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quinta, 15 de abril de 2021
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ESPECIAL SÃO CARLOS 160 ANOS: Fazenda Pinhal, onde tudo começou

04 Nov 2017 - 08h01Por (*) Cirilo Braga
Foto: Casa do Pinhal/ArquivoCB - Foto: Casa do Pinhal/ArquivoCB -

As aldeias de índios guaianás, primeiros habitantes da região, já ficavam no passado quando São Carlos do Pinhal foi fundada em meio a colinas e pinhais no ano de 1857.

O ouro não mais estava em Cuiabá, mas no verde das plantações de café. Bem antes, a civilização chegou com o capitão de milícia Carlos Bartolomeu de Arruda Botelho, um dos defensores do forte do Iguatemi nas lutas contra os espanhóis. Ainda no período colonial, foi ele o dono das terras no chamado "Sertões de Araraquara".

A povoação, de fato, veio a partir da demarcação de três sesmarias: do Monjolinho, do Quilombo e do Pinhal. Nesta última, Carlos José Botelho, filho do desbravador, ergueu a Casa do Pinhal. Uma casa típica dessa época, que além das dependências familiares, tinha espaço para os viajantes que tomavam o rumo do sertão, e uma capela dedicada ao padroeiro, São Carlos Borromeu.

A Fazenda Pinhal e a Família Botelho foram os protagonistas do começo da história.

Do sonho de Carlos José à realidade construída por Antonio Carlos, o Conde do Pinhal: a fundação da cidade e o traçado do largo do pátio e da rua central.

Empreendedor arrojado, Conde do Pinhal trouxe a estrada de ferro e, na fumaça do trem, o progresso. Fundou bancos e companhias agrícolas e graças ao contrato que fez com um engenheiro inglês.

São Carlos foi a primeira cidade da América do Sul a ter luz elétrica, por arco voltaico.

Viúvo de dona Francisca Teodora Coelho, com quem teve um único filho, Conde do Pinhal casou-se depois com Ana Carolina de Mello Franco e Oliveira, que lhe deu 12 filhos, seis homens e seis mulheres.

A Condessa tinha adoração pela Casa do Pinhal e ao morrer, recomendou aos herdeiros, em testamento, que mantivessem o domínio da propriedade. A paixão da condessa passou a seus descendentes que, entre netos e bisnetos se revezaram nos últimos 50 anos no zelo para manter a fazenda.

A Fazenda Pinhal mantém um universo próprio: é como se o tempo não tivesse passado. Tudo ali é tradição e lembrança.

A fazenda é o retrato de uma época e um testemunho da cultura e da história não só da região, como do Estado de São Paulo. Essa certeza levou o Conselho do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado a tombar a Fazenda em 1981. Seis anos depois a propriedade foi declarada patrimônio nacional pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).

A impressão que temos ao visitar o lugar é a de que nada ali se perdeu, tudo foi preservado.

Lá fora, os jardins, os lagos, o pomar. Lá dentro, as pinturas, as pratarias, os cristais, as louças e os móveis do século 19. Horas de contato com a natureza. Horas de paz de espírito.

A Fazenda Pinhal mantém um universo próprio e é como se o tempo tivesse parado. Ali se vive a história. Não aquela virtual ou a história fria revelada nos documentos e transcrita em alentados volumes. Mas a história que é possível vivenciar com os sentidos, recriando o ambiente cultural de uma época.

Ao lado da capela da casa-grande está a imagem do padroeiro, São Carlos Borromeu, a mesma que em 1857 foi levada em procissão para a capela localizada no centro do povoado (atual Catedral), em ato simbólico que marcou a fundação de São Carlos do Pinhal. Na época o então distrito pertencia ao município de São Bento de Araraquara, do qual se emancipou com a criação da Vila e a instalação da Câmara em 1865.

Cofundador da cidade, Jesuíno José Soares de Arruda - segundo relato do historiador Ary Pinto das Neves -desempenhou papel fundamental em todos os primeiros passos para a fundação de São Carlos do Pinhal. Ele foi intermediário de todas as gestões mantidas junto à Cúria Diocesana de São Paulo, tendo assinado a escritura de doação da gleba inicial que constituiu o núcleo do Patrimônio da Capela de São Carlos. Ao lado da esposa, dona Maria Gertrudes de Arruda, Jesuíno atuou decisivamente para a construção do templo religioso.

A data escolhida para celebrar a fundação foi 4 de novembro, dia dedicado a São Carlos Borromeu. Naquele dia, uma quarta-feira, realizou-se um importante ato simbólico: a imagem do padroeiro cedida por Carlos de Arruda Botelho foi levada em procissão da Fazenda Pinhal para a capela, localizada na "Rua Principal", que depois se tornou "Rua do Comércio", "Rua São Carlos" e finalmente "Avenida São Carlos". Em 1956, no bispado de D.Ruy Serra, no lugar da capela, que depois se tornou matriz, foi inaugurada a Catedral Diocesana -certamente a construção que melhor identifica a cidade nos dias de hoje.

Alguns fatos que antecederam o 4 de novembro de 1857:

1831

A Sesmaria do Pinhal é demarcada por Carlos José Botelho, compreendendo a metade sul do futuro perímetro urbano de São Carlos.

1833

Carlos José Botelho, após erguer a casa grande da fazenda, planta o primeiro cafezal.

1857

Antonio Carlos de Arruda Botelho, o Conde do Pinhal, presidindo a Câmara Municipal de São Bento de Araraquara, ordena no dia 21 de abril o alinhamento para a construção de um cemitério na futura São Carlos do Pinhal.

Após antecipada licença episcopal, solicitada por Jesuíno de Arruda, realiza-se no dia 5 de maio a bênção da primeira capela de São Carlos.

Por ato do presidente da província, Francisco Diogo Pereira de Vasconcelos, é criado em 6 de julho o Distrito de Paz de São Carlos do Pinhal.

Em 4 de novembro, data em que a Igreja Católica celebra São Carlos Borromeu, santo de devoção da família Botelho, Carlos de Arruda Botelho cede a imagem do padroeiro para ser levada em procissão até o povoado. Nascia a nova cidade.

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