A vereadora Larissa Camargo: "Se as pessoas, por exemplo, achavam que eu somente atuaria politicamente em duas linhas de frente do mandato, hoje estamos com um trabalho muito amplo em diversas áreas" - Crédito: Arquivo pessoal Eleita como primeira vereadora negra da história de São Carlos, vinda da periferia da cidade e filiada ao PC do B, Larissa Camargo venceu vários desafios. Agora, com mais de um ano de mandato, ela avalia o trabalho realizado e os novos projetos.
“A experiência tem sido muito importante para a minha vida profissional e para o meu crescimento pessoal. É um desafio muito grande porque a experiência nunca deixa de ser uma grande responsabilidade. Às vezes eu acho que o senso de responsabilidade vai atenuar e sinto que ele só aumenta. A expectativa das pessoas vai crescendo conforme nosso trabalho vai se desenvolvendo. Se as pessoas, por exemplo, achavam que eu somente atuaria politicamente em duas linhas de frente do mandato, hoje estamos com um trabalho muito amplo em diversas áreas. Então, como primeira vereadora negra e primeira vereadora eleita pelo PC do B, é uma responsabilidade muito grande cumprir o que falei na campanha: ser a representante da periferia na Câmara Municipal. Ao mesmo tempo, este senso de responsabilidade me impulsiona a sempre buscar errar menos, ouvir mais, acolher mais e entender como atendemos às expectativas das pessoas, alinhando com aquilo que é possível ou não dentro dos processos de tramitação comum da Câmara e do que é o trabalho do nosso Legislativo. O desafio é grande, mas estou animada”, destaca.
Larissa garante que nunca foi vítima nem de racismo nem de qualquer forma de desrespeito por parte dos vereadores da Casa. “Sinto-me extremamente respeitada pelos vereadores da Câmara Municipal do gênero masculino. Nunca tive qualquer intercorrência que eu pudesse falar: ‘vou fazer uma intervenção’. Algumas falas costumeiramente ditas que possam ter conteúdo machista, misógino, eu sou uma pessoa que faço o barramento imediato. Se alguém falar qualquer violência ou violação próximo a mim, eu vou fazer o barramento imediato, independente de quem seja, independente do âmbito em que esteja. Eu não durmo com aquilo para mim. Eu acho também que este é o nosso papel como educação política. E não tenho como lhe trazer nenhum episódio que possa lhe dizer que me senti desrespeitada enquanto mulher ou enquanto mulher negra, porque eu acho que as pessoas entenderam a necessidade desta sociedade diversa que se constrói. Eu estar na Câmara também traz um pouco deste respeito e desta responsabilidade da Câmara Municipal de ser um local que inclua mais mulheres. Vemos um crescimento da participação feminina no Legislativo, que viveu um avanço no número de vereadores e também na qualidade do parlamento”.

A vereadora vê avanços no debate em busca da igualdade racial e no combate ao racismo em São Carlos. “Fazendo um recorte específico na questão da negritude na Câmara Municipal, eu acredito que estamos avançando no diálogo. Eu penso que primeiramente temos que ressignificar a questão racial para este governo. O plano de governo para o combate ao racismo que foi apresentado na campanha (do prefeito Netto Donato) é muito frágil. As ações precisam ser bem mais ousadas, pois temos muitos desafios neste campo. De toda forma, temos conseguido pautar algumas questões. Nós estamos na Comissão de Combate ao Racismo, pautando junto à Secretaria da Educação um protocolo municipal que vai tratar da violência racial no âmbito da educação municipal. Já tem grupo de trabalho, já tem comissão trabalhando neste documento com várias mãos, pensando este protocolo para que o município se posicione nestas questões. Temos também o Pacto das Cidades Antirracistas, em que temos discutido as metas que precisam ser atingidas depois de o prefeito assumir este compromisso. Estamos também às vésperas da eleição do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial em São Carlos. Então, tenho procurado estar em todas as discussões que levam à questão racial. Eu me sinto com muita responsabilidade e respeito. Mas também tenho procurado ouvir e aprender com os mais velhos. Isso é uma herança da ancestralidade, da negritude: ouvir e aprender com os mais velhos, com os nossos griôs. Espero que em 2026 estas metas se concluam, pelo menos algumas delas. Então, a gente consegue mensurar no nosso plano de trabalho do mandato alguns avanços, mas ainda muito frágeis e aquém daquilo que precisamos atingir”.
Para a parlamentar, o combate ao feminicídio vai muito além da punição aos criminosos. “Infelizmente, os dados estão aí. Aumenta-se a punição. Muda-se a forma jurídica que as pessoas deveriam temer. Mas, se não tratarmos isso também como problema de saúde pública, vamos continuar remediando questões como esta. Estamos falando de pessoas que cometem atos inconsequentes, relacionados à violência e que infelizmente levam à morte de mulheres e, mesmo assim, as pessoas cometem o ato sabendo que as consequências serão as mais severas possíveis. Acho que temos que atuar em duas frentes. A primeira é a prevenção. Então temos que começar a tratar de questões de direitos humanos desde a primeira infância, para se saber como ser colaborativo, como dividir, para aprender como atitudes individualizadas podem levar um adulto egoísta, egocêntrico e que, agindo com individualidade, pode entender que uma mulher pertence a ele.
A outra frente é a realização de campanhas permanentes, que eu acho que a gente precisa ter veiculando na mídia. Se todo mundo se posiciona a favor de proteções, a violência precisa recuar. Então, eu acho que são duas questões na linha divisória entre pensar em resolver e sem esquecer da efetiva atuação das políticas públicas. Temos que ter ações de prevenção desde a atenção básica da saúde e da assistência social, para depois não termos que chorar o leite derramado e recorrer às medidas de proteção. Temos leis, Patrulha Maria da Penha, e nada disso tem funcionado. Várias mulheres têm sido mortas com boletim de ocorrência e medida protetiva. Isso não as salvou”, completa.





