Foto: Cecília Bastos/USP Imagens - Uma pesquisa publicada na revista britânica The Lancet Psychiatry, especializada na área da psiquiatria, identificou seis sintomas depressivos na meia-idade que podem estar associados a um maior risco de desenvolvimento de demência no futuro. O estudo reforça que a depressão não é uma condição única e homogênea, e que determinadas manifestações podem ter relação mais direta com o declínio cognitivo.
Os sintomas destacados são: perda de confiança em si mesmo, dificuldade de concentração, incapacidade de enfrentar problemas, falta de afeto pelos outros, nervosismo e tensão constantes e insatisfação com a forma como as tarefas são realizadas.
Segundo o psiquiatra Fernando Fernandes, do Programa de Transtornos Afetivos do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a relação entre depressão e risco de demência já é conhecida na literatura científica, tanto internacional quanto brasileira.
“O assunto não é novo. A associação entre depressão e risco de demência já está muito bem estabelecida. O que o estudo trouxe de novidade foi a identificação de sintomas específicos que parecem estar mais associados ao risco aumentado”, explica.
De acordo com o especialista, embora existam fatores não modificáveis, como a genética, a depressão está entre os fatores que podem ser prevenidos e tratados. “A detecção precoce da depressão e um tratamento adequado e incisivo podem reduzir em até 4,4% o risco de demência”, afirma.
Limitações e contexto
Fernandes ressalta que o estudo apresenta limitações, especialmente quanto ao diagnóstico dos casos de depressão, que foi feito com base em questionários, e não necessariamente seguindo todos os critérios clínicos formais.
Ele observa ainda que muitos dos sintomas citados podem estar relacionados a questões comuns no envelhecimento, como a perda de autonomia e o isolamento social. “A incapacidade de enfrentar problemas e a insatisfação com o próprio desempenho podem estar associadas à falta de autonomia da pessoa idosa. Já a ausência de afeto e o distanciamento têm forte relação com o isolamento social”, pontua.
O psiquiatra destaca a importância de preservar, sempre que possível, a autonomia dos mais velhos. Pequenas atitudes do dia a dia podem fazer diferença. “É fundamental manter certo nível de independência. Podemos ajudar, mas sem retirar totalmente a capacidade de decisão da pessoa”, afirma.
Ele também chama atenção para o isolamento social, que tende a se intensificar com o passar dos anos. “A família segue sua própria rotina, amizades se desfazem e o distanciamento acaba acontecendo. Mas isso pode e deve ser evitado com apoio e incentivo das pessoas ao redor.”
Tratamento e prevenção
Para prevenir o desenvolvimento da demência e tratar adequadamente a depressão, a orientação é buscar acompanhamento médico, especialmente com geriatras e psiquiatras. Caso não seja possível, o ideal é procurar a unidade de saúde mais próxima para encaminhamento adequado.
Fernandes explica que a depressão pode, inclusive, simular um quadro demencial — condição conhecida como “pseudodemência”. “A depressão apresenta sintomas cognitivos que podem se confundir com demência. Em pessoas mais velhas, isso é bastante comum e exige avaliação cuidadosa”, alerta.
Além do tratamento da depressão, o especialista reforça medidas preventivas ao longo da vida: evitar álcool e tabaco, controlar doenças como obesidade, diabetes e hipertensão, e manter o cérebro ativo com leitura e outras atividades cognitivas.
“São cuidados que impactam a saúde geral e também contribuem para reduzir o risco de demência no futuro”, conclui.
Por assessoria de imprensa USP





