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sexta, 28 de fevereiro de 2020
Memória São-carlense

Leopoldo Prado projetou área de lazer e esportes náuticos para baixada do mercado

10 Jan 2020 - 07h10Por (*) Cirilo Braga
Leopoldo Prado projetou área de lazer e esportes náuticos para baixada do mercado - Crédito: Acervo FPMSC Crédito: Acervo FPMSC

Neste início de 2020, se houvesse uma máquina do tempo como a De Lorean de Doutor Brown do filme “De Volta para o Futuro”, seria possível viajar até o ano de 1913 e desembarcar na região do mercado municipal de São Carlos. Ali, às margens do córrego do Gregório e imediações, encontraríamos o Coronel Leopoldo Prado. Como um Marty McFly do século 21, poderíamos dar apoio a um projeto audacioso do coronel e avisar que ele estava muito certo.

Leopoldo Prado pretendia realizar a urbanização das duas quadras vizinhas ao antigo mercado. Mais que isso: construir no local um grande lago com equipamentos de lazer para esportes náuticos, clube de natação e regatas, pavilhão, salão de danças, bar, ajardinamento, arborização da área etc.

As condições eram vantajosas para o Município. Os investimentos seriam por conta exclusiva do Coronel, orçados em 30 contos de reis. A contrapartida seria a exploração comercial das instalações por 30 anos.

Os administradores públicos da época negaram o pedido e, aborrecido, Leopoldo Prado retirou-se para Botucatu, onde faleceu em 1941, aos 82 anos. Em São Carlos não deixou sequer um retrato nos anais da história e dele só se voltou a falar em 1948, quando seu nome foi dado à Travessa 12 da Vila Prado.

A menção ao fato está numa crônica do historiador Antonio Carlos Vilela Braga (1940-2014), publicada em 2007. Vilela Braga entendia que em seu tempo o Coronel propusera ao município uma autêntica Parceria Público Privada.

“Foi uma pena. A cidade estaria mais bonita e a área melhor utilizada”, comentou o articulista. Leopoldo Prado - fazendeiro empresário, vereador, delegado e membro da Guarda Nacional - foi o empreendedor da Vila Prado (em 1893), tem seu nome ligado a muitos empreendimentos e à política de São Carlos, no período de 1890 a 1915.

Rio-clarense, transferiu-se para São Carlos por volta de 1885. Foi político, fazendeiro empresário, vereador, delegado e membro da Guarda Nacional. Foi também proprietário da primeira linha de bondes da cidade, inaugurada em 1895, que funcionou por pouco tempo.  Epidemias de febre amarela em 1896 e 1898 provocaram um êxodo dos moradores da cidade para a zona rural e o negócio não prosperou.

A proposta que apresentou em 1913, quando tudo estava por fazer na região ribeirinha ao córrego que corta a região central da cidade, era inédita e avançada para sua época. Aquele foi um ponto crucial na história do crescimento urbano de São Carlos, uma esquina que a cidade dobrou sem retorno. Os governantes locais, que não queriam colocar azeitona na empada do Coronel vindo de outra cidade, não imaginavam que aquele era o momento adequado para evitar as futuras inundações que atravessariam o século 20 e adentrariam o século 21 atormentando várias gerações de são-carlenses.

Desnecessário dizer que com a abertura de um grande lago naquele ponto, tal qual Leopoldo Prado sonhava, não permitiria que especuladores construíssem imóveis sobre o córrego – como acabou acontecendo - e aquele curso de água não necessitaria ser canalizado, como foi, 60 anos mais tarde. As atividades de lazer naquele trecho, como o empreendedor sugeria era tão viável que na região marcou época a piscina municipal, mais tarde desativada sem deixar vestígios. O que seria festejado como obra viária importante para a cidade nos anos 1970 – a construção das avenidas marginais - pela proximidade dos córregos, também se mostrou imprevidente.

Não é de se estranhar, que ainda no século 19, o córrego do Gregório “por muitos anos foi um empecilho para a expansão urbana” – como notava o historiador Ary Pinto das Neves. Lidar com ele e com os outros córregos que cortam a zona urbana sempre foi um desafio para os governos de São Carlos.

Se o Gregório “murmura em surdina uma prece mimosa” aos pés da cidade, como diz o hino de São Carlos – que também maltratou o pobre – mais em surdina ainda vive um de seus afluentes, o córrego Simeão. O nome emprestado da figura bíblica que primeiro reconheceu Cristo como o Messias, batiza o riacho que corre incógnito sob as casas da rua Episcopal. Coisas de tempos em que canalizar foi preciso, viver não foi preciso.

E dá-lhe retificação, alargamento, pontes novas, galerias, projetos. A maior de todas as enchentes – dizem os moradores mais antigos – ocorreu já nos anos 1950, na gestão do prefeito Luis Augusto de Oliveira, numa época em que o Gregório “pareceu um oceano”, pois todos os caminhos das águas na cidade - construída sobre três colinas - levavam até ele.

Ouvi certa vez de um engenheiro o diagnóstico de que o panorama só mudaria caso fossem retirados todos os obstáculos para que as águas rolassem. Autoridades de um determinado período pensaram na construção de uma imensa galeria sob a rua 13 de Maio. Seria um rio subterrâneo que pouparia o Gregório. Ou um piscinão lá pelo lado da chaminé. Sugeriu-se também construir barragens, equacionar a passagem da ferrovia e investir na microdrenagem – a cidade não tem galerias e bueiros que suportam uma chuva.

Os programas antienchentes se sucederam; a cidade deixou de ter ruas de paralelepípedos, ganhou asfalto, a via marginal se estendeu às suas margens e ao longo do tempo até o Cristo decidiu fazer um rasante no local onde o córrego do Gregório encontra o Monjolinho. Em forma de estátua, é bem verdade. Mas não deixou de ter simbolismo a figura do Cristo de braços abertos ali onde o Gregório deságua. Rezemos para que algum dia uma solução definitiva apareça. Elas são sugeridas no Plano Diretor com diretrizes para prevenção e controle de enchentes. Mas as obras são onerosas e de soluções pontuais.

A falta de um planejamento prédio da urbanização em áreas de risco, como a baixada do mercado, condena a cidade a enfrentar os danos provocados pelas chuvas intensas, comuns no verão. Nos últimos anos, uma rápida pesquisa em sites de busca na internet permite observar imagens de estragos provocados pela implacável frequência das inundações.

Nessas imagens, o lago pretendido pelo Coronel Leopoldo Prado aparece muitas vezes, mas nele não há esportes náuticos, clube de natação e regatas, mas muitas perdas materiais.

Se houvesse neste início de 2020 uma máquina do tempo como a De Lorean de Doutor Brown e pudéssemos viajar para o futuro, talvez lá nos contassem qual será a solução definitiva.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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