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quinta, 27 de junho de 2019
Memória São-carlense

A Igreja de São Benedito

07 Jun 2019 - 06h50Por (*) Cirilo Braga
A Igreja de São Benedito - Crédito: Acervo FPMSC/Toninho Amaral/Bertinho Medeiros/Rosana Braga Crédito: Acervo FPMSC/Toninho Amaral/Bertinho Medeiros/Rosana Braga

Entre as igrejas construídas pela comunidade católica em São Carlos, chama minha atenção a igreja de São Benedito. Tanto pela sua localização, no coração da cidade, num lugar onde antigamente existia um cemitério, quanto pelo que se sabe de sua história, que guarda estreita relação com a história da própria cidade.

Preservo em meus arquivos o exemplar de um boletim paroquial da Catedral, do ano de 1983, com informações sobre o templo e sua comunidade. Uma das mais antigas igrejas da cidade, a de São Benedito teve sua trajetória iniciada no final do século XIX por uma entidade de marcante espírito associativo, de origem portuguesa e integrada quase exclusivamente por negros: a Irmandade de São Benedito.

Numa época em que as localidades brasileiras costumavam ter, além da igreja do padroeiro, um templo dedicado a São Benedito, em São Carlos do Pinhal isso começaria a se tornar realidade dois anos após a Lei Áurea.

Julio Salles, conhecido organizador de quermesses beneficentes reuniu a Irmandade de São Benedito e juntos resolveram construir uma capela em louvor ao santo. Por sugestão do devoto Domingos Marra, fariam melhor: construiriam logo uma igreja.

A Câmara Municipal atendeu a uma solicitação de João Xavier, o procurador da Irmandade, e aprovou em março de 1890 a doação de um terreno que servia de cemitério até 1872 e que fora desativado em função de localizar-se no centro da cidade.

O início da obra coroou uma luta que teve personagens marcantes, como o Tenente Vicente Cabral e Benedito José Gomes, o “Benedito de Monjolo”, que percorria as casas pedindo donativos para a construção.

Os trabalhos foram finalmente iniciados, mas por falta de recursos financeiros, não ultrapassaram a altura das janelas. Com grandes sacrifícios de uma nova comissão, presidida por Vicente Cabral, as obras tiveram continuidade e a igreja foi inaugurada em 1892.

No final do século XIX São Carlos receberia grande afluência de imigrantes europeus e árabes. Residências e lojas que se estabeleceram nos arredores passariam no século seguinte a consolidar na região um vigoroso centro comercial.

A capela nem bem havia sido concluída quando foi celebrada a primeira missa, após provisão concedida por Dom Joaquim Arcoverde, bispo de São Paulo. (Ainda não existia a Diocese de São Carlos - criada onze anos mais tarde).

O ajardinamento do “Largo de São Benedito” ocorreria na primeira década do século XX, trabalho executado por detentos recolhidos à Cadeia Pública, construída em 1900 no subsolo do predo do Fórum, no centro da cidade.

Ali, mesmo antes do ajardinamento do Largo a Irmandade se reunia para as celebrações do dia 13 de maio e de São Benedito, em 5 de outubro.

Em 1908 a criação da Diocese pelo Papa Pio X trouxe novo alento à religiosidade do povo. Em 1923 o primeiro bispo D. José Marcondes Homem de Mello, celebrou a ordenação sacerdotal do padre Ruy Serra – que exerceria papel preponderante para o desenvolvimento da igreja de São Benedito.

O jovem padre, nascido em Campinas, rezou missas na igreja a partir de 1928 e durante anos construiu uma relação de grande afeto com o templo e a comunidade. Na sucessão de D. José, em 1935, o bispo D. Gastão Liberal Pinto o nomeou Vigário Capitular.

A primeira igreja foi, porém, demolida em 1955para dar lugar a atual, inaugurada em 25 de dezembro do ano seguinte na abertura do 1º. Centenário de São Carlos.

Eleito bispo em 1948, D.Ruy – o terceiro a conduzir a Diocese – como era esperado, dedicou especial atenção à comunidade de São Benedito, oferecendo integral apoio à comissão liderada por Carmine Botta, Oscar Ferreira (cônsul honorário de Portugal) e Oscar de Barros - para a construção de um novo templo.

No período, o centro comercial da cidade se consolidava, assim como o emergente polo fabril de São Carlos, que conquistava a Universidade de São Paulo, feito capital para definir os rumos de seu futuro.

D. Rui Serra atribuiu ao padre Aldomiro Storniollo a condução da igreja de São Benedito, então Reitoria subordinada à Paróquia da Catedral.

Em 1978, D.Ruy e seu bispo coadjutor, D. Constantino Amstalden,  comunicaram a decisão de eleger a igreja de são Benedito como templo votivo do Santíssimo Sacramento da Diocese.

Outra comissão de obras, presidida por Valter Barros, empreendeu uma reforma importante no salão dos fundos para poder acomodar as irmãs do Santíssimo Sacramento que passaram a residir ali e proporcionar a possibilidade de hospedar caravanas de paróquias da Diocese em solenidades especiais. As obras em seguida estiveram sob a responsabilidade da professora Carminda Nogueira de Castro Ferreira.

Após o cônego Aldomiro Storniollo, esteve como reitor da igreja de são Benedito o padre Pedro Penedo Ferraz, durante 25 anos. No final dos anos 1980 assumiu a reitoria o padre Alberico Volpe, então vigário cooperador da Catedral.

A igreja de são Benedito é espaçosa e bonita. Um lugar agradável que comporta 700 pessoas sentadas e no seu interior mantém uma obra prima de arte religiosa portuguesa: a imagem de Nossa Senhora de Fátima em cedro, entalhada pelo famoso escultor José Ferreira Thedim, português de São Mamede do Coronado, que esculpiu a imagem exposta no Santuário de Fátima. Com licença especial do Papa, Thedim ouviu da irmã Lúcia a descrição da “Senhora mais brilhante que o sol” que lhe apareceu solicitando a recitação do rosário.A escultura foi doada à igreja em 1956 pelo vice-cônsul de Portugal, Oscar Ferreira e sua esposa Carminda de Castro Ferreira.

Durante 40 anos a igreja se manteve como Reitoria da Catedral até que em 29 de dezembro de 1996, por decisão do bispo D. Joviano Lima, consolidou-se a criação da Paróquia.

A história daquela igreja registra a existência, no passado, de diversas associações e irmandades, como a pioneira Irmandade de São Benedito, Cruzada eucarística, Arquiconfraria do Sagrado Coração de Maria, Ordem Terceira dos Frades Menores, Grupo de Jovens Discípulos de Emaús, entre outros.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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