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sábado, 26 de setembro de 2020
Memória São-carlense

Professores Tolentino e Ary: o farol dos grandes mestres

19 Out 2018 - 06h59Por (*) Cirilo Braga
Professores Tolentino e Ary: o farol dos grandes mestres - Crédito: Arquivo Histórico Crédito: Arquivo Histórico

A Educação em São Carlos na segunda metade do século passado teve nos professores Mário Tolentino e Ary Pinto das Neves fiéis esgrimistas do bom combate nas trincheiras da cultura, da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Se a cidade ganhou aspecto de “Atenas Paulista” antes mesmo dos anos 1950, no período subsequente contou com educadores do primeiro time, capazes de irradiar seus conhecimentos para além do ambiente escolar, alcançando toda a comunidade.

Quando se fala da vocação de uma cidade para a tarefa educacional, é preciso ter em conta que aquele que sustenta a escola é o professor. É aquele que abraça a profissão como fizeram estes dois grandes mestres, conscientes de que toda transformação pode ter o seu nascedouro no universo da sala de aula. Em escolas públicas e particulares, nas universidades. Onde quer que estivessem, espalhavam gestos, palavras e atitudes, nascidas do ânimo de ensinar.

Mário Tolentino dizia que sempre teve “vontade de conhecer o que existe atrás do horizonte”. Ary repetia a seus alunos a frase dos navegantes, “el levante por el poente”, lembrando que achavam possível alcançar as Índias, no Ocidente, navegando em direção ao Oriente. Eram mesmo ambos os mestres, viajantes pelos caminhos da cultura.

Tolentino dedicou sua vida ao ensino de Química nos ensinos fundamental, médio e superior.  Sua sólida educação incluiu o aprendizado de outros idiomas e o despertar do gosto pela ciência desde muito cedo. Formou-se na então Escola Normal Secundária de São Carlos (hoje "Escola Estadual Dr. Álvaro Guião"), na qual passou a lecionar Química no curso ginasial, a partir de 1934. Na década de 1940 lecionou em Escola Agrícola na cidade de Espírito Santo do Pinhal, para onde regressou após exercer o cargo de assessor do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, durante o Estado Novo. Depois de curto tempo no ramo empresarial, voltou ao mundo acadêmico, vindo trabalhar na Escola de Engenharia da Universidade de São Paulo e no Curso Anglo Latino. Em 1970, fez curso de especialização em Metodologia do Ensino da Química no Beaver College, em Glenside, Pensilvânia (EUA). Seguiu-se a organização dos laboratórios dos primeiros anos da Universidade Federal de São Carlos onde organizou o Departamento de Química, do qual foi professor titular e chefe e onde se aposentou, recebendo a distinção do único título de “Doutor Honoris Causa” atribuído pela universidade.

“Mario Tolentino era um professor que compartilhava as ideias do astrofísico Carl Sagan para quem é fundamental ensinar ao jovem a admirar a natureza e a respeitar o trabalho do cientista”, atestou seu ex-aluno, o professor Antonio Carlos Martins de Camargo, da Universidade de São Paulo (Instituto Butantan), em discurso na 67ª.Reunião da SBPC em 2015. Camargo definiu o professor como “um verdadeiro mestre, um construtor de cientistas, um professor que sabia que a ciência é essencial à vida desse planeta”.

Já aposentado, Mário Tolentino assumiu a função de coordenador da área de ciências do Anglo-São Carlos e do Núcleo de Progresso, Pesquisa e Qualidade das Faculdades Asser. Devotado à divulgação científica e à formação de novos pesquisadores, essa característica se fez presente nas suas publicações, como também na sua atuação como orientador de jovens cientistas.

Alguém que não o conhecesse poderia adivinhar que sua inspiração eram as imortais expedições de Júlio Verne, como também deviam ser o mote para as jornadas empreendidas pelo professor Ary.

Ambos, coincidentemente, foram contemporâneos como vereadores na Câmara Municipal no início dos anos 1960.

As semelhanças entre eles iam, portanto, muito além da voz grave e pausada. Foram cidadãos que viveram intensamente o seu tempo. E abraçaram São Carlos e sua juventude como signo de esperança que todo aluno é para um educador de verdade.

Nascido na capital paulista no outono de 1919, Ary chegou a São Carlos em 1944 para lecionar no Colégio Diocesano, em 1944, a convite de D.Ruy Serra. Por meio de concurso público, ingressou no magistério oficial, dando aulas nos Institutos de Educação de São Carlos e Descalvado.Participou da Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário, do Ministério da Educação e Cultura e exerceu funções de administração de ensino no Colégio Diocesano, no Instituto de Educação de Descalvado e na Secretaria Estadual de Educação.

Instalou e dirigiu a Escola “Antonio Militão de Lima”, obtendo a construção de seu atual edifício escolar. A construção de unidades escolares foi a marca de seu trabalho como diretor do Departamento de Educação do Município. O amor por São Carlos o levou a especializar-se em estudos sobre a história da cidade e da região. Tornou-se referência como historiador, autor de livros como “O Jardim Público de São Carlos do Pinhal” (1983), “São Carlos na Esteira do Tempo” (1984) e “São Carlos- da escolinha de primeiras letras às universidades de prestígio internacional” (1991).

Com o professor Ary aprendia-se verdadeiramente história. Não apenas aquela história que pode ser encontrada em alentados volumes, mas uma história “viva” pois o aluno era transportado aos acontecimentos. Em outras palavras “vivia-se o passado” ou, melhor dizendo, “viajava-se pelo passado”. Fazia uma fascinante viagem através do tempo.

Quando o ano de 2004 levou embora Mário Tolentino e Ary Pinto das Neves, São Carlos teve a noção do quanto se beneficiou com a obra admirável de ambos.

Intelectuais que não apenas ensinaram a seus alunos o conteúdo das matérias curriculares, mas ensinaram os estudantes a pensar, estimularam a refletir.

Trabalhando na formação de muitas gerações, acompanharam a evolução do mundo, colocando o docente onde ele sempre deve estar: no centro do processo educacional.

Quem teve aulas com Mário e Ary jamais esqueceu. Suas aulas acendiam a vontade de saber mais, daí não ser nem um pouco de exagero afirmar que a semente que lançaram encontrou em São Carlos um solo fértil para florescer.

Um grande privilégio cuja seiva é a certeza de que o encantamento na educação é trabalhar parte do cotidiano e não apenas o que está contido na estática pedagogia dos livros.

É bem verdade que o estilo dos mestres consumia-lhes muita energia e doses inesgotáveis de criatividade. Mas é fato que muito antes de entrar em moda a palavra parceria, eles souberam interagir com as universidades, ensinando seus alunos a beber na fonte do conhecimento gerado por elas.

Tudo porque cultivavam muitas das virtudes essenciais para o trabalho na docência, como a humildade, a integridade, a pluralidade e a generosidade. Sobre esses pilares ergueram a obra que hoje constatamos sólida. Quando os governos deparam com o desafio de resgatar a qualidade do ensino médio, para que seja possível dar um horizonte para os jovens de hoje, existem caminhos a seguir. Neste particular, diga-se, revisitar as lições de Mário Tolentino e Ary Pinto das Neves nos apontarão boas pistas.

Alvos de merecidas homenagens oficiais, o professor Tolentino dá nome ao complexo viário que liga a Vila Marina ao trevo de acesso à UFSCar e ao Museu da Ciência, e o professor Ary nomeia uma escola estadual localizada no bairro Cidade Aracy.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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