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domingo, 13 de junho de 2021
Esportes

Aluno da UFSCar recebe prêmio internacional na Espanha

Pesquisa que aborda os dilemas dos jovens (estudar ou jogar) foi reconhecida em congresso realizado em Sevilla

17 Jun 2015 - 08h21
Bruno durante a premiação: pesquisa foi reconhecida por comitê julgador. Foto: Divulgação - Bruno durante a premiação: pesquisa foi reconhecida por comitê julgador. Foto: Divulgação -

O universitário são-carlense Bruno Martins Ferreira, 24 anos, que cursa Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) acaba de ser premiado no II Congresso Mundial de Treinadores de Futebol" (título original "II Congreso mundial de Entrenadores de Fútbol - Centenário RFAF (1915 -2015) Real Federación Andaluz de Fútbol em um congresso realizado em Sevilla, na Espanha).

O evento aconteceu nos dias 12, 13 e 14 de junho. Bruno, que torce pelo Corinthians e estuda no período noturno da UFSCar disse que o trabalho é de autoria coletiva e provem de uma pesquisa realizada pelo ProFut - Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Futebol.

A pesquisa intitulada "¿Estudiar o jugar al fútbol?: Comprendiendo los dilemas que atormentan los proyectos de vida de jóvenes futbolistas brasileños" ("Estudar ou jogar futebol?: Compreendendo os dilemas que atormentam os projetos de vida de jovens futebolistas brasileiros) conquistou o prêmio  "Melhor Investigação - Categoria Comunicação Oral".

A pesquisa são-carlense concorreu com outros 11 trabalhos selecionados. Ao lado de outras duas obras conquistaram a honraria através de decisão unânime do comitê científico do Congresso que reuniu participantes de todo o mundo.

 

ENTREVISTA

Ainda em Sevilla, Bruno concedeu entrevista exclusiva ao São Carlos Agora onde contou detalhes do trabalho premiado no Congresso Internacional.

 

São Carlos Agora - Qual a importância deste prêmio. Não só para você, mas sim para o futebol e para os profissionais que atuam como treinadores?

Bruno Martins Ferreira - Esse trabalho é de autoria coletiva, provem de uma pesquisa realizada pelo ProFut - Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Futebol, coordenada pelo Professor Doutor Osmar Moreira de Souza Júnior, e os pesquisadores já graduados Ana Bianconi, Raquel Munoz, Marina Molina e graduandos João Coutinho Netto, João Celestine, Caio Cotta, Milena de Bem e eu. A importância creio que esteja no fato do reconhecimento internacional, como modo expresso em premiação. Em especial por estar em um lugar onde o futebol é muito mais analisado e estudado e também tido como centro do planeta bola. Poder representar meu país, minha universidade e minhas crenças foi algo muito importante pessoalmente, e para o Grupo de Estudos. Diria que para o futebol a importância se faz na prática consciente desse, a reflexão das ações sobre os papéis que desempenham professores nas escolas, treinadores nos espaços de aprendizagem (clubes e escolinhas) e também para os próprios praticantes, uma vez que o estudo sugere a reflexão dos valores atribuídos ao futebol em nossa sociedade. Claro que sou consciente da importância que tem para o programa Ciência sem Fronteiras, para a Universidade Federal e pelo fato de levar o nome de minha cidade.

 

SCA - No que se baseou a sua pesquisa?

Bruno - Ela trata de investigar os projetos de vida de jovens praticantes de categoria de base, de um clube aqui mesmo da cidade. Projetos de vida adotamos como sendo um plano de ação do indivíduo em relação a sua vida em um tempo mais ou menos largo. E acreditamos que a riqueza de respostas foi o diferencial de nosso estudo, pois fomentou discussões diversas sobre as visões de mundo, e as atribuições de significado e sentido que o jovem da a escola e ao futebol.

 

SCA - Os profissionais que atuam no futebol poderão trabalhar em cima das áreas em sua pesquisa? Porque?

Bruno - Acredito que a valia esteja nos valores que os profissionais do futebol, professores de Educação Física podem agregar em suas práticas. Apontando para meninos e meninas o quão difícil é ascender profissionalmente nessa carreira, além de esclarecer as possibilidades benéficas do esporte quanto a prática desportiva, recreativa e social que o futebol oportuna. Ninguém aqui quer ir contra o sonho de milhares de crianças e jovens brasileiros, mas é preciso assegurar clareza, e estabelecer uma relação de honestidade com nossa juventude, para que quando chegue próximo do final do processo de produção de jogadores (categorias sub17, sub 18) não sofra com a lacunas na formação escolar e a falta de informação sobre as possibilidades outras em suas vidas. Pois o que a nossas referências apontam é um grande número de jovens que se perdem no caminho, no processo de formação. Se pensarmos 35 grandes clubes no Brasil, e que esses são os que remuneram relativamente bem seus profissionais, estamos falando de 875 postos de trabalho em média, que são super concorridos e que não suprem o excedente de desejos desse pessoal que tanto quer se tornar jogador de futebol. Isso porque falo de futebol praticado por homem, pois as mulheres nem como profissão conseguimos configurar, dado a falta de comprometimento das instituições, entidades organizacionais e das políticas públicas de nosso pais. A profissão de futebolista por dados da CBF em 2012 aponta que 82% ganha no máximo até dois salários mínimos, e que somente 2% ganham mais que 20 salários. As mídias criam um panorama de status, glamour e que a sociedade adere, também desse modo fazendo com que os núcleos familiares vejam o futebol como meio de ascensão social, o perigo está em não se pensar que a carreira de um jogador é relativamente curta em relação a outras profissões, e em questões outras como, a relocação no mercado de trabalho, e uma baixa remuneração na maioria dos casos.

 

SCA - O que levou você, como universitário, procurar pesquisar esta área do futebol profissional?

Bruno - Sou apaixonado por futebol, praticante, torcedor, pesquisador e treinador. Essa área em especial responde muito por um processo que acompanhei ao longo de minha vida, de vários casos de amigos tidos como potencias "futuros jogadores", mas que encerravam seus sonhos não por falta de atributos futebolísticos, mas motivadores outros como a parte financeira, a figura do empresário, a necessidade de auxílio na renda familiar, a desilusão do sistema corrupto de adesão em várias situações e clubes em nosso pais.

 

SCA - Qual foi a sua preocupação quando tomou esta iniciativa?

Bruno - Em verdade era uma inquietude comum a esse grupo de investigadores, pois o futebol que vemos hoje não é em definitivo o que queremos. Nos preocupava e preocupa, o modo que são feitas as coisas em especial em nosso país, a que custo isso é feito, quanto tempo se dedica, quantos projetos de vida se perdem nesse processo. Isso também indica o jogador Paulo André (ex Corinthians) em seu livro "O jogo da minha vida", em que interroga muito esse nosso modelo de formação. Paulo André que inclusive esteve em contato comigo durante o congresso, através do Fundador da Universidade de Futebol, João Paulo Medina (ex Inter, Corinthians, Coritiba) , que tive a honra de acompanhar o evento junto.

 

SCA - Analisando mais a questão pessoal. Após semanas de pesquisa e consequentemente apresentação, como se sente sendo premiado internacionalmente? Porquê?

Bruno - Quando a gente sai do nosso país, espera o respeito, não mais que isso. Nunca busquei ser melhor, ou ser premiado como melhor. Acho realmente egocêntrico, até porque eu tive uma parcela importante no processo, por expor para mais de 3.300 pessoas e não na minha língua mãe, mas essa conquista é coletiva, onde o Grupo de Estudos tem participação fundamental, em especial o professor Osmar que a tanto tempo vem discutindo e debatendo pautas das mais importantes, para ampliar a visão de seus alunos dentro da Universidade Federal. Me sinto privilegiado por Deus, por primeiro estar onde queria estar, estudar o que gosto de estudar e trabalhar com o que realmente amo. Amigos, namorada, família, sua história, muitos sentimentos, pessoas, situações afloram em um momento como esse. É de verdade bom, mas de há muito o que ser feito, isso foi apenas um indicativo de que nosso trabalho tem valor, e que precisam ser repensado o futebol em nosso país, principalmente porque estamos tratando de vidas.

 

SCA - Para o seu currículo, o que acresce este prêmio?

Bruno - Meu sonho não muda, quero apenas ser professor de Educação Física, com toda beleza que há na profissão de ser professor embora não tenha o respeito que mereça. Muito maior que qualquer prêmio é você conseguir fazer algo na vida de alguém ou por alguém, e vejo na Escola o caminho, e claro o futebol como meio. Estou muito feliz mas não posso pensar que isso é o bastante, os assuntos merecem ações mais efetivas, práticas e diretivas na busca de um futebol mais consciente. Não consigo de verdade dimensionar. Muita gente anda falando comigo, pela representatividade do Congresso e o número de pessoas que lá estavam, por fazer parte de um programa como o Ciências sem Fronteiras e ter honrado com meu país, enfim, por estar aqui fora ainda não tenho realmente ideia do quanto isso me favorecerá, eu estou feliz por dentro, por ter dado o recado e isso é mais importante para mim. 

 

SCA - Considerações finais.

Bruno - Obrigado pela divulgação de nosso trabalho, de nosso Grupo de Estudos, e espero ter colaborado com o futebol.

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