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segunda, 19 de outubro de 2020
Um Brasil diferente, com caráter

Adolescente são-carlense dá exemplo de honestidade e devolve carteira com R$ 600 a empresário

“Meus pais me ensinaram a ser honesto e fico feliz em fazer o certo; tenho assim a consciência tranquila”

01 Ago 2018 - 08h07Por Marcos Escrivani
Matheus: “O que é meu, é meu. Não é certo se apoderar de coisas que são dos outros” - Crédito: Marcos EscrivaniMatheus: “O que é meu, é meu. Não é certo se apoderar de coisas que são dos outros” - Crédito: Marcos Escrivani

Um adolescente, de 14 anos, residente em São Carlos, foi protagonista de uma atitude que comoveu milhares de pessoas e mostrou que o Brasil pode ser diferente, com pessoas honestas, com caráter e dignidade. Tudo começou, quando este jovem achou uma carteira repleta de documentos e com R$ 600. Ele fez questão de devolvê-la ao seu proprietário, o empresário Roberto Júnior, residente em Caieiras, região metropolitana de São Paulo e que passava um final de semana com seu filho em Brotas.

O ato, que chamou a atenção, foi de Matheus da Silva Cavalcanti, 14 anos, lateral direito da equipe sub14 do Centro Esportivo Multi Esporte, que esteve disputando em Brotas, a Copa Internacional Cinbrala. Ele joga bola desde os 7 anos e sua primeira experiência foi no futsal, com o técnico Renato Natella.

A sua equipe caiu na primeira fase do torneio após três jogos (uma vitória, um empate e uma derrota). Contudo, se considera um campeão pelo simples fato de poder ter a oportunidade de disputar o competição.

Torcedor do São Paulo, Matheus e sua mãe, a empregada doméstica Ivanilda Cavalcanti de Miranda, 43 anos, receberam a reportagem do São Carlos Agora na noite desta terça-feira, 31, em uma humilde casa alugada, de três cômodos no Jardim Botafogo. O diretor-presidente do Centro Esportivo Multi Esporte, uma entidade sem fins lucrativos e que fornece bolsas para jovens de famílias carentes, Fábio Teixeira Pícolo, também esteve presente.

MENINO DE CARÁTER

A história de Matheus começa em uma quinta-feira, dia 19. Estava em uma lanchonete em uma praça de Brotas. Por volta das 21h foi orientado pelos professores André Dedé Bernal e Sandro Penteado para que ficasse atento, pois o ônibus que levaria os atletas para o alojamento estaria chegando.

Foi para a praça e quandoesperava sentado no banco, viu uma carteira. “Peguei ela e não abri. Fui levar para o professor Sandro. Ele disse que ia ensinar a tomar uma providência correta. Me deu os parabéns por levar a carteira e depois entrou no Facebook. Mandou uma mensagem para a pessoa (empresário) que perdeu a carteira e ele foi buscar, em seguida. Aí,  o professor me deu a carteira e disse que eu deveria entregar. Recebi um abraço e ele me deu R$ 100 de presente pelo gesto”, lembrou Matheus. No interior da carteira estavam todos os documentos pessoais do empresário, além de R$ 600 em dinheiro.

O pequeno jogador afirmou ao SCA que se sente feliz em ser honesto e que foi o ensinamento que recebeu inicialmente dos seus pais, complementado na escola de futebol. “O que é meu, é meu. Dos outros, é dos outros. Me sinto feliz em fazer o certo, em ser honesto. Acredito que estou honrando tudo o que meus pais e meus professores me ensinaram”, disse, com os olhos brilhantes. “Atitudes assim faz com que eu não fique com minha consciência pesada”.

PRÁ LÁ DE ORGULHOSA

Simples e ponderada. Carinhosa e cometida. Exigente. A mãe, Ivanilda, era o orgulho em pessoa ao olhar para Matheus, ao abraçá-lo e pegar em sua mão.

“Ele sempre foi assim. Sempre honesto. Um menino bom, de caráter. Vai ser um cidadão exemplar”, afirmou a doméstica.

Durante a entrevista, ela pontuou os gestos de grandeza de Matheus que começaram com 7 anos, quando cursava o 1º ano do ensino fundamental na Escola Estadual D. Gastão, na Vila Prado. “Ele achou R$ 5 e deu para a sua professora que devolveu para a real proprietária, uma coleguinha de classe que tinha levado o dinheiro para comer um lanche”, lembrou.

Anos depois, acompanhado do pai, ia para um treino de futsal no Diocesano La Salle e em frente a um bar, achou R$ 10 no chão. Havia muitos homens. “Mas ele só foi embora quando conseguiu achar o dono daquela nota e devolver”, disse Ivanilda.

MENINO DE OURO

Outro fato que surpreendeu, aconteceu no dia em que Matheus retornou para São Carlos após achar a carteira com R$ 600 do empresário Roberto Junior. Ivanilda fez questão de detalhar o episódio.

“A gente paga aluguel e não tem dinheiro para dar para o Matheus. Então os vizinhos fizeram uma vaquinha e arrecadaram R$ 80 para que ele se divertisse em Brotas. Não temos mala e ele ia ficar uma semana passeando. Então, pedi para a madrinha dele emprestar uma e fomos prontamente atendidos. Quando o Matheus retornou para casa, sete dias depois, começou a tirar sua roupinha da mala lá pelas 18h. Era uma segunda-feira (dia 23). Quando acabou de tirar todas, puxou um plástico que estava no fundo da mala e tinha uma nota de R$ 100. Eu não acreditei. O Matheus pediu para eu ligar para sua madrinha, pois o dinheiro era dela. Eu fiz isso, mas ela disse que, pela honestidade dele, era mais um presente por ser um menino de boa índole e que dá bons exemplos”, disse a emocionada mãe.

Diante tantos gestos, que são raros de se ver hoje em dia, Ivanilda não se conteve durante a entrevista e fez questão de dizer que seu filho assimilou todos os ensinamentos. “Fico muito emocionada com tudo isso. Pela sua honestidade. Ele me enche de orgulho e me surpreende”, resumiu.

FORMAR CIDADÃOS

Fábio Pícolo, diretor-presidente do CE Multi Esporte e da Mult Sport disse que, a atitude de Matheus reforça a filosofia que rege as escolas de futebol. “É um trabalho educacional através do esporte, junto com a família, focado em formar primeiramente cidadãos. Ser um jogador é consequência. Todos os nossos profissionais trabalham nesse sentido”.

Sobre o episódio ocorrido em Brotas, Fabinho disse que tomou conhecimento no mesmo dia, por volta das 23h30 e fez questão de parabenizar Matheus e também o professor.

Paralelamente, disse que leu uma postagem do empresário Roberto Júnior em sua página no Facebook onde narrava o ocorrido e que estava preparado para recuperar sua carteira, mas apenas com os documentos. “Mas quando ele viu a carteira intacta, com o dinheiro, ficou surpreso. Diante disso compartilhei a postagem com as famílias da nossa escola para mostrar que notícias boas devem ser veiculadas e difundidas”, afirmou.

Fabinho, disse ainda, que Matheus é de uma família simples, humilde. “Os pais trabalham e ele estava em um ambiente (em Brotas) que poderia ocorrer um desvio de conduta. Mas, sua honestidade, sua integridade e os ensinamentos que teve, falou mais alto. Ele se mostrou ético e com uma personalidade muito forte”, ponderou.

O diretor da Multi Esporte, enfatizou ainda, que Matheus colocou em prática o que é ensinado na escola de futebol, proporcionando bons exemplos. “Não só para quem está em formação. Mas, principalmente, para os adultos. O legado que o Matheus deixa é mais um aprendizado. Colocar em prática os ensinamentos que teve com os pais. Nos ensina ainda, a valorizar e respeitar ainda mais o próximo”, salientou, afirmando ainda que Matheus é bolsista e irá praticar o futebol até quando quiser. “Mas no futuro, quando passar por uma entrevista de trabalho, esses atos que praticou, farão uma grande diferença no seu futuro. Isso ele levará para a vida toda”, finalizou.

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