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sábado, 26 de setembro de 2020
Polêmica

Professores e alunos vão à Câmara para repudiar ato de vereadores no Carmine Botta

26 Set 2018 - 06h45Por Abner Amiel/FSCR
Professores e alunos vão à Câmara para repudiar ato de vereadores no Carmine Botta - Crédito: Abner Amiel/Folha São Carlos e Região Crédito: Abner Amiel/Folha São Carlos e Região

Um movimento formado por professores, membros de sindicatos, ativistas e alunos repudiou na sessão da Câmara Municipal desta terça-feira (25) o ato dos quatros vereadores que foram na Escola Municipal Carmine Botta, na manhã da última terça-feira (18), questionar os desenhos sobre intolerância religiosa e sexualidade. Para o movimento, os vereadores invadiram a escola e agiram com autoritarismo, intolerância e preconceito. Vereador Leandro Guerreiro (PSB) ignorou a manifestação.

Durante a sessão professores e alunos exibiam cartazes contra preconceito e intolerância religiosa. Alunos da Camine Botta usaram a Tribuna Livre contestando o direito dos vereadores adentrarem na escola, a retirada dos cartazes, pediram autonomia didática e cobraram uma retratação dos parlamentares envolvidos.

“Não vamos tolerar discurso de ódio, que pregue a LGBTfobia, racismo, intolerância religiosa, qualquer lógica fascista”, disse um aluno do Ensino Médio, na Tribuna da Câmara presente.

A professora de Ciência da escola Carmine Botta, Rosane Santos, leu uma carta de esclarecimento e repúdio, que se tornou um manifesto na internet, assinado por 1.541 mil pessoas. Na carta dizia que foi desenvolvido um trabalho escolar que visou abordar a diversidade cultural, seus conceitos e os tipos de intolerância presentes na sociedade. No mesmo texto sublinhava que condenava a tentativa de coibir a liberdade de pensamento e de expressão dos alunos pelos vereadores.

Nas paredes do corredor da Carmine Botta havia cartazes com textos sobre preconceitos contra LGBT ((Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros), intolerância, ladeados por gráficos. Um cartaz reproduzia um desenho que ilustrava a imagem de um homem, com aparência de cristão e munido de uma bíblia, com o braço estendido contra duas mulheres seguidoras de religião de matriz africana, retratando um ato de intolerância, dizendo: “Sai, tolerância”.  Outros cartazes exibiam frases “Exu não é demônio”, “Somos Todos Iguais". Os trabalhos foram confeccionados por alunos do 9º ano.

Após reclamação de parte de pais de alunos, o vereador Leandro Guerreiro arrancou os cartazes das paredes e os levou até a diretoria da escola para questionar os desenhos. Os vereadores Edson Ferreira, Moises Lazarine e Lucão Fernandes estavam presentes. Na ocasião Leandro disse que foi impedido de entrar na escola, mas ameaçou chamar a polícia e a direção autorizou.

De acordo com a professora, Leandro agiu de maneira agressiva e arbitrária retirando cartazes, na tentativa de impedir a livre manifestação de pensamento por parte dos alunos sem consentimento da equipe gestora.

“Os outros vereadores ficaram intimidados e não sabiam que se tratava, mas o Leandro foi autoritário. Nós estamos aqui hoje porque fomos afetados diretamente pelo preconceito, intolerância, pela ausência de diálogo de alguns vereadores do nosso poder Legislativo e estamos aqui para mostrar para nossos alunos, à sociedade o trabalho que estamos fazendo e como a gente deve caminhar no sentido de respeito à diversidade cultural neste país”, disse a professora Rosane.

O vereador Leandro Guerreiro foi citado durante o discurso do vereador Moises Lazarine e teve o direito a um minuto da Tribuna Livre. O vereador já tinha provocado o movimento antes com gesto de arma e óculos Thug Life, que retratam o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

Na ocasião do discurso de Guerreiro, os manifestantes viraram de costa para o plenário a fim de ignorar o parlamentar. Leandro fez um discurso ácido contra os professores e fez um trocadilho com a sigla LGBT.

“A vagabundagem é tão grande nessa cidade que eu consegui com esse ato deixar nossas crianças em paz nesta terça-feira. Os bandidos estão todos aqui. Olham pra mim, canalhas da esquerda”. Em seguida exibiu um cartaz com a sigla LGBC, traduzindo como Leandro Guerreiro Bolsonaro nosso Capitão.

A reação veio em forma de protesto. No mesmo momento membros do movimento xingaram Guerreiro de lixo, vagabundo e usaram palavrões. O coro de fascista e Ele Não, em referência a Bolsonaro, também foi ecoado.

Leandro, ainda, mostrou um cartaz com as figuras dele e de Bolsonaro protegendo crianças, que estavam soltando pipas, jogando amarelinha e futebol, com espada e escudo, de sindicatos, professores de esquerda, PSOL, PSTU, sexo, violência, drogas, LGBT. No cartaz tinha frase “Vamos proteger nossas crianças! Respeitem os cristãos.

“Podem continuar me chamando de machista, fascista, estão pegando leve. Têm mais palavras para usar contra mim? Eu esperava mais desse movimento, tem sindicatos, professores de esquerda, partido político, o LGBT. Por traz disso tem também a putaria, mentira, sexo para nossas criancinhas e arruaças que podem destruir a cabeça de uma criança, tudo coisas malignas”, disse Leandro.

Guerreiro disse que não estava preocupado com o ato que repudiava sua conduta na escola. “Não me importo com meu cargo nem com minha vida. Não fiz nada de errado, porque não tem nenhum vídeo da minha pessoa arrancando cartazes de forma violenta, ofendendo professor e porque eles não têm prova contra mim. Só tem depoimento e depoimento pode ser falso. Eu quero esses esquerdistas se dane”.

Na sequência reiterou discurso contra a ideologia de gênero. “Nossas crianças estão sendo agredidas, querem empurrar putaria, querem falar na cabeça do seu filho de seis anos que é homem que ele pode virar menininha. E querem falar para a sua filha, sua princesa, que ela pode virar machinho. Vamos combater essa desgraça que querem levar para escola. Se pudesse voltar atrás eu arrancaria e até rasgaria o cartaz dessa vez”, vociferou.

Durante o discurso, Lucão Fernandes, um dos vereadores que foram à escola, disse que foi a Carmine Botta procurar entender o que acontecia e que em nenhum momento se excedeu. Lucão, ainda, defendeu o ensino de intolerância religiosa. “Eu fiquei satisfeito com as informações que fui buscar na escola. Tratava-se de tema de intolerância e eu disse que o tema tem que ser debatido dentro de sala de aula e nas mesas dos nossos lares”. Mesmo assim, Lucão foi chamado de omisso pelo movimento.

Edson Ferreira foi o último vereador envolvido no episódio da escola a se pronunciar. Ele rebateu a acusação que os vereadores invadiram a instituição escolar e que os vereadores foram autoritários.

“Nós não sabíamos que era um trabalho escolar e fomos até o local para saber o que era. Foi uma reunião tranquila, antes de entrar na escola esperamos a diretora vir nos atender, entramos na sala da diretora e falamos sobre denúncia que recebemos. Ela já estava sabendo. A direção e os professores foram muito educados”, disse. Mesmo amenizando a situação, Edson Ferreira foi chamado de opressor e ouviu o coro “A Escola Resiste” e “Nós Somos Muitos”.

Estavam presentes apoiando o ato dos professores e alunos membros do Sindicato dos Professores e Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e do Sindicato dos Servidores Públicos e Autárquicos Municipais de São Carlos (Sindspam).

SOBRE O CARTAZ

As figuras dos cartazes geraram polêmicas porque alguns vereadores interpretaram como ofensivas e pejorativas.

“O cartaz que fazia apologia favorável ao movimento LGBT mostrando que eles são coraçãozinho paz e amor. Inclusive na foto do cartaz tinha um coração na cor da bandeira LGBT, uma bandeira exposta no mural da escola para nossas crianças. Em relação à intolerância religiosa, eles pregam contra o ódio, mas ao mesmo tempo mostram certo ódio. Colocaram um cristão na posição de agressor, intolerante, contra duas mulheres”, disse Moisés.

O vereador Edson Ferreira disse que a foto para representar a intolerância deveria ser melhor escolhida.

Segundo a professora do Carmine Botta Rosane Santos, o cartaz quis retratar que as religião de matriz africanas são as que mais sofrem intolerância no Brasil.

“O cartaz traz a imagem de um homem sendo intolerante com mulheres que estão praticando alguma religião de origem afro-brasileira. O livro que ele tem na mão é uma cruz, mas juntos temos um gráfico que mostram dados que as religiões de matriz africanas são as que mais sofrem com intolerância no Brasil. Então existe todo um conteúdo que se ler e interpretar dá para entender qual é mensagem que os alunos querem passar”.

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