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sexta, 24 de janeiro de 2020
Memória São-carlense

Distrito de Santa Eudóxia resume a história da região

13 Dez 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Distrito de Santa Eudóxia resume a história da região - Crédito: SCA/São Paulo Antiga/Condephaat/Lugar do Trem Crédito: SCA/São Paulo Antiga/Condephaat/Lugar do Trem

A distância de pouco mais de 35 quilômetros separando São Carlos de Santa Eudóxia, às vezes parece gigantesca, pois a muitos moradores da cidade o Distrito se mantém incógnito entre um festejo e outro, ou uma demanda da esfera política que o coloca no noticiário. É preciso visitar esse recanto para ganhar afinidade com o lugar que não é uma ilha, mas conta com uma lendária balsa para travessia do rio Mogi e – convenhamos – é uma espécie de parque temático da formação do município e de seu povo. Santa Eudóxia, na verdade, guarda a síntese de nossa história.

Tudo ali está repleto de significado: o território de fazendas e sítios com exuberante paisagem, conta sobre um passado de imensos cafezais e vigorosa produção agropecuária; o povo descendente daqueles cujos braços fizeram a força de trabalho em tempos hostis: os escravos africanos, os europeus, sobretudo italianos, e os sírio-libaneses. E os sinais remanescentes do período em que o poder político fez morada naquelas paragens, na figura dos fundadores.

Santa Eudóxia surgiu às margens do córrego Itararé. Teve por habitantes na sua origem indígenas e posseiros e abrigou uma capela dedicada a São Sebastião. O padroeiro deu os primeiros nomes ao povoado: São Sebastião do Itararé e, depois, São Sebastião do Quilombo, referência aos refúgios de escravos que ali existiram.

A presença deles foi marcante e não só quando a história começou. No período cafeeiro Francisco da Cunha Bueno, em parceria com seu sobrinho e genro Alfredo Ellis, trouxe para a região mais de uma centena de escravos vindos de outras fazendas suas em Itaqueri da Serra. Cunha Bueno se casara com Eudóxia Nogueira Teixeira de Oliveira, da família do homem mais rico da região: o Visconde do Rio Claro, José Estanislau de Oliveira, filho do português “Gica Retórica”. Na família do Visconde sobravam títulos de nobreza distribuídos por D. Pedro a ponto de ser chamada de o clã dos barões.

Eudóxia, morta por envenenamento, foi homenageada pelo marido com o nome da fazenda que se tornou a maior produtora de café da região. Com alguns requintes, como a de possuir um porto para escoar a produção pelo rio Mogi até Porto Ferreira, onde a ferrovia já havia chegado.

Logo depois, a ferrovia também chegou a São Carlos e a produção passou a ser transportada para a cidade. Finalmente, em 1892 a Companhia Paulista de Estradas de Ferro inaugurou o ramal de Santa Eudóxia. E não era qualquer café o que se transportava para o porto de Santos. De alta qualidade, no período de 1881 a 1898, nos tempos da Rainha Vitória, o produto alcançou os primeiros lugares na Bolsa de Café de Londres. A Fazenda Santa Eudóxia chegou a produzir, em 1887 e 1889, 60 mil arrobas.

Entre os nomes de relevo na história do Distrito esteve um escravo: Roque José Florêncio, nascido em Sorocaba e foi comprado para ser reprodutor em Santa Eudóxia. Familiares e um estudo afirmam que ele teve mais de 200 filhos e, segundo a certidão de óbito, morreu com 130 anos. Pespegaram-lhe o apelido de Pata Seca, nome do sítio, área remanescente Quilombola, que ainda resiste.

Se no final do Século XIX faltasse ação no filme da nossa história, ela seria garantida – como foi – pela fuga em massa de moradores de São Carlos do Pinhal que acorreram a Santa Eudóxia fugindo de uma terrível epidemia de febra amarela que assolou a cidade. E pelo desfecho da caçada a um perigoso bandoleiro que aterrorizou a região. Dioguinho (Diogo da Rocha Figueira), a quem se atribuíam dezenas de assassinatos, foi morto no rio Mogi em 1º. de maio de 1897.

O período da escravatura já havia ficado para trás quando Santa Eudóxia recebeu imigrantes para trabalhar nas fazendas de café. Os ventos do progresso começariam a soprar, porém apenas em 1899 Santa Eudóxia passou a ser distrito policial, em 1912 tornou-se Distrito de Paz e muito mais tarde, em 1933, o Distrito passou a existir da forma como o conhecemos.

As marcas do passado estão por toda parte, desde a Fazenda Grande (Fazenda Santa Eudóxia), tombada pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo), passando pela Figueira Branca e a São Roberto. Nas festas dos padroeiros, São Sebastião e Santa Eudóxia. Nas tradições da procissão dos cavaleiros, da folia de reis, na festa da laranja e açúcar e mais recentemente, na festa do torresmo.

Ao caldeirão cultural se juntaram os migrantes nordestinos chegados a partir dos anos 1970, fugindo da seca para trabalhar no cultivo de cana de açúcar.

Se hoje a população de Santa Eudóxia é pequena – cerca de 3 mil habitantes – a riqueza cultural é imensa. Assim como a riqueza natural da região do rio Mogi Guaçu e o Vale do Quilombo, que sugerem investimentos em turismo – que estão tardando a chegar, mas um dia chegarão.

O Museu de Pedra, que recebeu o nome de Ayrton Salvador (Tinho) Leopoldino Junior, surgiu para que as pessoas que visitam Santa Eudóxia conheçam a história do maior distrito rural do interior paulista – sim, este é um título legítimo. Um lugar repleto de cachoeiras – como a do Itararé – e com o inusitado de uma balsa construída há mais de 70 anos para a travessia do rio Mogi (atualmente desativada).

Quando vim morar em São Carlos, em 1972, tinha colegas de classe no curso primário do Instituto de Educação Dr.Álvaro Guião que eram de Santa Eudóxia,  amigos com os quais eu me identificava por ser de Boa Esperança.  Eu admirava o esforço deles, que enfrentavam a estrada de terra para chegar à escola, que tinha como elo com o Distrito um mestre notável, o professor  Ítalo Savelli – homem de múltiplas atividades - que possuiu fazenda de café em Santa Eudóxia.

Savelli descendia de italianos como muitas das famílias estabelecidas em Santa Eudóxia, como os Tassim, Salatino, Mangerona, Mirarchi, Mazzari, Strozzi, Chinelati, Prataviera. Entre as tradicionais estão também os Muller, Françoso (dos vereadores,com reforço de Moisés Lazarine), e os Ferrante, Miguel, Correia Bueno, Diagonel, Alves, Staine, Nascimento, Laureano, Ribeiro (atuais donos da Fazenda Figueira Branca e entusiastas do pendor turístico da localidade).

Quando passei a trabalhar na imprensa de São Carlos, o noticiário trazia com frequência promessas da pavimentação da estrada vicinal Abel Terruggi, que tardou a vir, mas veio. Por essa época, conheci a família Prataviera, da família de minha esposa: seu Antonio (Nicão), dona Ivone, os filhos Antonio Carlos (Carlão), João, Pedro, Ana. Pessoas pelas quais tive contato com o autêntico “estilo Santa Eudóxia”, feito de simplicidade, de trabalho, de amizade, de camaradagem, de espírito agregador e festeiro. Tradutores de um jeito de ser muito frequente nas famílias do distrito.

A emancipação em relação a São Carlos quase se tornou realidade entre os anos de 1995 e 1999, quando um projeto para a criação de um novo município tramitou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A tramitação foi suspensa, mas talvez esse seja o destino inescapável de Santa Eudóxia no futuro. E também a oportunidade de se tornar um centro turístico, preservando seu patrimônio.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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