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terça, 11 de dezembro de 2018
Memória São-carlense

A professora de francês

07 Dez 2018 - 06h30Por (*) Cirilo Braga
A professora de francês - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

-        Tout le monde est présent?

A professora Maria Alice Vaz Macedo fazia essa pergunta com o diário de classe em punho e nosso “oui, professeur” em côro abria um momento que hoje soa como lenda, se eu contar ao leitor que se tratava de uma aula em escola pública, o Instituto de Educação “Doutor Álvaro Guião”. Meus contemporâneos, entretanto, virão em meu socorro.

Na época das aulas de francês, é verdade que sopravam outros ventos, o ensino já havia passado por uma reforma e abrir o livro “Le Français par l’ image”, de Irma Aragonês Forjaz, era como viajar para um mundo diferente. Ajudava o fato de que naquelas quintas e sextas séries ignorássemos outra língua que não fosse o português.

Além disso, estudar francês tinha a surpresa de cantar dobrando os versos de “Frère Jacques/Dormez-vous?/Sonnez les matines/Ding, dang, dong” e outras como bolar diálogos de estilo non sense, como o que tive certa vez quando sorteado para dialogar com um colega divertidíssimo recém- chegado do interior da Paraíba. Teve também o dia em que, depois de entoar “La Marsellaise”, resolvemos passar a aula fazendo bico ao pronunciar todas as palavras.

Recordei-me daqueles tempos ao visitar, aqui mesmo em São Carlos, uma “boulangerie”, que se nao me transportou para a França, me levou a recordar as aulas da professora Maria Alice. Ela morava perto de casa e eu sempre a via ali diante de sua residência, na esquina das ruas São Sebastião e Dom Pedro II, perto do extinto supermercado Dotto.

Viver em cidade no interior nos dá essa vantagem de ser vizinho da professora, de poder encontrá-la nos afazeres habituais como se sentar na soleira da porta para bater papo com os filhos e sentir a brisa são-carlense.

Estou também recordando as aulas da professora Maria Alice porque dia desses encontrei um arquivo com sua biografia e há algum tempo localizei por acaso a sua sepultura no cemitério N.S.do Carmo.

Maria Alice faleceu no Primeiro de Maio de 2000 aos 70 anos. O Dia do Trabalho haveria de ser uma metafórica coincidência. Professores são trabalhadores infatigáveis, cuja matéria prima é o saber e o resultado de sua produção só o futuro é capaz de mensurar.

A biografia da professora lança luz sobre essa verdade. A professora Maria Alice foi casada com o dentista Camillo Manoel de Souza Macedo, tendo três filhos:  José Dario, engenheiro civil, Denise, bióloga, e Renato, médico veterinário, este meu colega num dois anos em que fui aluno de sua mãe.

Após o primário e o colegial no Colégio São Carlos (que certamente lhe incutiu o gosto pelo dom de ensinar francês), graduou-se em Letras pela PUCCamp e especializou-se em Sévres (França). Não era fruto do acaso o “savoir faire” de nossa professora de francês, que também lecionava Português no Instituto de Educação “Dr. Álvaro Guião”. Desde 1959 quando iniciou a carreira no magistério oficial do Estado, deu aulas em escolas de Pitangueiras, Porto Ferreira e São Carlos.

Eu não tinha conhecimento de sua trajetória naqueles tempos de “Frère Jaccques dormez-vous?”; alunos adolescentes costumam desconhecer a empreendida pelos mestres antes de estarem ali diante da classe, esbanjando paciência.

Maria Alice era dedicadíssima à tarefa de educadora e logo após aplicar as provas, corrigia com agilidade para devolver com as notas na aula seguinte, fazendo com os alunos uma avaliação do desempenho de toda a classe.

Algo merece nota: o reparo de que naquele período tínhamos a sorte de encontrar nas salas de aula um belo time de professores, alguns no final da jornada, no “canto do cisne” como se dizia.

Flora Bernardi, Ary Pinto das Neves, Orlando Perez, Amadeu Ferraz, Maria Teresa Vayego, enfim...Havia cultura e uma coleção de ensinamentos das disciplinas e das coisas da vida. Um privilégio nosso (do qual, obviamente só nos demos conta muitos anos depois).

A professora Maria Alice adicionava ao “glamour” do idioma francês, muitas lições de boas maneiras que vigoravam regiamente na sala e eram parte da sua didática. Em 25 anos de magistério, nunca deu uma aula sem tê-la preparado antes. Matriculava os filhos no período da manhã e lecionava de tarde e à noite, reservando as manhãs para a elaboração de suas aulas. Assinava revistas importadas da França para poder trabalhar textos em sala de aula com temas atuais.

O que dizer de uma professora assim, senão que foi um sortilégio estar entre aqueles que respondiam “Oui, professeur” na hora da chamada inicial?

Sei que a Biblioteca do Colégio Cecília Meirelles leva o seu nome, também dedicado a uma escola municipal de educação infantil em São Carlos. Uma homenagem a alguém de quem me recordo sempre que passo ali, pela região onde éramos vizinhos e recebia dela um sorridente aceno.

“Seus traços marcantes eram a amizade, a curiosidade, alegria e a coragem com a vida e seus mistérios. Era doce e enérgica, o que a fez uma mulher além do seu tempo, pois tinha compreensão com a vida”. Palavras de sua filha Denise que ex-alunos como eu assinam embaixo.

Tout le monde est présent.

(Na reprodução de uma fotografia de 1976, publicada no livro “Memórias do Instituto”, da Professora Maria Christina Girão Pirolla, a Professora Maria Alice aparece ao centro, entre suas colegas que lecionavam no Instituto de Educação “Dr. Álvaro Guião” naquele ano).

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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