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sábado, 10 de abril de 2021
Artigo Rui Sintra

A marca da vergonha

13 Mar 2021 - 07h00Por (*) Rui Sintra
A marca da vergonha -

A recente notícia veiculada pela CNN Brasil de que moradores da cidade de Nova Granada (SP), suspeitos de terem contraído Covid, estão sendo obrigados, por decreto municipal, a usar pulseiras coloridas, por forma a identificá-los publicamente, é, para mim, o cenário mais tenebroso e vil que já assisti durante esta pandemia - e talvez ao longo de minha carreira de jornalista.

Com uma população estimada em cerca de 23 mil pessoas, com 38 óbitos registrados desde o início da pandemia e 1.748 infetados, sem possuir leitos para internação (a estrutura mais próxima fica a 35 Km de distância - São José do Rio Preto), a prefeita da cidade - Tânia Yugar (PSB-SP) - não teve dúvidas em criar uma solução verdadeiramente infeliz, no meu ponto de vista inqualificável. Justificando que a prefeitura estava recebendo denúncias de que pessoas contaminadas com Covid estariam frequentando lugares públicos, a citada prefeita considerou que não tinha outra alternativa senão introduzir o método mais hediondo que se pode imaginar - identificar as pessoas de forma pública com pulseiras coloridas. Segundo a CNN Brasil, “ao procurar atendimento com sintomas da doença, o cidadão de Nova Granada recebe uma pulseira de cor amarela, que pode ser substituída por uma da cor vermelha caso o teste laboratorial comprove a infecção”. Neste caso, a descriminação é patente, bem como a inexplicável exposição pública das pessoas envolvidas, sendo que em certa medida esta atitude do poder público da cidade nos recorda os mais tenebrosos acontecimentos datados de novembro de 1938, na Alemanha Nazista, quando Reinhard Heydrich, chefe do Departamento Central de Segurança do Reich decidiu, após a “Noite dos Cristais”, que todos os judeus deveriam usar uma estrela amarela por forma a identificá-los publicamente: o resultado foi o Shoá. E, mesmo que por momentos eu não queira recordar esses acontecimentos tenebrosos de uma Alemanha nazi devidamente mencionada e sublinhada na história mundial contemporânea, esta medida da prefeitura de Nova Granada também me remete aos ranchos do Texas (EUA), onde os fazendeiros colocam nas orelhas do gado etiquetas coloridas identificando quais as rezes que são sadias e fortes (para comércio) e quais as mais fracas (para abate e consumo interno).

Seja de que forma for, o que temos assistido nesta epidemia, principalmente aqui no Brasil, são centenas de episódios protagonizados pelos políticos de plantão - prefeitos e governadores exemplarmente comandados por Brasília - que se dão ao luxo de implementar medidas “avulso”, muitas delas - como esta que exemplifico hoje - sem qualquer cabimento ou justificativa plausível. O caos está instalado em todos os setores nacionais, para nosso próprio desespero, e não tem OMS que nos acuda.

(*) O autor é Jornalista profissional / Membro da GNS Press Association (Alemanha) / Correspondente internacional freelancer. MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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