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domingo, 01 de agosto de 2021
Memória São-carlense

Ruy Cereda, repórter que fez história

24 Ago 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Ruy Cereda, repórter que fez história - Crédito: Arquivo Pessoal Crédito: Arquivo Pessoal

Há cinco anos, o saudoso radialista Ruy Cereda (1934- 2016) recebia na Câmara Municipal uma homenagem em sinal de gratidão pelo caminho que construira na comunicação são-carlense. Gratidão foi a mais pronunciada palavra na ocasião, quando mesmo estando doente, o valente Ruy demonstrou compreender o alcance daquele tributo de reconhecimento.

Nascido em Analândia, então chamada Anápolis, desenvolveu uma carreira de bancário, no Banco Noroeste onde começou como contínuo e aposentou-se como gerente em 1984. A rotina bancária talvez fosse a mesma se ele não tomado outro rumo. O “panorama esportivo” do rádio são-carlense teria sido mais pobre sem seus “pitacos”. Em determinado momento da vida, ele se enveredou pelo radialismo de onde nunca saiu. Deu uma pausa, é verdade para ir “até ali” e voltar. Ali era a cidade de Inúbia Paulista, na região noroeste do Estado.

Seus companheiros de rádio se lembram do dia em que comentou uma partida de futebol empoleirado em cima de uma caixa d´água, os colegas de banco nunca se esquecem do dia em que “pisou no rabo da bola” e quebrou o braço numa jogada que o futsal de Inúbia guardou nos arquivos da memória.

Costumava levar nas costas a pesada aparelhagem “móvel” da rádio São Carlos quando das transmissões futebolísticas, ironicamente chamando toda a talha de “Maria Gorda”. Não raro ao voltar para a rádio, o técnico perguntava-lhe qual tinha sido o placar do jogo.

Na carreira de comentarista esportivo, colecionou histórias, como a do dia em que viajava com a delegação do time de futebol local, cujo ônibus despencou num riacho depois que o motorista do ônibus que o transportava não viu que uma ponte havia desabado. Foi um alvoroço, mas felizmente alguns passageiros sofreram escoriações, incluindo o próprio Ruy, que – socorrido pelo roupeiro - voltou para casa trajando uniforme completo do time.

Ficava perplexo ao ver seu mestre e dono de rádio Gisto Rossi subir em postes para fazer consertos, bem ao estilo “quem quer faz, quem não quer manda”.

Ao lado dos westerns, apreciava filmes de guerra e alguns dos quais parece ter sido ele próprio o roteirista, como “O Incrível Exército de Brancaleone”, paródia de D.Quixote. Não tenho dúvidas de que costumava torcer para os índios.

A voz grave e o estilo bonachão, não deixava enganar. Gostava de serestas e músicas orquestradas, daquelas que faziam a trilha de filmes épicos. A canção “Tempos de Criança”, de Ataulfo Alves, sempre o emocionava. “Eu daria tudo que eu tivesse/Pra voltar aos dias de criança/Eu não sei pra que é que a gente cresce/Se não sai da gente essa lembrança”, diz a letra.

Talvez lhe passasse o filme dos domingos na missa da matriz de sua cidade natal. E, claro, batia-lhe a saudade da professorinha que lhe ensinou o beabá.

Ruy cresceu num tempo muito mais ameno e pacato em termos de relações humanas e por isso se identificava com versos que falam da meninada, das travessuras, do jogo de botões para concluir: “Eu era feliz e não sabia”.

Em Inúbia, incorporava um vendedor fictício, ao lado de um diretor da Cooperativa de Consumo, o Oclésio, em performances que rendiam boas gargalhadas. Em família, costumava brincar, fazendo de conta que passava mal. Só pra assustar, coisa que não fazia quando o assunto era a segurança dos pequenos. Chegou a arredondar os cantos das mesas para que as crianças não batessem com a cabeça.

Nos tempos da Rádio Progresso, um amigo seu certa vez, ao entrar no estudo, foi assim saudado: “Muito bem, agora vamos ao Grande Placar Esportivo com Mauro Barion”. Entregou-lhe o microfone e aquele amigo passou mais de uma década no oficio.

Quando a emissora saia do ar devido à falta de energia elétrica, no retorno da programação, depois que um locutor apresentava as desculpas de praxe, Ruy dizia: “Está chovendo na Etiópia!” Queria dizer que bastava um relâmpago do outro lado do Atlântico para a companhia elétrica falhar aqui. Coisas de um radialista de grande presença de espírito e aguçado senso de humor.

Pode estar chovendo em qualquer parte, que pra ele havia sempre tempo bom, céu de brigadeiro. Foi assim que nos inspirou e acalentou o saudoso amigo de toda a cidade.

Quando aposentado e residindo em São Carlos, partiu para a reportagem política, mais precisamente na cobertura dos trabalhos legislativos, que realizou durante mais de duas décadas pela rádio Intersom FM-, com atuação imparcial e isenta.

Em 1994 recebeu o título de "Cidadão Honorário de São Carlos", oficializado pelo Decreto Legislativo No. 349, de iniciativa do saudoso vereador Dorival Mazola Penteado. Foi também homenageado pelo Legislativo em 2013, quando recebeu o Diploma de Gratidão da Cidade de São Carlos em reconhecimento à contribuição oferecida à comunicação no município ao longo de sua trajetória profissional.

Faleceu em 10 de março de 2016, deixando na lembrança de seus colegas e ouvintes muitas de suas histórias e a marca registrada do bordão com que encerrava seus comentários políticos, onde por vezes arriscava previsões, concluindo sempre com um “quem viver, verá!”.

(Pela lei municipal nº 17.799, o nome de Ruy Carlos Cereda foi atribuído a uma rua do loteamento Residencial Miguel Abdelnur).

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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