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quarta, 05 de agosto de 2020
Resplandecente Alma

Relações Tóxicas e Dinâmicas Abusivas

26 Jun 2020 - 12h03Por Anaísa Mazari
Relações Tóxicas e Dinâmicas Abusivas -

As relações humanas em geral, desvelam em suas formas de acontecer, muito do que na verdade já existe dentro de nós mesmos. Os encontros relacionais podem ser considerados espelhos; nas interações, ganhamos a oportunidade de descobertas importantes acerca do nosso próprio mundo interno. O que cada relação desperta dentro de nós, dos pensamentos e sentimentos até as atitudes, podem sinalizar muitas questões emocionais em grande parte das vezes, ignoradas. Das questões emocionais mais promissoras para uma vida saudável até as causadoras de comportamentos e posturas na vida pouco contributivas para vínculos saudáveis, relacionar-se não deixa de ser um profundo mergulho dentro de nós mesmos. E torna-se essencial aautopercepção para que este mergulho seja mais uma oportunidade de crescimento e evolução.

O relacionamento tóxico tem características de ordem psicológica, sendo um pouco mais difícil de ser identificado em relação aos vínculos de fato abusivos, pela sutileza dos acontecimentos. Palavras, ironias, desqualificação, difamação pelas costas, tentativas de controle, ações depreciativas e manipulações, costumam ser as ações que concretizam esse tipo de relação. O relacionamento tóxico pode se tornar abusivo de fato quando envolve agressões verbais e físicas mais contundentes.Ambos envolvem o sentimento de culpa e desconforto, como se as vítimas fossem as causadoras dos conflitos que podem ser de ordem familiar, profissional, amorosa, de amizade etc. – o que faz parte do jogo de poder e manipulação que se instaura nesse tipo de relacionamento. Permitir as dinâmicas abusivas sem colocar limites necessários também contribui para sua intensificação e sempre que o tema é levantado, existe a tendência de uma compreensão estática acerca do que na realidade é uma dinâmica relacional. Só existem pessoas tóxicas relacionando-se dessa forma, porque as vítimas complementam essa relação. E esses papéis costumam ser analisados dentro de jogos de inocência e culpa – que inexistem se a compreensão partir da nossa função adulta. Sempre que a análise das situações de vida partir do adulto em nós, vamos chegar à nossa parcela de responsabilidade sobre as nossas experiências. Responsabilidade esta que é pressuposto primordial para impulsionar as reflexões e ações necessárias para as mudanças, muito diferente do sentimento de culpa que costuma ser paralisante e pouco construtivo. E para chegar à etapa de se responsabilizar, é muito importante um olhar compreensivo para as próprias questões emocionais e características para assim alcançar as transformações necessárias.

Ao longo da vida, principalmente nos primeiros anos de formação, diversas relações serão estabelecidas e os primeiros vínculos são os familiares. No âmbito familiar serão criadas as bases para os relacionamentos posteriores, sendo um aprendizado afetivo e cognitivo a construçãodas formas de sentirmos e nos comportarmos nos relacionamentos, que vão se ampliando com as mudanças de ciclo de vida. As características dos primeiros vínculos que serão com os pais ou cuidadores, dependerão de fatores como o momento familiar de nascimento da criança, ordem na posição dos irmãos, história de vida familiar anterior, o que os pais projetam na maternidade / paternidade,ancestralidade, para que (com qual finalidade) os pais tiveram filhos etc. É muito comum observar clinicamente que quando crianças, os adultos que atualmente integram tais dinâmicas relacionais abusivas, já vivenciaram abusos diversos desde os primórdios (desde os abusos emocionais até os físicos), assumiram lugares familiares disfuncionais, como “cuidadores” dos pais, ocupando o vazio do casal ou mesmo estiveram em atendimento às demandas afetivas dos adultos, algo que as crianças praticam inconscientemente buscando serem amadas e terem a atenção necessária bem como as gratificações por estarem nessas posições. Como pessoas tóxicas, colocam-se na posição de manipular e alcançar os objetivos de preenchimento afetivo que lhe faltaram, antes que possam se sentirmanipulados novamente, estando aparente a necessidade de controle e poder para se abastecerem afetivamente e para não estarem “do outro lado”. Já no caso das “vítimas”, permanecer nesse lugar traduz o significado da continuidade do afeto revestido de “amor” que já receberam nas fases infantis, ao mesmo tempo em que permanecem na fantasia infantil de serem amadas incondicionalmente se cumprirem o desejo do outro indiscriminadamente. Ou seja, revelam-se aqui também as crianças interiores em busca do amor dos pais que não foi suficiente ou saudável na infância, sendo necessárias as construções de novas formas de amar e obter amor saudável, formas essas ainda desconhecidas para quem permanece em dinâmicas abusivas.

Permanecer em relações tóxicas ou abusivas gera diversos desconfortos e sofrimentos – mantidos muitas vezes, para se evitar o enfrentamento do novo ciclo que pode se abrir se a dinâmica tóxica ou abusiva for desvelada, demandando desconstruções. Esse novo ciclo por vezes pode ser amedrontador – sobretudo se as buscas afetivas permanecem nos ideais infantis de satisfação, o que precisará ser redirecionado para a função adulta, através do autoconhecimento e autocuidado que sempre devem estar presentes para as mudanças ao longo da vida. Quando chegamos à consciência de que o cuidado da criança interior e de suas necessidades compete à nossa própria função adulta a ser desenvolvida, alcança-se também a força necessária para sair da passividade e impor os limites necessários para relacionamentos mais saudáveis.Perde-se o “encanto” para com a atração por vínculos tóxicos, pois na função adulta acontece o contato com a realidade e a desmistificação das fantasias infantis, já que grande parte da manutenção desses vínculos encontra-se associada aos ganhos secundários, aquelas gratificações emocionais em forma de migalhas afetivas e com elevado preço, das quais as crianças interiores se alimentam, distanciando-se da plenitude que somente o adulto, em contato com a realidade e seus desafios pode alcançar.

Autoconhecer-se e promover autocuidado, transformando relações tóxicas e abusivas ou saindo delas através de mudanças de postura são processos complexos, mas que trazem transformações necessárias e perfeitamente possíveis. Como celebremente escreveu Fernando Pessoa, poeta e escritor português (1888-1935): (...) “É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” E à margem, definitivamente não é o lugarpara quem se propõe, na função adulta, a protagonizar e a assumir a autoria de sua própria história no Sistema Vida. 

   

           

           

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