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sábado, 19 de setembro de 2020
Memória São-carlense

O Grande Hotel que se tornou Paço Municipal

06 Jul 2018 - 06h07Por (*) Cirilo Braga
O Grande Hotel que se tornou Paço Municipal - Crédito: Arquivo Histórico Crédito: Arquivo Histórico

Quando nos anos 1970 eu me juntava a um punhado de torcedores que se aglomeravam diante do Hotel Vila Rica para ver craques de futebol acenando da janela, eu ainda não conhecia a história daquele prédio, nem mesmo sabia que aquele havia sido um dos primeiros edifícios de porte construídos na cidade.

Os jogadores dos grandes clubes da capital, concentrados para jogos contra a Ferroviária em Araraquara, costumavam tornar sempre festiva a passagem por São Carlos, de modo que ali era o lugar para ver de perto nossos astros dos jogos de botão.

Só mais tarde seria possível saber que tão ilustre quanto aqueles futebolistas havia sido o prédio do hotel, nascido como o Grande Hotel Municipal, construído durante oito anos, entre 1954 e 1962, quando foi inaugurado.

Contemporâneo dele foi o atual edifício Conde do Pinhal, na rua Major José Inácio ao lado da praça coronel Salles, inaugurado em 1961 para sediar escritórios e a agencia do Banco de São Paulo S.A.

“O edifício do Grande Hotel Municipal e toda a trajetória de sua construção, entre a década de 50 e 60, representam um momento importante da história de São Carlos”, atesta o trabalho  dos professores Renato Anelli e Aline Coelho Sanches, intitulado “A flexibilidade da planta livre moderna para novos usos: transformando o Grande Hotel de São Carlos em Paço Municipal”, de 2005 quando o prédio foi adquirido pela Prefeitura Municipal de São Carlos para ser o Edifício Sesquicentenário, sede do governo da cidade.

MOMENTO HISTÓRICO

A construção do Grande Hotel envolveu o poder público e a comunidade ? principalmente industriais e empreendedores imobiliários ? para dotar São Carlos de um hotel à altura do potencial da emergente cidade que recebera a Universidade de São Paulo em 1953 e se modernizava com a instalação de novas indústrias.

O ano da inauguração, 1962, foi emblemático. Se ao mesmo tempo terminava o contrato de concessão do serviço de bondes, a cidade ganhava a primeira torre de transmissão de TV, com empenho das Indústrias Pereira Lopes. Era possível ver a Copa do Mundo em que Garrincha ganhou o bicampeonato no Chile.

Não apenas aquele foi um belo capítulo para a cidade, como a edificação se mostrou também importante para a arquitetura. Lançou-se um concurso para que fossem apresentados anteprojetos para a obra, saindo-se vencedor o arquiteto polonês Lucjan Korngold (1897-1963). No ano seguinte, o jornal “Correio de São Carlos” noticiou a constituição de uma sociedade liderada pela diretoria regional do CIESP, para a construção e exploração de um grande hotel. Uma comissão integrada por políticos e empresários foi então composta para coordenar a empreitada.

LOCALIZAÇÃO

Depois de estudos sobre o local ideal, no coração da cidade, com a opinião pública empolgada – e até a fake news de que o hotel poderia ser construído numa das praças centrais – finalmente uma sociedade se constituiu com centenas de acionistas, entre os quais o Consórcio Brasileiro de Investimentos S/A (CBI), responsável por vários edifícios altos em São Paulo. Bateu-se o martelo sobre a escolha do local, a rua Episcopal, esquina com rua Major José Inácio, onde a pedra fundamental foi lançada em 1953.

As obras do Hotel propriamente foram iniciadas em 18 de março de 1954. A construtora escolhida foi o Escritório de Engenharia Joaquim Procópio de Araújo e a direção dos trabalhos de construção ficou a cargo de Amadeu Biagioni Filho.

Em seu trabalho de pesquisa, a professora Aline Coelho Sanches verificou que o início das construções foi lento, pois o arquiteto Korngold refez as plantas cerca de cinco vezes para acertar diversos detalhes.

Após cerca de um ano a edificação chegava a seu último pavimento e era naquele momento o prédio mais alto da cidade.

Em 1956 foi aprovada pela Câmara uma lei que reforçou a destinação de recursos para a finalização da obra e, dois anos depois, com o mesmo objetivo o município obteve um empréstimo junto à Caixa Econômica Federal.

INAUGURAÇÃO E IMPRENSA

As obras, no entanto, só se encerrariam em 1962, quando o prédio do Grande Hotel Municipal foi finalmente inaugurado. O hotel começou a funcionar no final de setembro daquele ano, arrendado para a rede de hotéis Ferrareto S.A., que em se staff reuniu profissionais com passagens por importantes estabelecimentos do país. Coube ao então prefeito de Milão, Gino Cassinis, em visita à cidade e suas fábricas, a honra de ser o primeiro hóspede ilustre do local.

Vale dizer que Joaquim Procópio de Araújo, o engenheiro responsável pela construção, natural de São Paulo, era neto de Bento Carlos de Arruda Botelho e sobrinho do Conde do Pinhal. Em São Carlos, ele construiu o também o já citado edifício do antigo Banco de São Paulo S/A, na rua Major José Inácio.

Em clima de euforia, a imprensa local – que tivera participação ativa na campanha para a construção do prédio – deu ampla cobertura à inauguração, cabendo ao jornal “Correio de São Carlos” adicionar um toque folclórico ao omitir a letra “é” na manchete que anunciava em letras garrafais: “INAUGURADO PRIMEIRO ARRANHA-CÉU DE SÃO CARLOS”.

A falha ocorrera na composição da matéria no jornal tipográfico. Após uma caça às bruxas na redação e oficinas, verificou-se que a tecla “é” da linotipo estava com defeito e a letra não apareceu na palavra céu. Para completar, o distraído revisor não percebeu o erro a tempo de impedir a trágica circulação da manchete com a expressão “arranha-cu”. A partir de então, a cada edifício de apartamentos inaugurado na cidade, os jornalistas relembravam o caso que se tornou um clássico do anedotário da imprensa são-carlense.

REFORMAS DO EDIFÍCIO

Ao longo dos anos o Grande Hotel sofreu várias modificações: em 1970 passou ao controle do grupo Vila Rica, que realizou reformas projetadas pelo arquiteto Luiz Gastão de Castro Lima. No final da década de 1980, administrado pela família Azouri, recebeu novas intervenções. E em 2004, adquirido pela Prefeitura Municipal, passou por um processo de adaptação e de recuperação de algumas características originais para sediar o novo Paço Municipal, que recebeu o nome de Edifício Sesquicentenário, em alusão à comemoração dos 150 anos de fundação do município em 2007, ano em que a Prefeitura se instalou.

Em 2008 foram inaugurados no Paço a Galeria dos Prefeitos "Antonio Massei", a Sala de Imprensa “Geraldo Eugênio Toledo Piza” e o Auditório “Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior”. Em 2013 foi inaugurado no saguão de entrada um busto do ex-deputado federal Ernesto Pereira Lopes (1905-1993).

ALGUNS FATOS

Em 1965 o Hotel Ferrareto empregou Dorival Mazola Penteado, que viria ser diretor de escola e presidente da Câmara. Aos 18 anos, Mazola aprendeu a dirigir automóvel ao exercer a função de manobrista do hotel. Anos depois se lançaria ao empreendimento de sua autoescola.

Nos anos 1970, já sob a administração do Grupo Vila Rica, além das delegações de clubes de futebol, o hotel era pródigo em receber celebridades em visita à cidade, tanto do meio político quando do meio artístico. O “Rei” Roberto Carlos nas vezes em que esteve na cidade no auge da carreira concedeu entrevistas no hall do hotel. E Paulo Maluf, quando governador em 1980 ali inaugurou os sistemas de telefonia DDD (Discagem Direta a Distância) e DDI (Discagem Direta Internacional). Alvo de uma ruidosa manifestação de estudantes do Caaso, Maluf teve problemas na saída do prédio e, mesmo com a costumeira intervenção da tropa de choque da Polícia Militar vinda de Araraquara, acabou permanecendo no hotel por mais tempo do que a sua agenda previa.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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