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domingo, 20 de junho de 2021
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Artigo Tati Zanon: O dilúvio dos falsos prazeres

15 Out 2015 - 15h51Por Tati Zanon
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Como estar à prova de insultos, julgamentos e relações profundas? Se todos os dias, com cada vez mais força, você se interessa pela resposta dessa pergunta, seja bem-vindo ao mundo on-line.

Nele, as relações são superficiais, e você pode fugir de tudo que lhe atormenta. Pode também fazer o papel do executivo bem-sucedido, da mãe dedicada e do filho exemplar, tudo isso sem trabalhar muito, cuidar bem de suas crias ou estudar para as provas da faculdade. Na era em que "tempo é dinheiro" e a vida é curta, o contato não existe de nenhuma forma mais próxima. Nem mesmo olhares precisam ser trocados...

Por que sermos reles mortais off-line em vez de sermos heróis on-line? Neste último mundo, podemos voar e celebrar nossa virtualidade, passeando pelos países mais distantes do globo sem ter que sair de casa e sem se dar ao trabalho de arrumar companhias.

Viver off-line, entretanto, é ter que enfrentar nossos medos, nossas paixões e lutar por uma vida melhor e mais digna. Por outro lado, nada disso é preciso quando temos possibilidade on-line em mãos. Graças à tecnologia, podemos fugir das conversar indesejáveis, esquecer dos males que rodeiam a humanidade e, consequentemente, não empenhar-se para resolvê-los: basta somente um compartilhamento para isso. Bastam postagens ou compartilhamentos bem intencionados para termos a consciência leve e a sensação de estarmos salvando o planeta. O contato, com o qual sempre tivemos a obrigação de lidar durante toda vida, já não se faz mais necessário. Transformamos pessoas em "spams" ou apertamos "delete" quando alguém não mais nos apraz.

A tecnologia e seu contínuo aprimoramento fundam-se na filosofia de tornar nossas vidas mais fáceis. O problema é quando usurpamos o significado de facilidade, trocando-o por superficialidade e inação; quando "coisificamos" pessoas e humanizamos objetos.

Mas, a partir do momento em que refletirmos sobre o quão prejudicial pode ser essa "coisificação", não mais transformaremos cartões de aniversários em mensagens de texto, aulas de aeróbica em jogos de Playstation, e a vida social não mais se resumirá ao Facebook.

A tecnologia está aí para ser usada e abusada, mas é muito importante que tenhamos discernimento para saber como usufruir dela, e não transformá-la num dilúvio de prazeres fúteis. Fazendo papel de coadjuvante em nossas vidas, pode ser que o avanço tecnológico, de fato, traga as facilidades que almejamos. E, ainda assim, sobrará espaço para sermos sinceros e profundos; sobrará espaço para continuarmos a ser... humanos.

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