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sábado, 20 de julho de 2019
Memória São-carlense

A era de ouro do basquetebol de São Carlos

01 Jun 2018 - 05h33Por (*) Cirilo Braga
A era de ouro do basquetebol de São Carlos - Crédito: Arquivo Histórico e Divulgação Crédito: Arquivo Histórico e Divulgação

Os grandes momentos do esporte em São Carlos foram alcançados quando grupos de pessoas abnegadas uniram esforços para fazer algo além do trivial e conquistar objetivos que marcaram época. Nada foi fácil, mas era preciso acreditar no sonho, afinal o melhor da história se faz com o ingrediente essencial da determinação e pitadas generosas de ousadia.

Foi assim com o basquetebol da cidade, cuja fase áurea se deu a partir do ano de 1951, quando o São Carlos Clube incorporou o Paulista Esporte Clube e tornou a área daquela instituição a sua sede de campo. E não era pouca coisa: havia um campo de futebol com arquibancadas cobertas e descobertas, uma pista para corridas de cavalos e uma quadra de basquete descoberta junto à rua 28 de Setembro.

Até então, desde que foi fundado o SCC contava oficialmente com apenas com uma modalidade esportiva, o tênis de campo. Associados que praticavam basquete utilizavam a quadra de cimento na rua 28 de Setembro, nas dependências do Estádio do Paulista Esporte Clube.

O médico Romeu Santini, então presidente do São Carlos Clube, pôs mãos à obra após a fusão: reformou o estádio de futebol e construiu o primeiro ginásio coberto da região, que receberia o nome de João Marigo Sobrinho.

Para inaugurar em grande estilo o ginásio, o clube não fez por menos: reuniu um grupo de jogadores talentosos e montou um time de basquete que entrou para a história, conseguindo algumas proezas. Na empreitada, Santini contou com o apoio incondicional do diretor Milton Olaio.

A entrega da obra foi num dia de muita festa e ginásio completamente lotado: 4 de novembro de 1952.

A inauguração teve o brilho de uma estupenda exibição de jogadores que surgiam como astros do basquete da cidade: Mané, Balança, Del Nero, Semeghini, Celio Mori, Jose Roberto, Ricardão, Walter, Diógenes, Zizo e Nosso Pão formaram a equipe épica comandada por Cerello e com total suporte do diretor José Carlos Triques.

Nessa época o time do clube começou a ter destaque representando a cidade. Em 1956 conquistou o título dos Jogos Abertos do Interior em Bauru contra a equipe de Piracicaba e em 1957, na edição dos Jogos sediados em São Carlos ficou com o vice-campeonato ao perder por apenas um ponto do mesmo rival, que estava no auge.

Aliando técnica e muito treinamento a equipe foi colhendo vitória sobre vitória. Em pouco tempo passou a receber em São Carlos times famosos da época, como o Corinthians Paulista, Clube Espéria e Pinheiros de São Paulo, e do interior: Clube Campineiro, Nosso Clube de Limeira e 15 de Piracicaba, além dos cariocas Flamengo e Vasco da Gama e até clubes do Paraguai, Uruguai e Chile.

O quinteto de São Carlos Clube impunha respeito aos adversários e era um osso duro de roer para os clubes grandes.

Em 1952, conseguiu a façanha de quebrar a invencibilidade do Corinthians que somava 107 partidas sem derrota até cair numa memorável partida disputada no Ginásio João Marigo Sobrinho. Daquele dia guardam-se fotos que documentaram o feito.

Entre os jogadores que participaram de equipes formadas pelo São Carlos Clube em outras épocas estiveram: Mané, Ricardão (Malmegrim Gonçalves), Paulinho, Célio Mori, Diede Lameiro, Diógenes, Bebeto, Wilson Pozzi, Danilo Pozzi, Miltinho Olaio, Zé Luiz, Zé Carlos, Rosa Branca, Pelica, Waldemar Semeghini, Tim Bandoni, Fabião, Del Nero, Zizo, Nosso Pão, Balança e Luiz Braga.

Na história do Clube o basquete da década de 1950 representou um capítulo especial e não é exagero apontá-lo como sendo o maior e mais significativo evento desenvolvido naquela instituição desde sua fundação e um dos melhores períodos do esporte de São Carlos.

Em 1958 Ricardão, que se destacava nas quadras por sua grande envergadura de 2,10m e 1,90m de altura, passou a disputar os Jogos Abertos do Interior com uma equipe formada principalmente por atletas juvenis, como jogador e técnico. Nesse período treinou outras estrelas do basquete local como Bebeto, Diógenes, Rosa Branca Braga e outros.

Ricardão foi uma figura importante para o esporte são-carlense dentro e fora das quadras. Em 1948 ele e os amigos José Carlos Triques, José Luiz de Oliveira Leite, Walter Gullo, José Fernando Porto e Dario Rodrigues criaram um projeto para a construção de áreas de lazer na piscina municipal de São Carlos (região central) com quadras de basquete e tênis e playground infantil. A Prefeitura, porém, não conseguiu colocar o projeto em pratica. Surgiu então a ideia de arrecadar dinheiro, reformar uma quadra da cidade e a partir dela construir a primeira quadra de basquete cimentada e iluminada de São Carlos, com medidas e marcações oficiais.  Era o impulso que faltava ao basquete local, que fez da sua casa a “Quadra da 28”, localizada ao lado da rua 28 de setembro, palco de jogos regionais nacionais e até internacionais como a partida contra a Universidade Católica do Chile em 1948.

Além de Triques, Dario Rodrigues, Walter e Josdé Gullo e José Fernando Porto, a equipe contava com ajuda de sócios diretores como: Demerval Maricondi, Mariano Ortega e Virgilio Ribeiro.

O técnico era Mario Amancio Duarte, depois substituído por Ricardão que assumiu o comando técnico quando também jogava.

O time de basquete do São Carlos Clube, inclusive representava a cidade de São Carlos em disputas de nível nacional, uma saga que se prolongou até os anos 1970.

Entre os grandes craques se destacava Bebeto, Adalberto Gonçalves, o armador do grande time dos anos 1950, falecido no ano de 2015.

Natural de Monte Aprazível, interior paulista, Bebeto mudou-se para São Carlos com os pais e os quatro irmãos. Gervásio Gonçalves, seu pai, era jogador de futebol e atuou no Paulista Esporte Clube.

Ídolo de nosso basquetebol, Bebeto era tão habilidoso que foi convidado a integrar a equipe do Harlem Globetrotters, conhecida por misturar o esporte com entretenimento em suas apresentações. Mas uma jornada promissora foi abortada porque o craque foi impedido de se mudar aos EUA pelo seu pai. Em 1972, já aposentado, o ex-jogador foi dar aulas de basquete nas cidades de Santos e Guarujá. Faleceu em agosto de 2016.

Mas se no último dia 21 de abril, ao reinaugurar suas quadras poliesportivas reformadas, o Clube decidiu dar a elas o nome de Ricardo Malmegrim Gonçalves, foi porque Ricardão deixou seu nome gravado para sempre na história da entidade.

Nascido em 19 de junho de 1920, na Fazenda da Horta, perto da Estação Monjolinho, ele mudou-se para a cidade com a família no ano de 1930, quando começou a estudar e para se sustentar passou a trabalhar em uma ótica e também na livraria do pai. Foi nessa época que conheceu o basquete, na Escola Normal e se apaixonou pela modalidade. Diga-se que Ricardão mostrava destreza em qualquer esporte e depois de terminar a escola foi estudar no Colégio Dom Pedro, formando-se contador, profissão que nunca exerceu.

Ricardo treinava futebol no Paulista Esporte Clube e posteriormente Basquete no São Carlos Clube. Nessa época os atletas treinavam das 6 às 7 horas da manhã, antes de seguir para o trabalho, pois não recebiam ajuda financeira.

Em 1936 iniciaram-se as competições de basquete nos Jogos Abertos do Interior e três anos depois, já incorporado à delegação da cidade, o atleta disputou sua primeira competição oficial. Ricardão teve carreira longeva nos jogos, dos quais participou por 19 anos consecutivos, além de competir nos Jogos Regionais.

Enquanto jogava Basquete o craque frequentou a Escola de Educação Física de São Carlos onde se formou em 1952, a terceira turma da escola. Essa titulação lhe deu condições de exercer outra paixão: o ensino.

Além de atleta, Ricardão dedicou a vida a compartilhar aprendizados com as gerações mais novas e lecionou em vários locais, inclusive na Escola Estadual Álvaro Guião e na Escola Superior de Educação Física de São Carlos – então uma das mais renomadas do país.

Ricardão casou-se com Maria de Lourdes Martins Gonçalves em 10 de janeiro de 1953 e teve três filhos, Ricardo, Lea Silvia e Roberto.  Faleceu no dia 10 de abril de 2014 aos 93 anos.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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