quinta, 30 de maio de 2024
Resplandecente Alma

Parto Materno e Parto Paterno – nascer para o mundo e nascer para a vida

20 Fev 2020 - 17h34Por Anaísa Mazari
Parto Materno e Parto Paterno – nascer para o mundo e nascer para a vida - Crédito: Arquivo pessoal Crédito: Arquivo pessoal
Ao longo da trajetória da vida, vários ciclos se iniciam e se encerram sempre suscitando a continuidade, a mudança e a evolução. O Parto Materno certamente é algo prontamente compreensível e cotidiano. Na grande maioria das vezes, é momento de alegria o nascimento de um bebê, de uma nova vida, trazendo o recomeço e seguimento das gerações familiares e a permanência da família vivificada e se perpetuando de forma sistêmica – o que geralmente traz muito prazer e sensação de renovo para os sistemas em geral, desde os sistemas familiares até os sistemas maiores. Vida se renova, continua, convida para novos aprendizados e para a vivência de novas veredas.
 
O Parto Materno é o processo biológico e natural que encerra o ciclo de formação do bebê no contexto da vida intrauterina, com o significado de que, embora ainda sendo necessários muitos cuidados, a pequena vida chegou ao seu momento de continuar seu desenvolvimento fora do útero. O útero guarda em si proteções diversas e condições equilibradas para esse processo de formação. Porém, o desenvolvimento só é possível após o parto. Quando chega o momento do nascimento, desconfortos biológicos sinalizam que o ciclo intrauterino se findou. E que apenas nascendo para o mundo, demais desenvolvimentos serão possíveis e desvelarão a beleza da vida e suas ilimitadas possibilidades.  
 
Para quem tem a experiência de já ter acompanhado cada fase de um ou mais filhos ou mesmo outras crianças nos mais variados graus de parentesco ou outras aproximações, as sensações de observarem uma criança crescer e conquistar habilidades são muito prazerosas em cada etapa, cada ganho, cada avanço. Assim caminham para a idade adulta e chegam à necessidade do Parto Paterno, quando estão abastecidos para a vida e a função dos pais muda, por já se tratar de um novo ciclo para o sistema familiar. Até então, esforços contínuos foram necessários para a constituição do filho adulto. Estando adulto, é uma necessidade que a relação com os pais seja ressignificada tanto pelos pais, como pelos filhos.  
 
Função materna e função paterna quando equilibradas e saudáveis têm seus papéis preponderantes no desenvolvimento emocional dos filhos. Ao passo que a função materna confere sentimentos de segurança e de autoproteção que devem estar internalizados no filho adulto, a função paterna corresponde à capacidade de lidar com a aventura, com a passagem para novos estágios com coragem e com o ato de se arriscar. Ambas as funções devem estar em equilíbrio dentro de um adulto emocionalmente saudável. Quanto mais o tempo passa, mais a vida exigirá deste adulto que ele consiga manejar segurança e aventura para seguir a plenitude do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que deverá prever riscos, avaliar pertinências e assim viabilizar a própria caminhada de maneira consciente e sempre avançando.      
 
O Parto Paterno pode ser exercido por ambos os pais ou cuidadores. Nem sempre é tão comemorado como no caso do Parto Materno. Deveria também ser saudavelmente comemorado por se tratar de momento de novo ciclo em que a continuidade do sistema familiar vai ganhando cada vez mais força. As razões da mudança de ciclo familiar não serem vivenciadas naturalmente advêm de muitos fenômenos e muitos referenciais de relacionamento herdados no cerne das famílias, que em muitas situações favorecem aspectos de repetições doentias. Alguns deles podem ser o fato de os filhos estarem ocupando o vazio dos pais no sistema familiar; filhos com característica parental, ou seja trocando com pais e ocupando funções de cuidado que não são deles; filhos desqualificados ao longo do desenvolvimento, sentindo-se incapazes de voar da “gaiola de ouro” de proteção da família de origem; pais que têm filhos como objetivos de vida, pouco conscientes de que, apesar de serem pais e mães para sempre, a função parental é temporária e demanda novos papéis e adaptações ao longo da vida relacional; pais que projetam nos filhos realizações diversas que poderiam ser alcançadas através da própria caminhada e das próprias conquistas; dependências emocionais diversas e preparação insuficiente para viver sem os filhos. E por fim, a compreensão de que filhos não são a Vida – fazem parte dela e Vida é maior do que qualquer um de nós e maior que nossos sistemas familiares, oferecendo muitas outras possibilidades de realização como um sistema maior.
 
Filhos autorizados a seguirem o fluxo da continuidade da Vida serão preponderantes para a evolução do sistema familiar. O Parto Paterno é essencial para esta continuidade. Que possa ser visto como algo natural, razão de comemorações e felicidade tanto quanto o Parto Materno. E que a continuidade da Vida seja a prioridade para sistemas mais saudáveis e evoluídos – sem jamais nos esquecermos de que sistemicamente todos se beneficiarão de sistemas com pessoas mais conscientes e libertas emocionalmente, considerando as inegáveis conexões de todos os sistemas.

 

Anaísa Mazari, é graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. CRP 06/100271, especialista em  Saúde da Família e Comunidade através do Programa de Residência Multiprofissional da UFSCAr,   Terapeuta e Consteladora Sistêmica através do Instituto Brasileiro de Consciência Sistêmica - IBRACS Ribeirão Preto. Atua como psicóloga clínica e Consteladora.

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