Donald Trump - Crédito: Unsplash A política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode influir diretamente na campanha eleitoral e no resultado das eleições de outubro, quando o Brasil elegerá um novo presidente, além de 28 governadores, senadores e deputados federais. A avaliação é do cientista político Bruno Pasquarelli, em entrevista exclusiva ao São Carlos Agora. Ele é doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Campina Grande (PB).
“No Brasil, a postura de Trump vai influenciar nas eleições. Pode haver aumento do preço do petróleo nos próximos meses. Então, a pauta econômica é primordial para o Brasil, e mais primordial até do que a política externa. Tudo isso pode afetar as eleições por conta das mudanças econômicas que podem ocorrer nos próximos meses. Toda a polêmica do tarifaço foi positiva para o governo brasileiro e trouxe ganhos políticos para o presidente Lula. Mas isso pode ser esquecido nos próximos meses”, destaca Pasquarelli.
Segundo ele, a intervenção dos EUA em outros países, como ocorreu recentemente na Venezuela, não é absolutamente algo novo. “Isso sempre ocorreu ao longo do tempo, é óbvio que em outros contextos, com outras proporções e outras motivações”, comenta.
Pasquarelli explica que o pano de fundo de tudo isso é a zona de influência global. “Temos uma nova conjuntura internacional, na qual as principais potências tentam consolidar suas bases territoriais e ideológicas. Vimos isso acontecer na Rússia, que invadiu a Ucrânia. A Rússia, de certa maneira, captura a Ucrânia para manter sua zona de influência próxima ao seu território. Isso poderá acontecer com outros países próximos da Rússia, como a própria Geórgia, além de outros. Temos a China, que pode invadir Taiwan e também atuar em outras zonas de influência na Ásia, no Sudeste Asiático e, por que não, na África. De certa maneira, ela tenta manter essa zona de influência mais fortalecida. E agora os Estados Unidos. Desde a eleição de Donald Trump, em 2025, o seu secretário de Estado, Marco Rubio, já disse que a América Latina é a América para os americanos, numa retomada da Doutrina Monroe, que basicamente prevê que os EUA mantenham a América Latina sob seus desígnios. A invasão da Venezuela deixa claro que Trump quer manter a América Latina sob seu domínio, de forma ideológica e estrutural.”

O cientista político ressalta que existe a possibilidade de intervenção em todos os países. Há essa retórica do combate às drogas, como o próprio Trump usou contra Maduro. “Ele tem repetido esse discurso ao Petro, da Colômbia, mas sem nenhuma prova. Isso pode ser, sim, o início de novas ações. Eu não acredito que ele venha a invadir países democráticos. Acho que, nesses casos, a negociação vai imperar. Temos o contexto de uma não democracia na Venezuela, o que acaba sendo um fator importante nas ações de Trump. Vão existir pressões e retóricas para pressionar a Colômbia. No Brasil, não acredito que ele faça isso, mas, se Lula for reeleito, deve haver uma pressão maior. No próprio México, os EUA podem intervir usando como justificativa o tráfico de drogas. Sobre Cuba, Marco Rubio tem dito seguidamente que o país pode ser um dos alvos de mais ações dos EUA. Sempre há essa possibilidade, mas temos que entender essas hipóteses a partir do pano de fundo da nova geopolítica internacional, em que os EUA tentam conter a China. Caso haja condições de os EUA conterem a China política e economicamente, eles vão agir.”
Pasquarelli destaca a força das terras raras e dos minerais críticos do Brasil. “É o caso do Brasil na questão das terras raras. Os Estados Unidos precisam desses minerais. Eles saíram atrás na corrida pelas terras raras e estão tentando negociar com o Brasil. O país tem uma carta na manga muito interessante com relação a esse tema.”
O especialista em geopolítica destaca ainda que a política externa dos EUA conta muito para a disputa eleitoral. “Isso é fato. Com essas ações na Venezuela, Trump acaba agradando o eleitorado latino que votou nele nas últimas eleições, mesmo tendo anunciado que tomaria medidas contra os imigrantes, como tem ocorrido em seu próprio governo. Isso pode, sim, trazer algum bônus eleitoral. Mas é preciso lembrar que, nos Estados Unidos, há as eleições de meio de mandato, as midterm elections, que ocorrerão em 2026. Trump depende dessas eleições para manter a maioria na Câmara e no Senado. Boa parte das casas legislativas pode ser renovada, o que pode ser muito negativo para o governo dele. Então, ele joga para tentar manter essa maioria. Após essas eleições, veremos a nova configuração e se haverá mudanças que poderão afetar Trump e suas pautas. Ele tenta chegar a um terceiro mandato, o que é inconstitucional. Ele tem articulado nesse sentido para buscar algo que seria um golpe na talvez maior democracia do mundo”, conclui.




