Menu
sexta, 22 de novembro de 2019
Artigo Antonio Fais

OKAIDÔ!

04 Mai 2019 - 07h00Por (*) Antonio Fais
OKAIDÔ! - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Dono de gado, lojas, fábricas, terras, prédios pelo Brasil afora, até no exterior, Cândido tornou-se um homem rico. Ninguém perguntava de onde vinham ele e o dinheiro, até porque, quando é muito, pouco importa de onde vêm.

Em Minas, onde mora, poucos sabem como enriqueceu e em São Paulo, onde tem os seus negócios, creiam-me, ninguém sabe que é rico!

Chegou a Uberlândia há cerca de dez anos, havia passado por vários lugares, ganhado e perdido dinheiro, quase sempre por causa de mulheres, pois quando não se tem muito, custa para tê-los, falo, nesta ordem, do dinheiro e das mulheres.

De família simples, pouco estudou. Começou a trabalhar cedo. Aprendia rápido e foi ajudar a consertar os tratores e carros na fazenda em que morava em Brodowsky. Todos gostavam do menino, principalmente os mais velhos, que adoravam seu ímpeto.

A vida na fazenda não durou muito, precisava de platéia e mudou-se, aos dezesseis anos, para Ribeirão Preto. Trabalhava como mecânico. Ganhava bem, mas gastava tudo.

Aos vinte, querendo pôr ordem na vida, casou-se, montou sua oficina, teve filhos e, como a mulher não o deixava gastar, ficaram bem de vida. Mas, como sempre seria seu futuro, sem querer me adiantar na história, com algum dinheiro, voltaram as mulheres. Separou-se, ficando pobres novamente.

Retomando, pois bem era verdade que trabalhava muito, com alguns sócios, montou outro negócio. Enriqueceu e, novamente, perdeu tudo, só desta vez por causa dos sócios e o contador. Percebeu haver mais formas de se perder dinheiro e que algumas, ao menos, por algum tempo, davam prazer!

Foi tentar a vida em Goiás. Montou uma oficina de tratores e, em troca de dívidas, conseguiu um trator, logo se tornando dono de uma terraplenagem que novamente o enriqueceu. Casou-se, mais filhos, mais dinheiro, mais mulheres, mais separações, mais problemas...como sempre foi e seria sua vida.

Com o único bem restante, um carro, mudou-se para Uberlândia; vendeu-o, comprou outro, vendeu, comprou outros e já tinha um comércio de carros. Porém, alguns negócios mal feitos e lá estava, novamente quebrado.

Assim chegou àquela noite que mudaria definitivamente sua vida.

Entrou na Igreja e sentiu-se confortado por haver mais desgraçados por aí. Tinha lá uma sopa que, se não muito consistente, nem muito quente, ao menos aquietava o estômago.

Falava um pastor, mas não lhe deu muita atenção. Lembrava-se da infância, da escola dominical, onde ouvia histórias do evangelho e aprendera a ler, que ainda, como veremos, serão de grande utilidade.

Foi ter com o Pastor. Não tinha a menor intenção de se converter, mas quem sabe arrumava um bico? Em uma conversa sincera, contou seu passado, pediu ajuda. O Pastor, profundo conhecedor do homem (e das mulheres também), percebeu a sinceridade e, principalmente, o potencial deste, capaz de convencer qualquer um de seus propósitos. Decidido a ajudá-lo, disse:

- Deus escreve certo por linhas tortas. Ele o mandou a mim para, juntos, salvarmos almas pecadoras. O trabalho que vou lhe dar é de extrema importância e não pode ser confiado a qualquer um. Você tem que prometer ser fiel apenas a mim e, por consequência, a Deus.

- Eu prometo – prometeria qualquer coisa.

- Pode viajar hoje comigo?

- Posso.

- Você será meu caidor.

Caidô? – Disse sem obter resposta.

Sem pegar nenhum pertence, seguiu de avião a São Paulo, lugar mais seguro para principiantes desta profissão. Foi instruído durante a viagem sobre o trabalho. Lá também tomou sua primeira refeição decente depois de dias: o café da manhã de um hotel cinco estrelas! Foram-se aí as dúvidas se seria ou não capaz de exercer tal papel: caidô.

No monumental templo da Igreja, lotado, depois de uma hora de pregação, entra Cândido, gritando, blasfemando, possuído, até que o Pastor acerta o endemoniado e ele cai... como ninguém! Foi de cidade em cidade, após esse dia, o melhor caidor que apareceu. Foi o que lhe valeu o apelido, em cada novo lugar que chegava: O Caidô!

Assim, tornou-se o caidor preferido de todos os pastores. Viajou país afora, conhecendo todos na igreja, seus hábitos, as pregações, até ser promovido a Pastor e mudar-se para Campinas, uma boa praça, cheia de boas almas, dispostas a trocar o pouco dinheiro por muita esperança.

Seguiu assim a rotina de todos os pastores, ao menos aqueles que dão certo: Corcel II e templo alugado, Monza e templo próprio.

Lá levava uma vida simples e regrada, auxiliado por bons fiéis, que traziam outros tantos e, como sempre, algumas moças que faziam questão de manter o templo e casa do Pastor Cândido arrumada, além de não deixar que ele passasse, digamos, necessidades.

O grosso do dinheiro voltava para Uberlândia. Primeiro umas terrinhas; uns boizinhos; um predinho, inteiramente vendido; outro; uma construtora; e, finalmente, uma holding que centralizava todos os negócios, a qual, ironicamente, chamou de Okaidô!, hoje sua marca registrada.

(*) O autor é Escritor e Filósofo

comments powered by Disqus

Leia Também

Últimas Notícias