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segunda, 25 de janeiro de 2021
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE – Zuza, uma lenda do futebol

05 Jan 2018 - 04h33Por (*) Cirilo Braga
Imagem: Reprodução - Acervo Regina Siqueira - Imagem: Reprodução - Acervo Regina Siqueira -

Poucas pessoas conseguem transformar o seu ofício em arte e pelo talento, gravar seu nome na história, transformando momentos em flashes de eternidade. O futebolista Luiz Estevam de Siqueira Netto conseguiu esse feito, sendo reverenciado como patrono do estádio de futebol inaugurado há 37 anos na Vila Costa do Sol. O "Zuzão", como a praça esportiva é conhecida, rememora uma página feliz do futebol-arte.

Fotos do acervo de sua filha Regina Siqueira, ilustraram o livro "Zuza, o Cigano do Futebol", do historiador Marco Antonio Leite Brandão, publicado em 2011, que na esteira de sites especializados, notas na imprensa e registros históricos de clubes, reuniu aspectos da vida do lendário atacante revelado em São Carlos.

"DEMÔNIO LOIRO"

Seria bom se os jovens atletas que nesta semana começam a jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior, a "Copinha", buscassem inspiração em "Zuza" para jogar com naturalidade e mais que isso: buscar vitórias com a destreza do centroavante alto, extremamente habilidoso, de chute forte e cabeceio certeiro, que jogava "o fino", para usar a expressão da época, entre os anos 30 e 50.

Uma foto dele em particular captura a atenção: aquela em que um lépido Zuza acaba de marcar um gol pelo Corinthians num clássico contra o São Paulo. O então "Demônio Loiro" tem a alegria estampada no rosto e sua imagem contrasta com a do zagueiro adversário de joelhos, apoiado ao pé da trave, com expressão de dor e lamento.

Chamavam-no de "o maior chutador do interior", "globetotter do futebol" e outros termos grandiloquentes numa era em que o esporte era chamado de "association" e tudo o que a ele se relacionava ainda tinha sotaque inglês: quíper, beque, friquíqui, córner, offside.

FARO DE GOL

Já quando atuava pelo São Carlos Football Club, pelo qual foi revelado, e depois  pelo Ruy Barbosa, Paulista EC e Rio Claro  destacava-se como um jogador muito técnico e rápido, principalmente nas finalizações. Jogava de centroavante, meia-direita e meia-esquerda. Deslocava-se com velocidade e tinha faro de gol.

"Seu nome marcou época no futebol e todo os que apreciam esse esporte até hoje se recordam do seu virtuosismo com uma bola nos pés, do seu chute forte, indefensável quase sempre e igualmente do seu espírito irreverente e brincalhão dentro e fora dos campos, onde reinou absoluto em sua época", escreveu Octavio Carlos Damiano no livro "Crônicas do Tempo Antigo", publicado em 1996.

NO "TRIO DE FERRO"

Contador de formação, nascido em Jundiaí e criado em São Carlos, Zuza foi uma prova (insofismável como dizem os locutores de rádio) de que os virtuoses da bola são seres escolhidos pelas divindades do futebol. O rapaz que deliciava as pessoas que passavam as tardes de domingo no estádio do Paulista ou no Rui Barbosa alçou voos altos. Conseguiu o feito de levantar títulos pelo Corinthians e também pelo maior rival o Palestra para se tornar uma lenda no Guarani, onde fez gol de tudo quanto foi jeito. Também por curta temporada atuou pelo São Paulo, tendo o privilégio de poucos: jogar pelo "Trio de Ferro" paulistano.

Os recortes de jornais comprovam o assombro da crônica: "estilista por excelência", "malabarista", "matemático nos passes", são alguns dos termos usados por aqueles que vibravam com suas jogadas e tentavam transportar o deleite para as palavras. Nos tempos de Leônidas da Silva, o "Diamante Negro", seu grande amigo, era no dizer da imprensa a "Maravilha Branca". "A bola em seus pés onde ele estiver só terá um destino: o gol". Leônidas da Silva chegou a considerar Zuza o melhor centroavante do Brasil. Zuza era rápido dentro da área, tinha um drible seco, e a frieza e o oportunismo dos grandes centroavantes.

RECORDE NO CORINTHIANS

Como convém a todo craque até os dias de hoje, tinha predileção por brilhar nos clássicos. Certa vez no Corinthians, numa partida em que atuou por apenas 20 minutos e entrou no lugar de um tal Rato, marcou dois gols no goleiro Aimoré Moreira e acabou com um tabu que perdurava por 6 anos diante do Palmeiras. Ainda jogando pelo Timão, anotou 6 gols numa só partida contra o Sírio em 1933. Recorde jamais alcançado por qualquer outro atacante na história corintiana.

Quando no Guarani, como seria óbvio, fez história impondo-se como o carrasco da Ponte Preta. Chegou a balançar as redes quadro vezes num só "derby". Contratado pelo Guarani de Campinas em 1941 Zuza se tornou o maior artilheiro da história do Clube, com mais de 220 gols marcados, e é também o maior artilheiro do Derby Campineiro com 18 gols.

As passagens de Zuza seriam aos jogadores de hoje, uma lição e tanto de valentia e aquela dose de malandragem sadia como a que usou num jogo em que a Ponte dominava o Guarani completamente. Zuza passou a manquitolar, iludindo os zagueiros adversários que, despreocupados, o deixaram livre de marcação. A primeira bola que recebeu meteu nas redes e o Guarani ganhou por 1 a 0. Foi aquele carnaval.

Em sua época não havia canelas de vidro e ninguém reclamava de bolhas nos pés. Os jogadores tinham mais amor à camisa que defendiam, lutavam como uns leões e não havia tanta contusão como hoje.

CRAQUE DISCIPLINADO

Não se confunda, porém, a catimba com falta de fairplay. Zuza ganhou o Troféu Belfort Duarte de 1951, dedicado ao jogador mais disciplinado em campo naquele ano. Mas impassível em sua modéstia, sabia compreender que o prêmio maior era o reconhecimento do torcedor.

E isso ele conseguiu por todos os campos onde passou e também na seleção paulista onde perfilou junto a grandes nomes e conquistou o campeonato brasileiro. Por quase toda a vida, seus finais de semana eram dedicados à bola, exibindo sua arte numa coleção de cidades. O "Cigano" atuou em muitos gramados. De Marília a São João da Boa Vista, passando por Rio Claro, Taquaritinga, Matão,Jundiaí, Ibitinga e Catanduva. Signo da generosidade que envergou junto com cada uniforme. Porque na verdade, a camisa que ele vestia, genuína, era a camisa do futebol-arte.

Octavio Damiano, em crônica dedicada a Zuza, lembra de quando assistiu a uma partida entre o Rui Barbosa FC e o então poderoso XV de Novembro de Piracicaba."Como reforço, o Zuza trouxe os seus amigos e companheiros Waldemar de Brito, que estava se despedindo dos campos brasileiros porque tinha sido contratado por um clube argentino e Armandinho dos Santos, filho do poeta Ambrósio dos Santos, outro conhecido e famoso jogador são-carlense, que jogou no Paulistano e outros clubes, tendo encerrado a carreira no São Paulo FC.O  time são-carlense venceu a partida, com Zuza marcando seu gol".

"O craque brasileiro não abre mão da beleza. Uma simples vitória será muito menos se não for beleza", sentenciou Nelson Rodrigues, na crônica intitulada "O Essencial é o Supérfluo". A crônica foi escrita em 1977, ano em que Zuza faleceu em 7 de julho, aos 65 anos.

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