(16) 99963-6036
segunda, 26 de janeiro de 2026
Artigo Rui Sintra

Um patrimônio do Banco Central

25 Jan 2026 - 11h07Por Rui Sintra
Rui Sintra - Crédito: arquivo pessoal Rui Sintra - Crédito: arquivo pessoal

Todo mês eu me preparo espiritualmente para o mesmo ritual: pagar a fatura do cartão de crédito. Não é um simples pagamento — é um sacrifício digno da Grécia antiga. A diferença é que, em vez de oferendar um carneiro aos deuses, eu entrego meu salário inteiro ao banco e ainda agradeço pela “parceria”. Abrir o aplicativo é uma cena de terror psicológico. Primeiro vem o suspense, com a tela a demorar três segundos para carregar, mas para mim são três anos. Aí aparece o valor. Eu encaro e penso: “Isso não pode ser meu. Deve ser um erro. Talvez invadiram meu cartão... Talvez seja a fatura do vizinho... Ou do Brasil inteiro”. Só que não: cada linha da fatura é uma lembrança dolorosa. O delivery de sushi no meio do mês? “Era só uma comemoraçãozinha, porque a quarta-feira tinha sido difícil”. O tênis novo? “Era promoção, eu economizei comprando!” (economizei gastando R$ 500). O pacote de streaming que eu nem assisto? “Assinei porque um dia posso precisar ver um documentário sobre “Alpacas no Himalaia.” A compra de R$ 37,90 na farmácia às duas da manhã, que eu não lembro até hoje se foi um remédio, uma barra de chocolate ou uma escova de dentes elétrica. O kit de panelas antiaderentes que comprei, sendo que mal sei fritar um ovo sem queimar. O porta-cápsulas de café importado, que parece obra de arte moderna… Mas as cápsulas acabaram em novembro passado. A luminária em formato de lua que comprei porque estava “50% off só até à meia-noite daquele dia”. Agora brilha mais do que minha conta bancária. O moletom de “edição limitada” que continua limitado ao cabide do armário e um aspirador robô que prometia limpar sozinho, mas só serve para o meu cachorro passear pela sala. O curso online de ukulele comprado na Black Friday por R$ 29,90. Até hoje não sei se o ukulele é um violão encolhido ou só uma guitarra infeliz. Três assinaturas de aplicativos de meditação que eu nunca abri (irônico, porque é justamente por causa delas que eu preciso meditar) e um filtro pago no Instagram para “embelezar stories”, que usei exatamente duas vezes. E a cereja do bolo - skins de jogos online que não mudam nada na jogabilidade, mas me transformaram no guerreiro digital mais estiloso… até eu desistir do jogo duas semanas depois. Na hora de pagar sinto-me um mártir. O dedo paira sobre o botão “pagar fatura” como se fosse um botão nuclear. Penso em desistir, em parcelar, em fugir para outro país e começar uma nova vida com nome falso. Mas, não. Respiro fundo e clico. E aí vem a parte mais cruel - o aplicativo me parabeniza. Sim, o banco me dá parabéns por ter pago a dívida. É como se o açougueiro elogiasse a vaca por andar até o abatedouro sozinha. Depois do pagamento, o saldo da conta cai para um valor tão baixo que dá vontade de emoldurar. Fico com R$12,47 para o mês inteiro, o que me transforma instantaneamente em mestre da economia. Faço cálculos complexos: “Se eu andar 15 minutos em vez de pegar ônibus, ainda sobra dinheiro para dois chicletes até sexta-feira” e quando sobra uma moeda de R$1, eu a trato como se fosse uma criptomoeda rara. É nesse momento que eu descubro talentos escondidos: virar chef de macarrão instantâneo gourmet (com ovo, salsinha e, quando sobra coragem, ketchup); transformar ida ao mercado em passeio turístico — só para olhar preços — e cogitar vender online aquele tapete de yoga comprado na “Semana do bem-estar”, que só foi usado pelo gato como cama. E, mesmo assim, no dia seguinte, lá estou eu: deslizando o cartão de crédito de novo, como se nada tivesse acontecido. Porque eu não aprendo. Eu sou o cachorro que volta para o próprio vômito, só que meu vômito é parcelado em 10 vezes sem juros. No fundo, acho que meu cartão de crédito não é um meio de pagamento; é um relacionamento abusivo. Ele me dá prazer imediato, mas depois cobra caro — literalmente, e eu fico nesse ciclo eterno, rindo de nervoso. Meu cartão de crédito deveria ser tombado como patrimônio do Banco Central. Moral da história: pagar a fatura dói, mas não pagar dói mais ainda. Então eu sigo, herói anônimo da vida adulta, sobrevivendo a cada mês com o mesmo lema - “O próximo eu pago direitinho”. MENTIRA!!!! EU SEI QUE NÃO VOU PAGAR!!!.

Leia Também

Últimas Notícias