O jornalista Paulo Duarte: grande orador, ele foi o único político do interior do país a discursar no memorável comício da Praça da Sé, a maior concentração popular da história brasileira - Crédito: DivulgaçãoSe estivesse vivo, o polêmico advogado, jornalista e político Paulo Edmundo Dias Duarte completaria hoje, 5 de fevereiro, 87 anos. Ele faleceu em São Carlos há 22 anos, em 2004, aos 65 anos. Com os dons da escrita e da oratória, o “Carlos Lacerda de São Carlos” deixou marcas indeléveis na atuação em jornais e no Poder Legislativo do município. Foi vereador por dois mandatos, de 1983 a 1988 e de 1993 a 1996.
Carioca da gema, nascido no Rio de Janeiro em 5 de fevereiro de 1939, Paulo Duarte foi cantor de ópera na década de 1950, mas problemas nas cordas vocais o levaram a abandonar a promissora carreira que tanto amava. Ele desembarcou em São Carlos no ano de 1960, onde trabalhou na redação do jornal Correio de São Carlos e foi diretor comercial da antiga CBT (Companhia Brasileira de Tratores). Casou-se com Jane Romanelli Duarte e teve três filhos: Paulo Filho, Ana Paula e Patrícia.
Duarte formou-se em Direito pela Fadisc, tornando-se advogado criminalista e jurista de grande talento. Nos anos 1970, foi sócio-proprietário do jornal O Diário, onde desenvolveu um estilo jornalístico polêmico. A ligação com a família Pereira Lopes, empresários e políticos de direita em um mundo dividido pela Guerra Fria, levou-o a interessar-se pela política local.
Eleito vereador, em 1984 Duarte foi presidente da União dos Vereadores do Brasil (pro tempore) e da União dos Vereadores do Estado de São Paulo (UVESP). Em 1992, voltou à Câmara já pelo PTB, ingressando depois no PSL, partido que presidiu no período em que exerceu a presidência da Câmara Municipal, de 1º de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 1996. Foi proprietário do jornal Correio de Notícias e, nos últimos anos, atuava como radialista, mantendo um programa diário na Rádio São Carlos, onde trabalhava ao lado do também polêmico radialista Itamar de Oliveira.
O jornalista chegou a São Carlos amparado pela família Pereira Lopes e foi trabalhar no jornal Correio de São Carlos. O jornalismo daquela época tinha um perfil tradicional e conservador, um painel de obviedades que se tornaria terreno fértil para novidades.
Foi por meio das máquinas de escrever do velho Correio e pelos dedos de Duarte que chegaram a São Carlos os preceitos do jornalismo moderno, como a novidade do lead (cabeça da notícia) nas redações locais. Antes, predominava o chamado “nariz de cera”, em que os jornalistas apresentavam um rebuscado preâmbulo antes de relatar os acontecimentos. No auge, o Correio chegou a manter uma linha direta com a Rádio São Carlos, de Gisto Rossi, que transmitia flashes ao vivo da mesa de trabalho do repórter Paulo Duarte.
O memorialista Cirilo Braga, amigo de Duarte, conta que certa vez, no fechamento de uma edição, ao constatar que o jornal estava “chocho”, Paulo soube de um boato envolvendo um ferroviário, segundo o qual um disco voador havia sido visto em Itirapina. Não teve dúvidas e estampou a manchete no dia seguinte: “DISCO VOADOR É VISTO NA REGIÃO”. O curioso é que, logo depois da publicação, um disco voador voltou a ser visto na região.
Sua passagem pelo jornalismo foi interrompida quando o Correio de São Carlos deixou de circular após 1964. Uma nova mudança se fez necessária e ocorreu com o incentivo daquele que considerava um “irmão siamês”, Ernesto Pereira Lopes Filho, que o levou para a atividade comercial na loja Climax.
Com a criação da Faculdade de Direito, capitaneada por Everaldo Keppe, Paulo ingressou no curso e passou a trabalhar na instituição como assistente da diretoria. Sem se dar conta, dobrava ali uma esquina importante de sua vida, pois mais adiante abraçaria a advocacia com devoção.
Formado em Direito, passou a atuar como advogado, destacando-se no Tribunal do Júri. Dono de uma oratória marcante, realizou defesas memoráveis e obteve vitórias que o notabilizaram.
O passo seguinte foi o ingresso na política, consolidado com sua eleição como vereador em 1982. Ao Poder Legislativo, Paulo Duarte levou o estilo arrojado com que atuara no jornalismo, no comércio e na advocacia.
O Brasil vivia a agonia do regime militar, e coube a Paulo Duarte incluir São Carlos na mobilização pelas “Diretas Já”. Graças à liderança que já exercia no PMDB, foi o único político do interior do país a discursar no memorável comício da Praça da Sé, a maior concentração popular da história brasileira.
Discursou ao lado de grandes nomes do cenário político nacional, entre eles Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Lula e Mário Covas. Em um congresso realizado em Fortaleza, ajudou a derrotar o continuísmo ao integrar a direção da UVB (União dos Vereadores do Brasil). Como apoiador da Emenda Dante de Oliveira, chegou a ser detido pelas tropas do general Newton Cruz, em Brasília, junto com outros vereadores.
Em 1995 e 1996, presidiu a Câmara Municipal de São Carlos, período em que o município recebeu a Volkswagen Motores e em que sua gestão promoveu a restauração do histórico edifício Euclides da Cunha, sede do Poder Legislativo.
O “combativo jornalista” denunciou que a Telesp estava “uma merda”, fotografou cobra em praça pública, inaugurou “arranha-céu” sem “é”, polemizou com padre, médico, gerente de banco, delegado e comandante da PM, acompanhou rumorosos casos policiais e arrecadou mantimentos para ajudar flagelados da seca do Nordeste. Paulo Edmundo Dias Duarte foi homenageado pelo município com a denominação da Avenida 2, no Jardim Embaré, conforme a Lei Municipal nº 13.300.





