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sábado, 31 de janeiro de 2026
Mercado de trabalho

Especialistas são-carlenses analisam crescimento da contratação de pessoas 50+

A participação de trabalhadores com mais de 50 anos no comércio varejista passou de 5% para 8%, se comparados os meses de novembro de 2021 e 2025

27 Jan 2026 - 17h02Por JM
Escassez de mão de obra e envelhecimento da população abre espaço para pessoas mais experientes em várias empresas - Crédito: Agência BrasilEscassez de mão de obra e envelhecimento da população abre espaço para pessoas mais experientes em várias empresas - Crédito: Agência Brasil

A participação de profissionais com mais de 50 anos na força laboral teve um aumento gradual entre janeiro e novembro de 2025, segundo um levantamento das admissões nos setores de comércio e serviços realizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Entre as 5,88 milhões de admissões formais no período, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a participação desses trabalhadores foi de 9%. Em 2021, o percentual era menor, de 7%.

A maior parte, 48%, correspondeu a trabalhadores de até 29 anos; e 43%, a pessoas entre 30 e 49 anos.

Segundo a FecomercioSP, o setor de serviços é o que concentra o maior percentual de trabalhadores com esse perfil etário, sendo 10% das contratações no acumulado até novembro, ante 8% no comércio atacadista.

Já o comércio varejista tem maior concentração de trabalhadores mais jovens, com 57% das contratações compostas por pessoas de até 29 anos.

Mesmo assim, a participação de trabalhadores com mais de 50 anos no comércio varejista passou de 5% para 8%, se comparados os meses de novembro de 2021 e 2025. Entre os mais jovens, houve recuo de 60% para 56%.

Esse movimento também está associado a um contexto de escassez relativa de mão de obra, especialmente em ocupações operacionais e de média qualificação, o que tem levado as empresas a ampliarem o público potencial de contratação, com maior valorização de trabalhadores mais experientes e manutenção do ensino médio completo como principal patamar de escolaridade exigido.

RESULTADO DAS TRANSFORMAÇÕES DEMOGRÁFICAS – A cientista social e política Aline Zambello destaca que o aumento na contratação de trabalhadores com 50 anos ou mais no comércio e serviços em São Paulo, apontado pela FecomercioSP, não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo direto das transformações demográficas estruturais no Brasil.

“Conforme o Censo de 2022, o envelhecimento da população é um fato que pode ser visualizado na pirâmide etária, que mostra uma base mais estreita e um alargamento nas faixas intermediárias e superiores. Esse movimento é consistente com a tendência de longo prazo observada pelo IpeaData, que registra crescimento contínuo da participação de ocupados com 60 anos ou mais desde 2013”, comenta.

Diante desse cenário, segundo Aline, o mercado de trabalho se vê impelido a se adaptar, valorizando a experiência e reduzindo a rotatividade, enquanto a sociedade precisa enfrentar os desafios de uma força laboral que envelhece de forma mais rápida do que o previsto.

ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA – O economista Elton Eustáquio Casagrande, do Departamento de Economia da ACISC, afirma que o crescimento das contratações de pessoas com 50+ mostra dois aspectos: um já ocorrido no Brasil em outras situações e outro que, no contexto atual, traz uma realidade diferente.

“A primeira é que, no passado, o Brasil já cresceu muito na demanda por trabalho exatamente com demanda agregada oriunda do Estado, a despeito do baixo investimento privado. O que aconteceu foi o aumento das atividades econômicas por meio da ampliação de horas extras e do turno noturno, mais do que a expansão propriamente dita de novas empresas.”

Segundo ele, de qualquer forma, a expansão sempre ocorre na margem, como também tem ocorrido atualmente, mas há escassez no número de pessoas disponíveis para o trabalho. Ainda mais quando a política social, que embora seja absolutamente necessária — como a política de renda mínima — avança promovendo a saída de famílias inteiras do mercado de trabalho. Isso só será alterado quando essas famílias, essas pessoas, puderem avaliar financeiramente que não irão evoluir nem alterar seu padrão de vida, mas apenas manter um nível de subsistência mínimo, um pouco acima do nível de miséria, dentro das medidas econômicas de combate à pobreza.

“A comparabilidade ou o mimetismo na sociedade é importante, e o que se percebe é que quem se engaja no mercado de trabalho, como empregado ou empreendedor, terá uma condição social muito melhor do que as pessoas que permanecerem na renda mínima. O fato é que há milhões de pessoas nessa condição, em especial nos estados do Norte e do Nordeste, que muitas vezes ultrapassam o mercado formal de trabalho. Isso também é relevante no Sudeste, onde há um contingente muito grande, com um número de pessoas assustador, mesmo em cidades como São Carlos, Araraquara, Rio Claro, Votuporanga e Presidente Prudente. Logo, o leitor e o ouvinte vão se surpreender com o tamanho desses contingentes”, comenta.

O economista ressalta que os contingentes beneficiados por programas sociais também geram demandas. “Isso é importante porque fortalece as atividades econômicas. Por outro lado, a oferta de trabalho cai. E, ao cair, as pessoas com maior faixa etária passam a ser mais procuradas, o que é positivo”, explica.

Casagrande destaca o papel positivo das políticas compensatórias. “Primeiro, porque recuperam um contingente populacional que já acumulou experiência e tem um horizonte, um objetivo de vida totalmente diferente daquele que está entrando no mercado de trabalho. Em geral, essas pessoas já buscaram construir escolaridade e uma cultura tácita relevante, podendo contribuir muito no ambiente de trabalho.”

O economista aposta que a presença dos 50+ nos ambientes de trabalho pode ser altamente positiva. “As empresas é que precisam aproveitar essas pessoas, avaliando se elas trazem, entre suas virtudes, aspectos que podem colaborar com o ambiente interno de trabalho. Não apenas pela função que venham a exercer, mas pelo engajamento e orientação na visão organizacional e no funcionamento de uma unidade produtiva. O empresário, o microempresário, precisa muito de bons apoiadores internos, pessoas de confiança, com experiência, paciência e calma para resolver assuntos, que não se irritam facilmente. São aspectos idiossincráticos que transformam o ambiente empresarial para melhor”, conclui.

NOVO CONTEXTO – O avanço dos 50+ no mercado de trabalho reflete novas realidades de um novo contexto social. “O aumento da presença de profissionais com mais de 50 anos nas admissões está associado ao envelhecimento da população economicamente ativa, à maior permanência dessas pessoas no mercado e à valorização, por parte das empresas, de atributos como experiência, estabilidade e menor rotatividade. Esses fatores são particularmente importantes nos setores de comércio e serviços, que enfrentam elevados custos associados ao turnover”, diz a FecomercioSP. (Com informações da Agência Brasil).

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