
O uso de medicamentos para controle do peso e do diabetes, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado dúvidas entre mulheres em idade reprodutiva e profissionais de saúde. A principal preocupação é se essas medicações podem interferir na eficácia dos métodos contraceptivos. Segundo especialistas, a resposta depende do tipo de fármaco utilizado, do método anticoncepcional escolhido e do momento do tratamento.
De acordo com a professora de Ginecologia da Afya Vitória, Madalena Oliveira, não há evidências de que as canetas emagrecedoras interfiram diretamente nos hormônios sexuais ou no mecanismo de ação dos anticoncepcionais. “Essas medicações não anulam o anticoncepcional de forma direta. O principal ponto de atenção está nos efeitos gastrointestinais, especialmente no retardo do esvaziamento gástrico”, explica. Esse efeito pode reduzir a absorção dos anticoncepcionais orais em situações específicas, como no início do tratamento ou durante o aumento da dose.
Atualmente, duas classes de medicamentos são mais utilizadas para a perda de peso: semaglutida e tirzepatida. Segundo a ginecologista, estudos recentes indicam que a semaglutida não altera de forma significativa a concentração sérica dos hormônios presentes nos anticoncepcionais orais. “No caso da semaglutida, os métodos hormonais orais podem ser mantidos, desde que haja acompanhamento médico”, afirma.
O cenário, porém, é diferente com a tirzepatida. Embora ainda não existam evidências conclusivas de aumento nas falhas contraceptivas, um estudo publicado no Journal of the American Pharmacists Association apontou uma redução de cerca de 20% na exposição plasmática aos hormônios dos anticoncepcionais orais quando utilizados em conjunto com a substância.
“Essa redução não ocorre por uma interação medicamentosa clássica, como acontece com anticonvulsivantes, mas pela lentificação do esvaziamento gástrico, que diminui a absorção do contraceptivo oral”, esclarece Madalena. Diante dessa incerteza, a recomendação é cautela. “Enquanto não temos estudos definitivos, evitamos anticoncepcionais orais em usuárias de tirzepatida. Caso a paciente opte por mantê-los, é fundamental associar um método de barreira”, orienta.
A professora de Endocrinologia da Afya Vitória, Alana Rocha Puppim, ressalta que as canetas emagrecedoras não interferem nos hormônios sexuais nem no funcionamento de métodos contraceptivos que não dependem da absorção intestinal. “DIU, implante subdérmico, anticoncepcionais injetáveis, adesivo e anel vaginal não sofrem esse tipo de interferência e são considerados opções seguras para mulheres em tratamento com essas medicações”, explica.
Outro ponto de atenção é o impacto da perda de peso sobre a fertilidade. Segundo Alana, o excesso de peso pode comprometer a ovulação e a função hormonal. “Quando a paciente está acima do peso ideal, há um impacto negativo na fertilidade. Com a perda de peso, esse quadro pode se reverter”, afirma. Na prática clínica, isso se traduz em um aumento da chance de gravidez. “É relativamente comum vermos mulheres que tinham dificuldade para engravidar passarem a ovular e conceber após o ajuste do peso”, relata.
Por esse motivo, as especialistas reforçam a importância da orientação adequada sobre contracepção ao iniciar o uso dessas medicações. “A perda de peso por si só já pode aumentar a fertilidade, elevando o risco de uma gestação não planejada”, alerta Alana. Além disso, mulheres que desejam engravidar devem suspender o uso das canetas com antecedência. “A recomendação é interromper o medicamento pelo menos 30 a 60 dias antes de tentar engravidar, já que não há segurança para o uso dessas drogas durante a gestação”, complementa Madalena.
Diante desse contexto, a orientação é clara: a escolha do método contraceptivo deve ser individualizada e feita em conjunto com o médico, considerando o tipo de medicação utilizada, o perfil da paciente e seus planos reprodutivos. As especialistas destacam que nenhuma mulher deve suspender ou modificar seu método contraceptivo por conta própria ao iniciar o uso das canetas emagrecedoras. Informação de qualidade e acompanhamento profissional são fundamentais para garantir segurança reprodutiva, prevenir gestações não planejadas e assegurar a eficácia do tratamento.
Por Beatriz F. Comuniquese





