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quinta, 22 de outubro de 2020
Artigo Netto Donato

Transportando a crise “pra” longe

31 Mai 2018 - 07h03Por (*) Netto Donato
Transportando a crise “pra” longe -

Historicamente, os governos brasileiros sempre privilegiaram o transporte rodoviário como principal forma de escoamento da produção nacional e de abastecimento das cidades, tendo em vista seu menor custo de implantação no curto prazo, o que acabou por criar grandes gargalos e uma enorme dependência desse tipo de transporte ao setor produtivo, que por sinal é caro quando se fala nos valores necessários para sua manutenção.

Assim, com a atual, e esperamos que transitória, paralisação dos caminhoneiros, ficamos sem produtos de primeira necessidade e alimentos (como verduras, legumes e frutas) nos mercados, bem como falta de combustíveis nos postos e aeroportos, sem falarmos que vimos muitos investimentos e produção se escoarem pelo ralo como, por exemplo, produtores jogando fora leite ou doando à população ou simplesmente perdendo-a por falta de insumos para sua manutenção e sobrevivência como em granjas e pastos.

Uma prova da nossa dependência do transporte rodoviário é o histórico da malha ferroviária brasileira, vez que dos mais de 29 mil quilômetros de ferrovia que existem, cerca de 10 mil foram construídos pelo imperador Dom Pedro II ainda no século passado. Ou seja, a infraestrutura atualmente disponível segue uma lógica que não serve as nossas necessidades, mesmo sendo evidente que o transporte ferroviário é vital no escoamento de minério de ferro e soja, as duas principais commodities do país.

Fato é que a nossa malha ferroviária atual está em condições precárias, sucateada e pendente de investimento, vez que, repise-se, a decisão política priorizou a expansão das rodovias em detrimento das ferrovias, o que culminou em um impacto negativo para as operações logísticas, pois isso deixou o transporte de cargas mais caro, principalmente para grandes volumes e longos percursos, já que enquanto uma carreta transporta em média 30 toneladas, um trem consegue transportar 3 mil toneladas, mesmo sabendo que a ferrovia é 20% mais barata que as estradas, principalmente em distâncias acima de 600 quilômetros.

Além, um estudo realizado pelo IBGE em 2015 revelou que mais de 62% da carga transportada pelo país usa o modal rodoviário, ao passo que somente 23% utiliza a malha ferroviária, e 15% fica na conta de outros modais. Assim, em comparação com os modais norte-americanos temos um contraste muito grande, pois nos Estados Unidos, o transporte ferroviário representa 50% do total de cargas transportadas.

Sim, é sabido que os custos de implantação de um modal ferroviário eficiente em um país de dimensões continentais é bem superior se comparados aos custos relativos ao transporte rodoviário, porém ao longo prazo este investimento tem maior retorno, pois seus custos de operação são bem menores que os gastos com o modal rodoviário, sendo certo de que desta forma, poderíamos transportar muito mais cargas, bem como passageiros e com eficiência.

Desta forma, com a atual situação que nos desafia, devemos ser inventivos e buscarmos através de fomento e planejamento investimentos e projetos que beneficiariam um número grande de pessoas e facilitariam a aproximação e encurtamento das distâncias entre cidades, sem falarmos nas possibilidades de novas oportunidades de emprego com a expansão deste modal e o fim de nossa dependência do transporte rodoviário.

É evidente que para uma mudança significativa são necessários investimentos de grande porte e, segundo a Confederação Nacional da Indústria, o país precisaria de mais de R$ 55 bilhões para a reforma e a construção de novas ferrovias. Esse vultoso valor deve ser considerado na medida em que se deve levar em consideração o fato de que esses recursos podem retornar com a economia proporcionada pela maior utilização deste tipo de transporte.

(*) O autor é advogado, especialista em Direito Público e mestre em Gestão e Políticas Públicas, na Fundação Getúlio Vargas - FGV/SP.

O exposto artigo não reflete, necessariamente, o pensamento do São Carlos Agora.

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