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domingo, 26 de maio de 2019
Artigo Antonio Fais

A Invenção do Diabo

14 Mar 2019 - 12h31Por (*) Antonio Fais
A Invenção do Diabo - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Era uma época em que a vida era simples: as pessoas nasciam, viviam cerca de 30 anos, sofriam um tanto, morriam e iam para o Céu. Tudo simples e claro! Não havia dúvidas quanto ao destino.

Assim se deu com Lúcifer. Criança e homem reto, ascendeu ao Céu e logo tornou-se um dos preferidos do Senhor. Razoável supor-se que fosse feliz, mas não era! Sentia dentro de si um vazio. Queria, assim como o Senhor, ser perfeito. Havia, porém, perdido algo no caminho, mas não sabia nem quando nem onde. E, além de tudo, sentia-se só, pois nenhum de seus pares parecia entender o que se passava. Sabia algo errado. Mas o quê?

Corajoso, foi ter com seu Mestre que, beijando-lhe a face, disse:

- Procures entre os mortais por uma mulher chamada Lilith. Ela tem a chave de teu destino.

E assim Lúcifer vagou anos e anos por todo o mundo em busca da tal mulher. Qual não foi sua surpresa ao encontrá-la:

- Senhora, andei por todo o mundo a sua procura. Sei que tem a chave da perfeição.

- Não sei o que procura, meu belo jovem, mas eu só posso lhe dar o que os homens se dispõem a pagar por algumas horas de prazer e nada mais.

- De dinheiro e riquezas não disponho, mas posso lhe dar algo que todos querem: o caminho que leva a Deus.

- Ainda não sei como eu, uma reles pecadora, posso lhe ajudar, mas estou disposta a ouvi-lo.

Lúcifer passou a descrever a Lilith sua vida e seus caminhos, as vantagens de ser justo e bom e, principalmente, como vencer o mal e conquistar para sempre a felicidade. Ela, que, por força da profissão, sempre foi uma boa ouvinte, em momento algum o interrompeu. E, ao final de toda sua explicação, disse:

- Meu querido, há anos recebo aqui homens de todas as idades, cor e posição social. Nunca soube lhes responder suas dúvidas, mas aprendi que quando são bem formuladas as perguntas, cabe a cada um achar a resposta adequada. Você não é diferente de nenhum deles. Portanto, vou apenas lhe perguntar: “De que vale ser feliz? Como pode entender de felicidade se não há mais tristeza? O mundo se resume no Bem e no Mal?”. Vá e ache suas respostas.

E assim, Lúcifer passou meditando 40 dias e 40 noites antes de voltar ao Mestre.

- Senhor, após muito pensar, cheguei a uma conclusão: para ser perfeito, o homem precisa pecar, errar e desenvolver suas próprias teorias. Nossos ensinamentos impedem que isso aconteça.

- E o que sugere?

- Que, enquanto mortal, ele aprenda com seus próprios erros. Mas, para recuperar-se, precisaria viver 150 anos.

- Mas Eu não quero assim. Esse não seria mais o Meu mundo. Quero que viva apenas 30 anos como mortal, assim pouco sofrerá e que seja feliz pela eternidade.

- Então, Senhor, com todo o respeito, quero que me permita partir e viver as minhas próprias ideias, pois eu quero que todos sejam perfeitos. De que vale saber a perfeição, se nunca pudermos alcançá-la?

- Sabes que se partires todos estarão contra ti? Mesmo os que queres ajudar! Que estarás só e terás nomes horríveis? Diabo, Demônio, Satanás, Belzebu e outros tantos. Que de ti inventarão calúnias e mentiras? Não te verão bonito como és. Para todos, terás rabo e chifre.

- Sei-o bem, Senhor.

- E mesmo assim irás?

- O Senhor sabia isso desde o começo.

Houve aí um grande silêncio. Um quase arrependimento, não fosse tão tarde.

- E sem os 150 anos? Como lutarás?

- O Homem aprenderá a viver. Vamos desenvolver a ciência e a consciência. Daqui milhares de anos viverá 50, 60, 70, 100 anos. Até conquistar o tempo necessário. Agora temos tempo.

- Sabes que meu poder é infinito. Sabes que posso acabar contigo.

- Sei que se me destruíres, destrói-te a ti mesmo. Agora tenho a eternidade.

E, isso dito, partiu para sua longa missão.

(*) O autor é escritor e filósofo

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