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quinta, 18 de abril de 2019
Memória São-carlense

Um iluminado morador da Rua Conde do Pinhal

05 Abr 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Um iluminado morador da Rua Conde do Pinhal - Crédito: Cirilo Braga Crédito: Cirilo Braga

O casarão da rua Conde do Pinhal, número 2486, na esquina com a rua São Paulo, hoje vazio e aparentemente em ruínas abrigou no passado uma figura humana muito especial a quem visitei muitas vezes e que me impressionava pela fé e por haver passado quase toda a vida em oração.

Chamou-se Antonio. Antonio Campos Penteado era cego e me deu o privilégio de uma entrevista, publicada em texto corrido num jornal que comemorava o aniversário da cidade em 1983. “A luz da fé, um exemplo de vida”, foi o título.

Então com 76 anos e vivendo no casarão ao lado dos irmãos também cegos Marina e José Mário, sob os cuidados de uma sobrinha, “seu” Antonio jamais sairia da minha lembrança. Meu pai era amigo da família que conheceu por intermédio das irmãs Sacramentinas antes mesmo de virmos morar em São Carlos. Visitar os “ceguinhos” no princípio da minha adolescência era como visitar um santuário.

Havia sempre o ritual de esperar que ele chegasse vagarosamente, tateando paredes de um corredor, até que o corpo frágil e envergado se acomodasse numa cadeira ao centro da sala principal – cenário que incluía retratos de família ao lado de imagens de Jesus e Santa Terezinha e um crucifixo sobre a mesa.

Havia 45 anos que perdera a visão por completo. Fizera o curso primário no Grupo Escolar Coronel Paulino Carlos e logo em seguida, seu pai o matriculou para cursar o ginásio no colégio Diocesano. Na época o bispo era dom José Marcondes e o Diocesano tinha com professores seis padres portugueses. Aos 15 anos a sua visão como ocorria desde que nascera, prosseguia se debilitando gradativamente.

“Comparo minha vista com o sol da tarde; ele vai acabando, acabando até que se esconde e a terá entra na noite. Assim fui eu: não senti nada e a vista foi acabando”.

Um dia, na saída da aula de Francês no Diocesano, o padre José de Castro, homem de muita cultura, pegou-o pelo braço e começou a falar de sua vista. Diante da esperança de ter a visão corrigida seu pai o levou a Campinas a um especialista, o Dr. Penido Burnier, que confirmou a doença degenerativa do nervo ótico. Caso raro, mas que no veredito do médico não tinha ligação com o fato de seu pai ser tio de sua mãe.

Ambicionava ser engenheiro agrônomo, estudar em Piracicaba, trabalhar na terra o resto da vida. “Nasci para a terra, não queria nunca deixar a fazenda de meu pai”.

Na volta da consulta em Campinas, o pai apenas lhe disse que não se intrometeria em sua vida e que poderia continuar estudando se quisesse.  “Foi a maior tristeza da minha vida ali naquele vagão de trem. Compreendi bem o que ele quis dizer. Mas lamento que naquela hora não tive o raciocínio que deveria ter para compreender que existe um irmão e salvador, o Cristo Redentor. Por vontade de Deus eu nasci assim. Ele me reservou um outro serviço, que não aquele de trabalhar na terra”.

O pai de seu Antonio, João Manoel Campos Penteado, era campineiro: “Ele montou num cavalo e em três dias estava aqui. Quando chegou não havia nada, era só sertão”. Homem de posse, mais tarde Juiz de Paz, João Manoel pensou em montar uma casa de ferragens mas desistiu da ideia, preferindo comprar a fazenda São José, na divisa de São Carlos com Araraquara. Casou-se duas vezes e com a segunda mulher, a sobrinha Maria Escolástica de Campos Camargo, filha de seu irmão, teve dez filhos - quatro homens e seis mulheres. Cinco deles nasceram com problemas na visão: Antonio, José Mário, Marina, Maria Elisa e Ana.

Quando interrompeu os estudos no primeiro ano do ginásio, seu Antonio foi morar na fazenda embora sua mãe insistisse para que continuasse estudando. Ele bem que queria, mas a visão que piorava não permitia. E isso chegava a revoltá-lo. Como Deus poderia fazer vir ao mundo uma pessoa que não enxerga?

Na fazenda viveu até os 30 anos, quando a vista desapareceu definitivamente. Sua mãe ainda vivia, mas o pai morrera alguns anos antes. Logo voltou à cidade para não mais sair do casarão da rua Conde do Pinhal, onde estabeleceu um elo vigoroso com Deus, uma relação tão inexplicável como exemplar e comovente: “Aqui de casa eu via o sacrário na Catedral. Jesus está vivo. Daqui eu pedia para que ele desse um jeito na minha vida, e só ele podia dar.”

Seu Antonio lembrava-se bem que no ano de 1944 viram a São Carlos as santas missões que fizeram várias pregações por aqui. Certo dia, ainda inconformado com seu destino, de seu quarto conseguiu ouvir perfeitamente a homilia de um missionário que citava trechos da Bíblia. E não havia rádio na casa. “Era Jesus falando comigo na voz daquele padre”. Foi sua conversão.

“Compreendi que eu não era deste mundo, mas do céu. Então me sentei na beira da cama e ouvi o que Jesus disse: De que adianta um homem ganhar o mundo se vier perder a sua alma? Ajoelhei-me no chão e daquele momento em diante, com toda sinceridade digo: sou feliz porque sou cego, não quero enxergar. Jesus me deu como viver (referindo se a pensões deixadas por seus familiares e aos irmãos cegos); agora tenho vontade apenas de ver uma só coisa: a lua cheia que eu achava uma beleza, uma maravilha. Na fazenda eu ficava na janela olhando a lua cheia”.

Depois daquele dia em que ouviu o missionário passou a rezar o terço em seu quarto, “louco com vergonha de ser puxado pelos outros”. Recebeu em casa a comunhão numa Páscoa e mandou fazer um terno para ir à igreja, levado por um amigo. Foi participar de uma missa em ação de graças mandada celebrar por uma prima, que era madre superiora na ordem das freiras que na época trabalhavam na Santa Casa.

Na época da entrevista, seu Antonio rezava 30 terços por dia, acompanhado pelos irmãos, que também presenciavam as missas realizadas mensalmente no casarão da rua Conde.

Numa ocasião, o núncio apostólico D. Carmine Rocco em visita a São Carlos esteve com os bispos D. Rui e D. Constantino na casa de seu Antonio e, perplexo ao ouvir o relato de sua vida, perguntou: “Homem, por que você reza mais?” Diante da resposta de que as orações eram pelas vocações religiosas, presenteou-o com um terço.

Seu Antonio falava como um iluminado, um santo que sem ter a visão, enxergava além. Um incrédulo ficaria no mínimo desconcertado na presença daquele homem franzino, que não era uma autoridade, nem um vulto da história, mas alguém que carregava uma certeza pungente: “Se o mundo está errado é pela falta de Deus. O povo virou as costas para Deus”.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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