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Há futuro para a Ciência brasileira?

20 Jun 2015 - 17h10Por (*) Glaucius Oliva
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A ciência brasileira adentrou o século XXI submetida a múltiplos desafios, externos e internos, clamando por mudanças de objetivos, posturas e ideais, mas, apesar disso, tudo indica que essa demanda parece não ter sido assimilada por alguns dos atores mais proeminentes da área. Esta será talvez a melhor introdução que podemos dar à palestra carregada de clarividência e objetividade, proferida pelo Prof. Glaucius Oliva, recentemente, em uma iniciativa promovida e realizada habitualmente pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), denominada Colloquium diei, cujo tema foi Há futuro para a Ciência brasileira?

Em sua apresentação, o docente - ex-presidente do CNPq (2010-2015) e ex-diretor do IFSC/USP (2006-2010) - explicou que o custo benefício da pesquisa científica tem crescido exponencialmente e que os recursos disponíveis têm sido cada vez mais escassos, enquanto a classe política e as empresas, que são os responsáveis pelo financiamento público e privado da ciência, clamam por um radical engajamento em inovação e número de patentes, mantendo, com isso uma visão enviesada de que a ciência brasileira está interessada somente em papers, ao invés de focar nas reais demandas do Brasil. Essa foi uma das principais críticas que ouvia em Brasília, quando atuei como diretor e presidente do CNPq*. Isso é muito grave, porque é nesse universo que se decide o orçamento de pesquisa em nosso país, pontuou Glaucius Oliva.

A importação de equipamentos foi outro assunto destacado pelo docente, na sua palestra, não sendo segredo para ninguém que grande parte dos equipamentos utilizados nos laboratórios de pesquisa brasileiros é importada, principalmente da Alemanha e China, o que para o docente do IFSC/USP é sinônimo de que o Brasil gasta mais do que vende, processo que dificulta todo o processo de inovação nacional. Outro problema abordado por Glaucius Oliva esteve diretamente ligado ao depósito de patentes, já que para o pesquisador cobra-se das universidades um grande número de depósito de patentes, cabendo, no entanto, lançar a pergunta se é responsabilidade da universidade depositá-las? Para Oliva O Brasil tem dificuldade em reconhecer a qualidade das pesquisas, atentando apenas à quantidade de trabalhos publicados e isso é um problema universal.

Outra crítica profunda do cientista, que merece reflexão séria, diz respeito ao fato da sociedade em geral desconhecer, quase por completo, qual o impacto que a ciência tem em seu bem-estar cotidiano, não a valorizando e nem a entendendo como uma solução para os grandes problemas nacionais: Um exemplo disso foi a completa ausência do tema na discussão da política eleitoral recente, desabafou o pesquisador. Além disso, Glaucius Oliva afirmou que diversos cientistas não dão a devida atenção à necessidade de divulgar a ciência que fazem em seus laboratórios, o que tem motivado que a área tenha ficado sitiada pela sociedade e, consequentemente, a notória falta de interesse das pessoas pelo universo científico.

Contudo, nem tudo é tão mau assim, já que Glaucius Oliva enalteceu a existência de instituições e de profissionais que unem esforços para levar a ciência até a sociedade, como é o caso do IFSC/USP, que investe na difusão científica através de palestras, dos CEPID's, de eventos voltados aos alunos de ensino fundamental e médio, bem como ao público em geral, entre tantas outras iniciativas que também incluem o Centro de Divulgação Científica e Cultural - CDCC, disse ele.

O cenário interno da ciência apresenta-se igualmente complexo, com instituições engessadas por uma gestão pública ineficiente, sitiadas por pressões corporativas e que não valorizam devidamente a qualidade na pesquisa e o mérito acadêmico na progressão da carreira dos cientistas. Neste âmbito, Glaucius Oliva sublinhou a necessidade de haver a necessidade de se formar profissionais de qualidade, para que seja possível investir, sobretudo em Produção & Desenvolvimento (P&D).

Já no campo dedicado às avaliações de projetos, propostas pelas agências de financiamento à pesquisa, Oliva afirmou que os comitês de pares insistem em apenas contabilizar a quantidade de publicações e resistem em considerar, entre seus critérios, os diferentes impactos da pesquisa, nomeadamente nos campos científico, econômico, social, educacional e/ou cultural. Ainda de acordo com ele, o ensino de graduação e, crescentemente, o ensino de pós-graduação, seguem modelos antiquados que não priorizam a criatividade, que não abrem portas para a iniciativa própria e para o empreendedorismo. Inovação é questão de atitude e é preciso ter gente de qualidade para empreender. Como bons exemplos de empresas brasileiras que souberam inovar, Glaucius Oliva citou a Petrobras, que através do profundo conhecimento de profissionais brasileiros pôde avançar na exploração de petróleo; a Embraba, que lutou para que o Brasil se tornasse líder mundial em P&D na área de agropecuária tropical, produzindo açúcar, suco de laranja, soja, carne bovina e milho, entre outros produtos alimentícios; e a Embraer, que antes de ter se autointitulado empresa, fundou uma escola para formar bons profissionais que cooperaram na criação e no crescimento da companhia. 

Afinal, há futuro para a Ciência brasileira?

O Brasil tem tudo para que a nossa ciência dê certo, afirmou Oliva, tendo acrescentado a necessidade de conquistar recursos para desenvolver novas pesquisas e de adotar ferramentas para que a comunidade científica se comunique mais com o setor político, empresarial, bem como com a sociedade.

O impacto e a relevância da produção científica também foram destacados como alguns dos obstáculos que prejudicam o avanço científico e tecnológico. Aliás, o palestrante enalteceu a importância da relação entre os universos acadêmico e industrial, tendo em vista que a ciência básica e a inovação são duas faces da mesma moeda.

Glaucius Oliva destacou, ainda, outros tópicos importantes que podem fortalecer o avanço da ciência brasileira, tais como a necessidade de se investir em internacionalização, inovar em patentes, aproveitar ainda mais os investimentos em infraestruturas para pesquisas, apoiar os jovens pesquisadores, atrair novos talentos, estimular o investimento e inovação nas empresas e investir na educação básica, sendo este último um fator indispensável para que o crescimento e avanço da ciência sejam contínuos.

(*) O autor é coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos - CIBFar/CEPID (IFSC/USP), é Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e da The World Academy of Sciences for the Advancement of Science in Developing Countries (TWAS), Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico e Fundador e Membro do Governing Board - Global Research Council (GRC).

*Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico;

Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão. 

 

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