal de cargas em Rondonópolis (MT) e o Porto de Santos (SP), utilizando a malha ferroviária da Ferronorte (EF-364), conectada a outras malhas da empresa.
Nos últimos seis anos, não houve descarrilamentos no município de São Carlos, reflexo de investimentos em tecnologia, manutenção da via permanente, renovação de frota e obras para reduzir conflitos urbanos. As intervenções também buscam melhorar a mobilidade e a segurança.
Entre os investimentos locais, a duplicação do viaduto da Praça Itália foi a primeira das três grandes obras previstas para o município, entregue em junho de 2022. Além dessa intervenção, a empresa também já concluiu a construção da nova alça no viaduto da antiga estação, restando apenas a execução de uma rampa de acesso vinculada à estrutura.
A terceira grande obra prevista é a implantação de um viaduto rodoviário na Avenida Morumbi, incluindo intervenções complementares, como adequações viárias e implantação de rotatória. Atualmente, o empreendimento encontra-se em fase de planejamento e desenvolvimento de projeto.
Esses projetos integram os investimentos da renovação da Malha Paulista, que somam mais de R$ 7,5 bilhões e beneficiam mais de 70 municípios, além de gerar empregos diretos e indiretos ao longo da operação ferroviária.
IMPORTÂNCIA HISTÓRICA – A professora, historiadora e mestra Leila Maria Massarão, chefe da Divisão de Pesquisa e Produção do Departamento de Pesquisa da Fundação Pró-Memória de São Carlos (FPMSC), explica que a ferrovia impulsionou o crescimento do núcleo urbano de São Carlos, tanto com a formação dos primeiros bairros operários, como Vila Nery e Prado, quanto com o estabelecimento de indústrias e novas empresas, ainda ligadas à ferrovia, mas que expandiram os empregos e a fixação de populações na cidade.
Segundo ela, a ferrovia possibilitou a chegada de populações inteiras, vindas de todos os lados do mundo, se pensarmos que os imigrantes chegaram aqui pelos trilhos, com suas culturas específicas; a ferrovia trazia consigo novas tecnologias e conhecimentos, expandindo e acelerando as transformações da cidade. “De um ponto de vista das mentalidades, a ferrovia impôs ainda um novo modo de viver, em que o tempo não era mais controlado pela natureza, mas pelos horários dos trens e dos relógios da estação”, explica Leila.
A historiadora explica que, economicamente, a ferrovia provocou um salto no volume de exportações, com mais segurança do que havia com o transporte em lombo de mulas e com um tempo bem menor de deslocamento. Tudo isso potencialmente aumentou os lucros dos cafeicultores, inclusive com um montante de crescimento que extrapolou as fazendas e reverteu-se no desenvolvimento dos centros urbanos, como foi em São Carlos.
Leila destaca ainda que, nos últimos anos, tem crescido a consciência de como o transporte ferroviário pode ser eficiente e positivo para o deslocamento de cargas no país. Essa transformação se materializa na reforma de ferrovias já existentes, na construção de novos circuitos e em avanços na aquisição e utilização de novos materiais rodantes. No caso específico de São Carlos, a cidade está numa importante rota de transporte de cargas, e isso impacta o município pelo aumento do trânsito de trens e pelas mudanças na malha ferroviária e na forma como ela afeta o cenário urbano.
Ao contrário do que muita gente defende, Leila não acredita na retirada dos trilhos da área urbana da cidade, em especial pelos investimentos realizados pelas concessionárias na modernização da malha e dos materiais rodantes. “Da mesma forma, se se efetivar o transporte de passageiros para o interior paulista, acredito que será muito bem recebido pelas pessoas, inclusive se for construído de forma moderna, com trens de deslocamento rápido.”
Ela afirma ainda que, historicamente e patrimonialmente, retirar os trilhos da cidade, hoje, é mutilar um marco importante de São Carlos, de seu desenvolvimento e transformação. A estrada de ferro está presente em diversas gerações das pessoas da cidade; o espaço da estação tem um lugar importante na história e na memória da população, gerando a sensação emocional de pertencimento da cidade com a ferrovia e vice-versa.
“Tirar os trilhos hoje do centro da cidade seria mutilar um testemunho histórico e cultural muito relevante para o são-carlense – bastando observar o apego da cidade a esse patrimônio – e impactaria para além de São Carlos, pois aqui temos um testemunho vivo e atuante de um aspecto importante da história paulista e do Brasil. É relevante para todas as pessoas, de dentro e de fora de São Carlos”, conclui a especialista.
FALTA UM CENTRO LOGÍSTICO EM SÃO CARLOS – O economista Sérgio Perussi destaca que São Carlos é mais um dos municípios que fazem parte de um “corredor”. “Portanto, isso acrescenta pouco à cidade, já que o trajeto apenas passa por ela. Não se trata de um ‘hub’, o que talvez viabilizaria um entreposto, propiciando a oportunidade de iniciar ou terminar o processo logístico de larga escala na cidade. Resumindo, a cidade é apenas parte do trajeto, o corredor”, comenta.
Dado que a produção agropecuária e industrial da cidade e região é geralmente direcionada aos grandes centros e, de forma mais específica, para São Paulo, Santos e para o aeroporto de Campinas (Viracopos), o transporte ferroviário, segundo Perussi, talvez não apresente um custo-benefício capaz de fazer mudar o modal de transporte hoje utilizado na região, que é o rodoviário.
Ele lembra que a concessionária da ferrovia que atravessa a cidade já escoa a produção de suco de laranja, açúcar, álcool e commodities agrícolas produzidas na região a partir da cidade de Araraquara, que já conta com infraestrutura logística ferroviária há tempos. “Se pensarmos em automóveis, caso da fábrica de Itirapina, talvez isso possa acontecer a partir de Itirapina, que já foi também um ‘hub ferroviário’.”
De acordo com ele, essas cidades citadas talvez sejam mais competitivas em relação a São Carlos se isso, a acentuação do uso do modal ferroviário, vier a acontecer. Para São Carlos, talvez seja mais interessante trabalhar para se tornar um pequeno hub aeroviário, dadas as suas características de perfil industrial multifacetado.
Agora, quando se pensa em economia regional, a cidade utilizar o fato de esse modal cortar o município é fundamental, pois quanto mais modais logísticos existirem, mais atraente fica a região. “Esta é uma análise superficial, pois o potencial econômico demandaria um estudo de viabilidade técnico-econômica por especialistas em logística. Mas parece já existirem pré-condições que não favoreçam São Carlos numa possível concorrência com as cidades citadas”, conclui o economista.





