Menu
quarta, 20 de janeiro de 2021
Resplandecente Alma

O Jardim de Santa Bárbara

Prosa Poética vencedora do 1º Concurso Literário Descobrindo Portugal em Você realizado pela Casa de Portugal – São Carlos – SP

01 Dez 2020 - 07h54Por Anaísa Mazari
O Jardim de Santa Bárbara -

Olhava para os próprios pés que se moviam de forma soturna e claudicante. Parecia não sentir o chão, o que a fazia caminhar de maneira insegura. Desejava, contudo, por curiosidade ou teimosia, seguir. Estava completamente solitária, desesperada por compreender. Ambiente cinza, formas geométricas confusas e pouco organizadas, flores sem cor... Ao centro, a fonte seca como se há muito não jorrasse... Cinzas no chão, como fuligem... A edificação medieval parecia que poderia ruir a qualquer momento. Ansiosamente, não conseguia alcançar o porquê e para onde se esvaíram as cores, a beleza, a paz. Já não observava os próprios pés. Respirava ofegantemente e ao longe escutava badaladas de sinos, angustiantes a cada toque como se os sons acinzentassem ainda mais todo o entorno taciturno. Procurava por algo, mas não sabia o quê. Tocava os cabelos, a cabeça, caminhava, agora, passos persistentes. Repentinamente, alguém pelas costas lhe segura pelo braço. Gritos.

Suor, banhada de suor, sente a grande cama de casal com o corpo. No escuro, ainda invadida pelo medo, Branca acende a luz com a angústia rasgando o peito a cada respiro frenético e impulsivo. Lágrimas quentes misturadas com o suor escorrendo pela face, ardentes, ardendo na alma. Levanta-se. Passos ainda inseguros. O que fazer? A dúvida badalava em sua alma como o sino que a angustiava em seu pesadelo recorrente. Não saber era o que inundava seu peito de tanta dor.

Saindo do aposento, direciona-se ao quarto que outrora era seu. Otávio parecia dormir profundamente. E em Branca, sempre a sensação de que vivenciava a crise solitariamente. Desconexão, presente ausência, rasos contatos. Após observar Otávio em seu indiferente adormecer, caminha no corredor. Vê-se. Percorre a própria imagem refletida no espelho. Nó na garganta. O recomeço que perdera o viço como a flor que ficara fora d`água, sendo esquecida paulatinamente, engolida pelas horas, ressequida pela ação do tempo que havia motivado a primeira separação.

- Faz de conta que foi o tempo... – sussurrou, entre lágrimas incontidas rolando pela face alva e se misturando aos cabelos negros.

Faz de conta. Na maturidade, parecia estar farta – enfastiada, talvez - das ilusões que foram se perdendo ao longo do próprio amadurecimento. Queria viver e era pra já. Esperar? Sentia não haver mais tempo. Fastio era o que vinha sentindo em seus dias, descoloridos, sem propósito, alma apagada e aturdida, apática diante de uma fase obscurecida pelos gigantes do lado de dentro que pareciam invencíveis e desejantes de devorar seus mais profundos sentimentos para esconder dela o que ela mesma tinha receios de perceber e enxergar. Estava cansada das batalhas internas. Tão exausta, adormeceu profundamente.

Horas se passaram e a impressão que teve após o sono pesado era a de que dormira por dias a fio. Silêncio sepulcral. O tic-tac do relógio invadia os tímpanos, reverberando no peito. Angústia presente. Sozinha, sozinha, sozinha, o pensamento insistia repetida e desesperadamente.

Fitava o lustre do quarto apagado. Imponente, gigantesco como nunca. Tão próximo de si como sua solidão. Devorador. Poderia aniquilá-la em seu pungente temor. Fugira a vida inteira de estar só. E, agora, acuada, pela própria insatisfação incontrolável e querelante, já não tinha para onde escapar. Era ela, seu desejo de vida e o encontro com a desconhecida que habitava dentro de si. A Desconhecida. Outrora silenciosa, mas agora impiedosamente barulhenta e exuberante, rompendo todas as quietudes.

Levantou-se de súbito. A Desconhecida. O espelho. Olhos castanhos, vivazes, corajosos. Arrumou-se muito rapidamente e saiu. A casa por maior que fosse, parecia pequena demais para o tamanho do que sentia. Imensurável sentimento de desbravar o que tanto a assustava. O que haveria depois da solidão? Passos firmes nas ruas de Braga, a velha Braga tão linda e conhecida. Caminhou e caminhou. Passos ansiosos, perseverantes e obstinados como se estivesse à procura de um tesouro prestes a ser descoberto. Instintivamente, interrompe os passos. O Jardim de Santa Bárbara contemplado com olhar de admiração – conhecia, mas era como se estivesse ali pela primeira vez. Colorido, fonte ao centro jorrando de forma desprendida, geometricamente distribuído de maneira lindamente estética, cores e mais cores. As flores, de tão lindas, pareciam convidar o seu coração para brincar. Fecha os olhos e sente a brisa. Tudo transcorrendo, incólume à sua dor, beleza presente. Vida.

Sentiu-se segura naquele lugar que continuava lindo, especial e encantador, ignorando ter sido um dia o cartão postal de sua história de amor com Otávio. O Jardim de Santa Bárbara continuava ali. Acolhendo outras histórias de amor que talvez um dia também terminassem. O jardim permanecia, elegantemente encantador. As flores continuavam miscigenadas, esplendorosas. A arquitetura medieval, ao redor, imponentemente de pé. Alívio. Tudo permanecia a despeito de sua dor. Sorriu. Suspirou. Ufa! Descanso.

Permaneceu mais algum tempo admirando as flores, cada pedacinho impecável do jardim, a fonte jorrando, fluida, liberta. Riu sozinha ao se lembrar do seu pesadelo, terror noturno da madrugada. A vida segue, segue em frente, continua, é maior, incomensurável. Já podia voltar para a casa - ainda pequena - para seus enormes sentimentos.

Voltou. Mudou. O espelho. Podia até doer de novo, mas e se o medo voltasse? As lágrimas escorriam, sem um significado definido, mas ali estavam. Não sabia e por que seria necessário saber sempre? Olhos ainda corajosos. Novo sorriso. Podia não saber, podia esperar, podia decidir, podia fazer o que quisesse. Havia intenso prazer no descobrir. Prazer suavemente inebriante e saboroso como um cálice de vinho do Porto. A voracidade de saber que podia a tornava capaz de qualquer coisa. Se lhe segurassem pelo braço agora não temeria. Aceitaria o confronto. Ou seria um encontro?

Fecha os olhos. Perfume de flores. Inspira profundamente. Intensidade. Momento. Vida, vida, vida! Continua! Enquanto se respira...

                                                                                  (AnaisaMazari)


Leia Também

Últimas Notícias