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sexta, 25 de setembro de 2020
Memória São-carlense

Nelsão Rodrigues e a Cantina Rodavinho

07 Set 2018 - 07h10Por (*) Cirilo Braga
Nelsão Rodrigues e a Cantina Rodavinho - Crédito: Arquivo/Rosa Bonfá Rodrigues Crédito: Arquivo/Rosa Bonfá Rodrigues

O dia 10 de setembro de 1977 foi uma data marcante para a gastronomia são-carlense, o dia em que Nelson Antonio de Araújo Rodrigues (Nelsão) e a sogra Josefina Zanin Bonfá (Dona Pina), inauguraram a Cantina Rodavinho que marcou época, localizado na rua Major José Inácio, esquina com rua Ruy Barbosa.

Alguns dias antes, o cronista social Aduar Dibo em sua prestigiada “Coluna do Adu”, no extinto jornal “O Diário”, informava sobre os preparativos para a abertura da casa e já antecipava: “Ali haverá todas as variedades de massas e diversos tipos de churrasco. Vai ser sucesso na certa!”

A previsão do êxito se confirmou assim que a Cantina Rodavinho abriu as portas, tornando-se uma referência na cidade em boa gastronomia e “serviço impecável, como encontrado nos melhores restaurantes do Brasil”, tal qual Adu concluiria um ano mais tarde, no aniversário do restaurante.

A Cantina Rodavinho adicionava aos primorosos pratos (canelone, lasanha e picanha gaúcha eram os preferidos pelos clientes), um atendimento esmerado, que logo conquistou os são-carlenses, sendo também a o restaurante predileto dos professores da Faculdade de Direito, na época vivendo seu auge.

A Cantina Rodavinho que ficou na lembrança de uma legião de apreciadores da boa comida, funcionava até a madrugada e frequentemente, para deleite dos clientes, proporcionava shows de Nelson ao piano, brindando os presentes com memoráveis sessões de jazz, sua paixão.

No “backstage”, a cozinheira-chefe Maria Constancia contava 25 anos de experiência na função. Os garçons eram Juarez da Silva, Dirceu Romero, Mercil Mocetelli e Jose Paes de Toledo. No caixa trabalhava o jovem João Batista Pio, recém-chegado de Buritama e que logo se associou a Nelson e em novembro de 1980, formado em Administração de Empresas, inaugurou o restaurante Roda Chopp.

Fazendo jus ao nome, a Cantina reunia uma grande quantidade de vinhos nacionais e importados e já no primeiro ano era prestigiada por pessoas da sociedade que escolhiam a casa para a realização de festas e comemorações diversas. Se alguma dúvida houvesse sobre o local a ser escolhido para tais eventos, bastaria ter como referência a qualidade indicada na avaliação do Guia 4 Rodas.

De saída, conforme se noticiou na época, mais de 4 mil refeições mensais eram servidas na Rodavinho, movimento que levou à ampliação das instalações em 1978, quando na abertura no dia 4 de novembro, após a reforma, o restaurante passava a ter capacidade para receber 180 pessoas bem instaladas.

O entusiasmo do proprietário – que gostava de organizar festas, reunir amigos e preparar pratos apreciadíssimos – certamente foi o maior e inigualável segredo da Cantina Rodavinho.

Habituê da casa, o cronista Aduar Dibo atestava em sua coluna o clima de alegria que caracterizava o ambiente: “Nelson desenvolve um ótimo trabalho com toda a simpatia que Deus lhe deu e a magia de sua interpretação ao piano que cativa seus clientes”, observava. A cada nova “jam-session”, de fato a Cantina Rodavinho parecia estar sendo reinaugurada. Assim como impressionava os convivas, a constatação de que em sua versão “restaurateur”, “Nelsão” reproduzia em seu negócio a mesma atmosfera de descontração e carinho do convívio entre amigos próximos.

“Todas as qualidades dele estiveram presentes nos anos em que dirigiu o Restaurante Rodavinho”, atestou o amigo Antonio Carlos Vilela Braga, dias depois do falecimento de Nelson em 2011.  Citando a magistral execução que Nelson fazia ao piano, do tema de Bill Evans - “What are you doing the rest of your life?” -  Vilela Braga lembrou que o amigo levou para a Rodavinho “sua música maravilhosa e contagiante, e recebeu músicos de escol, ou iniciantes da música - tratando a todos com humildade e gentileza exemplares; foi autenticamente ele: cordial, generoso, receptivo, amigo”.

No dia 24 de junho de 2011, aqueles anos já estavam distantes quando o jornal “Folha de S.Paulo” publicou o necrológio de Nelson Antonio de Araújo Rodrigues, que falecera no dia 11 daquele mês, aos 68 anos, vítima de um câncer de pâncreas. Deixava a esposa Rosa, três filhos, sete netos e uma legião imensa de amigos e admiradores. (Ainda naquele ano, a Lei Municipal No.15.897 dedicou seu nome a uma rua no bairro Jardim Santa Julia, próximo ao Jardim Bandeirantes).

“O professor de natação, sua cantina e seu piano”, titulava a nota da “Folha”, iniciada com a informação de que Nelson recebeu em 2006 das mãos do prefeito o prêmio pela conquista do 1º Festival do Cordeiro de São Carlos, apontado como o melhor nos critérios "maciez da carne, paladar e apresentação do prato".

O jornalista Estevão Bertoni, na nota publicada em 2011, discorreu sobre o “são-carlense de nascença que se enveredou para a gastronomia em 1977, ao abrir a cantina Rodavinho e após o fechamento do negócio, continuou no ramo com um bufê e uma cozinha industrial, tocados pela família”.

Desde 1971, Nelson era formado em educação física. Assim que concluiu a faculdade, começou a dar aulas de natação. Tinha, no início, um projeto itinerante: montava grupos de alunos em piscinas municipais, casas ou clubes. Culminou na abertura de uma escola, a Aquário.

Quando decidiu montar o restaurante, passou a escola para o irmão, também formado em educação física. Neto de uma professora de piano, Nelson desde cedo tocava de ouvido piano e teclado. Quando jovem, teve um grupo que se apresentava no norte do Paraná e em Santos. Foi ainda instrutor de fanfarras e fundou um coral.

Rosa, a esposa, relatou ao jornal que ele era brincalhão e um pouco explosivo, de falar as coisas na lata. Como gostava de correr, participou de quatro meias-maratonas e duas maratonas completas no Rio de Janeiro.

Mais de quatro décadas depois da incursão do professor, esportista e amante da música no ramo da gastronomia – numa São Carlos que era ainda uma cidade predominantemente industrial – permanece a lição ou, melhor dizendo, o ensinamento de Nelsão: em tudo o que se faz com paixão haverá sempre o melhor de cada um; refletirá seu espírito e seus feitos ficarão guardados com saudade na lembrança das outras pessoas.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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