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segunda, 28 de setembro de 2020
Artigo Netto Donato

Quando seremos independentes do descaso?

07 Set 2018 - 07h55Por (*) Netto Donato
Quando seremos independentes do descaso? -

Há 196 anos, no dia 7 de setembro, Dom Pedro exclamava “Independência ou Morte!” às margens do Rio Ipiranga. O grito externava a revolta do então príncipe com a Coroa Portuguesa com as tentativas de influenciar os rumos do Brasil. O processo de Independência ainda seria conturbado, com guerras civis ocorrendo no país e retaliações por parte do Rei D. João VI.

Ao longo desses dois séculos de independência, o Brasil passou por diversas e intensas mudanças políticas, econômicas e sociais. Deixou de ser Império para se tornar República, alternou períodos democráticos com ditaduras, conseguiu debelar o dragão inflacionário, passou por intenso processo de distribuição de renda e ascensão social. Entretanto, há um elemento que ainda se mantem presente no cotidiano nacional: o descaso, proveniente da falta de bons gestores no setor público.

Tome-se como exemplo recente algo que entristeceu a todos nós: o incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Reunidos ali, estavam mais de 20 milhões de itens, alguns de grande importância na nossa história, além do acervo científico. Desde 2004, integrantes do governo estadual do Rio de Janeiro alertavam para os riscos do museu ser destruído por um incêndio, dadas as más condições em que se encontravam suas instalações elétricas.

Ao longo desses 14 anos, o poder público pouco fez para reformar e modernizar o museu. Em 2014, houve a destinação de emendas parlamentares para tal fim, porém elas acabaram não sendo liberadas no orçamento. Além disso, nos últimos anos, a UFRJ (responsável pelo museu), vinha repassando apenas dois terços da verba necessária para sua manutenção. Por fim, um crédito do BNDES, liberado esse ano, também com vistas a modernizar o museu, não chegou a tempo.

Por conta do descaso e da falta de prioridades dos governantes, tivemos uma parte de nossa história e identidade queimados no último domingo. É inaceitável ainda convivermos com esse tipo de falha, mesmo dois séculos após a nossa Independência. Ela se soma a outras falhas, como a ausência de saneamento básico em quase metade dos lares do país, o déficit habitacional e a infraestrutura precária, prejudicando o escoamento da produção.

Para sermos independentes do descaso, precisamos de governantes com espírito público, preparados e cientes dos desafios que a gestão pública oferece. Saber como alocar melhor os recursos disponíveis, elencando as prioridades do governo é tarefa fundamental para evitar tragédias, como o incêndio no Museu Nacional, e para garantir uma melhor qualidade de vida para a sociedade.

(*) O autor é advogado, especialista em Direito Público e mestre em Gestão e Políticas Públicas, na Fundação Getúlio Vargas - FGV/SP.

O exposto artigo não reflete, necessariamente, o pensamento do São Carlos Agora.

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