Menu
quarta, 01 de dezembro de 2021
Memória São-carlense

Uma cidade para viver e lembrar

16 Nov 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Uma cidade para viver e lembrar - Crédito: Cirilo Braga/Arquivo histórico Crédito: Cirilo Braga/Arquivo histórico

Eu desembarquei em São Carlos pela primeira vez vindo de trem, como tantas pessoas para quem o primeiro cartão postal são-carlense foi a Praça Antonio Prado situada em frente à estação ferroviária.

Daquelas cercanias tinha-se uma visão privilegiada do centro. E o fato de a praça ser praticamente uma rotatória compunha a visão de uma cidade charmosa que casava com o imaginário. São Carlos sempre desfrutou de uma aura de charme aos olhos dos habitantes da região. Nunca foi um lugar comum ou um clichê e nunca será.

A cidade na virada dos anos 1960-70 conservava o aspecto da era dos bondes que ficara no passado. Eles já haviam saído de circulação, assim como a Escola Normal já vivia outra época. Ainda assim cidade do Bispo e da Escola de Engenharia da USP, que fabricava tratores, geladeiras e lápis, podia ser tudo, menos comum.

Viver em uma cidade por muitos anos e incorporar-se a seus moradores é como um casamento daqueles que o tempo não esgarça. Basta se afastar um pouco para observar à distância e em perspectiva para realçar seu valor. Seja pela diversidade que se concentra em pouco espaço, seja pela bela história construída por gente vinda de todos os cantos, de “laço firme e braço forte”, como diz a canção.

A certeza é que não terá sido pelos belos olhos que a cidade recebeu a única universidade federal do interior de São Paulo (empresta parte desse gosto a Araras e Sorocaba, que se rendem à “matriz”). Não terá sido pela água milagrosa da Biquinha do Padre que aqui se formou o maior parque industrial da região. Nem pelas contendas políticas históricas que se converteu em polo tecnológico.

As “subidas e descidas” de São Carlos foram lembradas no livro “Às Margens do Sena”, de memórias do jornalista Reali Jr. Muito antes de fazer história na imprensa como o correspondente em Paris, o “embaixador não-oficial do Brasil na França”, Reali passou aqui parte da infância e dela relembra com carinho no depoimento a Gianni Carta: “Bons tempos aquele de São Carlos!”, diz na página 36.

Outro jornalista que se tornou escritor renomado, o araraquarense Ignácio de Loyola Brandão em seu livro “Dentes ao Sol” dá a palavra a um personagem-narrador que fora “exilado nas montanhas de São Carlos” e ele afirma: “O bonde vai devagar e gosto de olhar a cidade que conserva tantas coisas que nenhum outro tem. Não sei se foi porque me receberam assim, mas tenho amor a este lugar”. Em outro trecho, diz: “Lembra quando a gente era criança? Era a diferença nossa para São Carlos. Lá tinha bonde”.

A cidade é única em nosso universo pessoal e disso me dou conta nos dias de hoje ao passar pelas cercanias do prédio da Escola “Dr. Álvaro Guião” e constatar o quanto aquela região me diz respeito: ali perto, na rua Padre Teixeira, foi onde minha família veio morar no começo dos anos 1970.

“Posso te falar dos sonhos, das flores, de como a cidade mudou”, diz uma canção de Herbert Vianna que há muito não ouvia. Sonhos, flores e mudanças ligam a atualidade àquele tempo.

Os sonhos não eram tantos, embora fôssemos uma versão daqueles seriados de TV. Morávamos numa casa espaçosa, onde cabiam gatos, cachorros, passarinhos e até frangos que passaram uma temporada no porão. São Carlos para nós, vindos de Boa Esperança do Sul, era o quadrilátero em torno da escola “Dr. Álvaro Guião”. Na época, “Instituto de Educação”. No bolso do meu uniforme havia a inscrição “CPA do IEE”, que viria ser Curso Primário de Aplicação do Instituto de Educação Estadual. Na minha classe se misturavam alunos vindos de Santa Eudóxia e familiares de Ernesto Pereira Lopes. Outros tempos.

O prédio está preservado, segue belíssimo, mas para falar de flores, elas já não existem como existiam nos canteiros fronteiriços da escola. O vandalismo parecia seletivo, pois poupava as plantas como o amor-perfeito nos canteiros, mas pichava o busto do patrono. A primeira crônica que publiquei num jornal da cidade e que apareceu certa manhã no velho “O Diário” foi condenando os rabiscos pichados no prédio da escola. Algo um tanto conservador para um jovem, mas era uma causa nobre, como notou o professor Carlos Sampaio, colunista do jornal.

No entorno de onde morávamos havia escolas, supermercados, igrejas, sorveterias e bares como a Padaria Perez, a bomboniere Elias, o Bar do Cidão e as sorveterias Kawakami, Romanelli e Polar, além é claro da livraria Moderna. Eu achava bacanas os nomes das ruas como Aquidaban e Episcopal e o apito das fábricas de tapetes e de conservas que me avisavam que era hora de tomar banho para ir à escola. A gente nem precisava olhar o relógio, tanto assim que um dia um senhor sisudo, ao lhe serem perguntadas as horas, respondeu que “relógio de pobre é em cima da igreja”. Da igreja São Sebastião, onde levávamos nossas preces. Minha casa ficava no meio do caminho entre aquela paróquia – criada em 72 – e a Catedral, onde me fascinavam os vitrais coloridos.

No centro da cidade, despontavam lugares como o bar Maneco, o restaurante Bambu, o Café do Centro, entre outros. 

Ao passar hoje pelas cercanias do antigo supermercado Dotto, tudo me parece familiar; tem, por exemplo, a nostalgia da figura do saudoso Rubens Desiderá, personagem estimadíssimo e a quem meu pai contava algumas de suas anedotas.

Meu pai já estava aposentado da rotina de escrivão de Polícia e tinha uma capacidade muito grande de analisar o comportamento das pessoas. Por isso criava as próprias histórias, piadas e lendas que contava.  Aquele microcentro da cidade era para ele um solo fértil. Os velhos amigos se divertiam tanto quanto os recém-chegados às imediações da imperdível Padaria Perez do Vado e do Manoel.

Os anos 1970 vividos ali entre as ruas Padre Teixeira e São Joaquim deram lições de como gostar da São Carlos tradicional. A que apreciava lavar as calçadas, reclamar do IPTU, ir à missa dos domingos, ler a Coluna do Adu com religiosa frequência, se encontrar no supermercado, invariavelmente reclamando dos preços, e ver Ronald Golias na “Praça da Alegria”, fazendo referências à cidade”.

De lá para cá São Carlos espichou, foi ganhando mais carros nas ruas, escritórios no lugar de moradias, edifícios e estacionamentos onde existiam casarões, farmácias onde havia bares e mercearias e na área central apenas a aparência de edifícios como o Edifício Rosa de Prata ajudam não desfazer o elo com outra época.

Não se diga que o trânsito de veículos ficou pior na região, pois eram comuns as colisões e atropelamentos como os que vitimaram o jornalista Totó e dona Pasqueta, a senhora que estava sempre acompanhada de seu poodle.

Cruzando as ruas do velho quadrilátero, reflito que homens e cidades se traduzem no que é efêmero e no que permanece. Ainda que alguém viva por curto espaço de tempo na cidade, de alguma forma ela o acompanhará na memória de suas ruas, paisagens, casas, pessoas, vilas, prédios, árvores, rios, praças e tipos humanos. O amanhecer, o entardecer, as noites, até o cheiro da cidade. O que chamamos de saudade é a lembrança pungente da vida que nela se realizou e se realiza.

Ficar na cidade é uma escolha nem sempre admitida. Damos mil razões para ficar quando lá no fundo do coração, a gente sabe que é apenas vontade de não ir embora.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

Comments system Cackle

Leia Também

Últimas Notícias